Mostrando postagens com marcador cinema. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador cinema. Mostrar todas as postagens

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

UM FILME CHAMADO “AMOR”



Por José Farid Zaine
Twitter: @faridzaine
Facebook: Farid Zaine

“Amor” (Amour) , do diretor austríaco Michael Haneke, estreia hoje nos cinemas brasileiros. Trata-se de uma coprodução entre Àustria, França e Alemanha, mas representa a Áustria no Oscar.  É um belíssimo drama sobre um casal de idosos, professores de música aposentados, e seu cotidiano tranquilo que é quebrado por grave doença da mulher. O homem, Georges, precisará colocar à prova toda sua capacidade de doação, todo seu arsenal de carinho e atenção, todo o seu tempo e paciência para minimizar o sofrimento da mulher amada, Anna.



A história, tratada com excepcional realismo e com a crueza necessária, vem conquistando a crítica do mundo inteiro:  “Amor” ganhou a Palma de Ouro em Cannes em 2012, acaba de levar o Globo de Ouro de Melhor Filme Estrangeiro e está indicado em cinco categorias do Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Diretor e melhor atriz para Emanuelle Riva, indicada para praticamente todos os prêmios do cinema em relação a 2012.

Com quase 86 anos, Riva tem sido festejada por sua impressionante interpretação de Anna,  mulher que sofre dois derrames e fica presa a um leito, dependendo inteiramente de outras pessoas, principalmente do marido, Georges,  vivido com intensidade ímpar por outro “monstro sagrado” do cinema francês, Jean-Louis Trintignant. Para completar, a filha do casal é interpretada por Isabelle Huppert, outro grande nome do cinema francês contemporâneo. Huppert foi a intérprete de um dos melhores filmes do ano, o drama baseado em fatos reais “Em Nome de Deus” (Captive), dirigido pelo filipino Brillante Mendoza.

Impossível falar de Emmanuelle Riva sem mencionar o clássico “Hiroshima, Meu Amor” (1959), que a projetou internacionalmente , um filme indispensável, produção franco-japonesa dirigida por Alain Resnais, com roteiro de Marguerite Duras.

Jean-Louis Trintignant , aos 82 anos, é  o par perfeito para Riva em “Amor”. A carreira dele marcou o cinema francês desde “...E Deus Criou a Mulher”, dirigido por Roger Vadim e ao lado da estrela que surgia, Brigitte Bardot! Seu maior  sucesso internacional viria com o belo “Um Homem, Uma Mulher” (1966), de Claude Lelouch, em que ele fez a parceria inesquecível com Anouk Aimée. “Um Homem, Uma Mulher” conquistou público e crítica no mundo inteiro, sendo o vencedor da Palma de Ouro em Cannes e do Oscar de Melhor Filme  estrangeiro, feito  que provavelmente será repetido por “Amor”. Para o público brasileiro “Um Homem, Uma Mulher” tem um ingrediente a mais para completar o prazer de ver o filme: na trilha sonora está o “Samba da Bênção”, de Vinícius de Moraes e Baden Powell.

Michael Haneke, o diretor austríaco mais conceituado na esfera cinematográfica atualmente, com talento reconhecido pelos críticos de todo o mundo, já nos trouxe beleza e inquietação com o magnífico “A Fita Branca”, premiado com a Palma de Ouro em Cannes em 2009 e indicado ao Oscar 2010 de Melhor Filme estrangeiro, prêmio que perdeu para “O Segredo dos Seus Olhos”, da Argentina, ótimo filme, mas muito inferior .  Em “Amor”, Haneke, além de diretor,  é  autor do roteiro, categoria também indicada ao Oscar.

É muito natural que esperemos que um filme chamado “Amor” seja romântico, doce, suave...e então nos surpreendemos com a dureza da história concebida por  Haneke e a forma com que ele a conduz colocando-nos diante da vida como ela é, diante do tempo implacável e da morte inexorável,  não nos poupando da carga pesada de acompanhar o sofrimento, tanto da mulher condenada pela doença, quanto do marido que, obstinadamente, cuida dela, sabendo que seu estado é irreversível.  Estamos, com certeza, assistindo à mais profunda declaração de amor, mesmo que esta seja sem ramalhetes de flores, violinos ao fundo ou versos inflamados. Sem  nada disso, a obra de Haneke é um filme de amor. Um duro, doloroso, mas belíssimo e extraordinário filme  de amor!

sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

AS DEZ MARAVILHAS DE 2012 – PARTE II



Por José Farid Zaine
Twitter: @faridzaine
Facebook: Farid Zaine

6 - A INVENÇÃO DE HUGO CABRET
Também detentor de 5 Oscar, coincidentemente no ano de “O Artista”, Martin Scorsese faz a sua homenagem ao cinema com essa saborosa história sobre um dos pioneiros da indústria cinematográfica, Georges Mèliés, o criador de “Viagem à Lua”, de 1902! Utilizando-se com maestria da tecnologia 3D, Scorsese construiu um dos mais brilhantes filmes do ano e um de seus melhores trabalhos, o que significa muito diante da filmografia excepcional assinada por ele. Um filme para ver e rever muitas vezes, tanto pela bela história quanto pelas suas qualidades técnicas extraordinárias.

7- O IMPOSSÍVEL
“Inacreditável” foi uma expressão muito usada para qualificar histórias levadas à tela no ano que passou. A realidade, muitas vezes, foi mais espantosa do que qualquer ficção. Um dos exemplos é “O Impossível”, o comovente drama de uma família que se salva do tsunami no sudeste asiático no natal de 2004. Naomi Watts e Ewan MacGregor, em grandes interpretações, dão vida ao casal que vai, com os três filhos pequenos, passar férias num resort na Tailândia, quando são surpreendidos por um dos mais trágicos desastres naturais da história, o tsunami que arrasou uma região inteira e ceifou dezenas de milhares de vidas. O filme é tenso, dramático e tecnicamente perfeito, sem  que o diretor tenha se deixado levar pela tentação de fazer um filme-catástrofe. As magníficas cenas da invasão do resort pela onda gigantesca são usadas na medida certa e com impactante realismo.

8- INTOCÁVEIS



Em agosto chegou ao Brasil o maior êxito comercial francês dos últimos tempos, que levou mais de 20 milhões de pessoas ao cinema, transformando-se na segunda maior bilheteria daquele país. Trata-se de “INTOCÁVEIS” (Intouchables), baseado na história real de um ricaço autoritário que sofre um acidente e fica tetraplégico e sua inusitada relação com um negro senegalês que, sem qualquer preparo, é contratado para cuidar dele. A dupla é vivida com muita propriedade por François Cluzet, o branco rico, e Omar Sy, o imigrante senegalês negro. Um tanto previsível, o filme ganha pela simpatia dos atores e pelas situações que decorrem do aprendizado que dois homens completamente diferentes, acabam tendo um com o outro. Ótimo programa para uma sessão doméstica, uma vez que já está disponível em DVD e Blu-Ray.

9- SKYFALL
O mais novo filme de James Bond, o 23º , “007 – Operação Skyfall”, estreou no Brasil em outubro e é um dos melhores, e isso se deve muito à direção de Sam Mendes, premiado com o Oscar de melhor diretor por “Beleza Americana”. Em “Skyfall”, M., interpretada pela sempre maravilhosa Judi Dench, é o centro das atenções, por causa de decisões suas que teriam desencadeado sérios problemas à segurança britânica e à própria instituição, o MI6. Fala-se, então, de morte e envelhecimento, da perda da juventude, dos problemas que a idade acaba trazendo ao desempenho físico. Então nem mesmo James Bond é imortal? Sam Mendes trata a questão com muita propriedade, conduzindo um quarteto bem afinado de intérpretes: Daniel Craig, Judi Dench, Javier Bardem (sensacional)  e Ralph Fiennes. A música de abertura, cantada por Adele, já é forte candidata ao Oscar de melhor canção. Seria um belo presente pelos 50 anos de “O Satânico Dr.No”, que começou em 1962 uma das mais bem-sucedidas séries cinematográficas de todos os tempos.

10- NO



“NO”, o  filme de Pablo Larraín que representa o Chile no Oscar, e que já figura entre os 9 pré-selecionados, estreou no dia 28 de dezembro, a tempo de ser incluído entre os melhores do ano! Estrelado por Gael Garcia Bernal, “No” revela, de forma clara e contundente, os bastidores da Campanha eleitoral para o Plebiscito realizado no Chile em 1988, em que a população deveria dizer “Sim” para a possibilidade de permanência do ditador Pinochet no poder por mais oito anos, ou “Não”, acabando com uma das piores ditaduras na América do Sul. Gael Garcia Bernal encarna com eficiência o publicitário René Saavedra, um dos responsáveis pela campanha do “Não”, cujo resultado mudou a história do Chile. O filme é magnífico, e chega no momento em que o cinema da América do Sul fica engrandecido com uma obra como esta e outros exemplares do cinema da Argentina e do Brasil. Só não incluo nosso “O Som ao Redor”, ótimo filme do pernambucano Kleber Mendonça Filho entre os grandes do ano, porque foi lançado em 4 de janeiro de 2013. Mas no ano que vem já tem vaga garantida!

Há outros ótimos filmes que poderiam entrar na lista... e, com a proximidade do Oscar, muitas estreias aguardadas ficam para janeiro e fevereiro. Alguns deles, com certeza, figurarão na lista do ano que vem. Até lá, tracemos para nossas vidas o melhor roteiro possível.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

AS DEZ MARAVILHAS DE 2012 – PARTE I



1 – ARGO


Lançado em novembro de 2012, “Argo”,dirigido por Ben Affleck, logo despertou o interesse do mundo inteiro. Como ficaria nas telas um drama real vivido no Irã em 1979, conhecido como a “crise dos reféns”, em que a embaixada americana em Teerã é invadida, reféns são confinados, mas 6 deles conseguem fugir e ficarem escondidos na Embaixada do Canadá, provocando a mais maluca operação de resgate já concebida? Pois quem duvidava de Affleck, o ator ainda galã que se aventurou pelos caminhos da direção, ficou de queixo caído. Ele conseguiu fazer da história real um filme tenso, emocionante, que prende o espectador da primeira sequência – aliás, espetacular- ao desfecho sufocante. Grande momento do cinema em 2012 que deve, com certeza, figurar entre os indicados ao Oscar de melhor filme.

2- A SEPARAÇÃO
Falando em Irã, não pode estar ausente da lista de melhores filmes lançados no Brasil em 2012 este drama do iraniano Asghar Fahradi que levou o Oscar de melhor filme estrangeiro e chegou aos nossos cinemas no dia 20 de janeiro. A história de um casal que vai se separar, porque a mulher pretende sair do país com a filha, escancara o cotidiano em um lugar que nos parece distante, já que pelas imposições de seu regime de governo, poucas coisas de lá chegam inteiras até nós. Diálogos extraordinários, interpretações magníficas e uma direção extremamente precisa transformam “A Separação” num marco vitorioso do cinema asiático, destinado a permanecer e se transformar num clássico.

3- AS AVENTURAS DE PI
Ang Lee é um dos meus diretores favoritos. Ele sempre surpreende, cada vez com um filme completamente diferente, mas mantendo sua discreta elegância para filmar qualquer coisa, de um drama sobre cowboys que se apaixonam (O Segredo de Brokeback Mountain) a lutas marciais com os guerreiros fazendo um verdadeiro balé no espaço (O Tigre e o Dragão). Agora ele faz acontecer no cinema, em 3D, o que parecia impossível para muitos diretores, a transposição do livro “A Vida de Pi” (Life of Pi), do escritor Yann Martel, nascido na Espanha e naturalizado canadense.  O resultado, “As Aventuras de Pi”, considerado por James Cameron, de “Titanic”, uma obra-prima, é um filme de beleza deslumbrante com  uma história originalíssima e encantadora. Estreou em dezembro e já está entre os melhores do ano, devendo figurar também entre os indicados a melhor filme no Oscar que será entregue em fevereiro. Concorrerá com pesos-pesados que só estrearão a partir de janeiro de 2013 no Brasil, como “Lincoln” e “Os Miseráveis”.

4- O ARTISTA
Vencedor do Oscar de Melhor filme e outros 4, o  francês “O Artista” conquistou a crítica e o público, embora merecesse um sucesso muito maior. Em pleno tempo de conquistas tecnológicas avançadíssimas para o cinema, e usando-as muito bem, o diretor fez um filme mudo e em preto e branco, numa poética declaração de amor à sétima arte. Estreou no Brasil em fevereiro de 2012. Clássico instantâneo, indispensável.

5- MOONRISE KINGDOM


Mais uma vez o surpreendente Wes Anderson faz um filme original, diferente, mas sempre interessante. A história de um menino que foge de um acampamento de escoteiros e vai se encontrar com uma garota é a base do roteiro de “Moonrise Kingdom”, que estreou no Brasil em outubro, mantendo-se aqui  o título original. Com delicadeza, humor e emoção, além de uma certa dose de ironia,  a trama flui com facilidade, transformando situações e personagens estranhas num conjunto bastante agradável. No elenco, nomes consagrados como Bruce Willis, Edward Norton, Tilda Swinton, Bill Murray e Frances McDormand dão peso e prestígio a esta comédia dramática. Com fotografia muito boa, direção de arte caprichada e ótima trilha sonora a cargo do experiente Alexandre Desplat, o filme de Anderson conquistou seu espaço entre os melhores do ano.

Na próxima semana concluirei a relação daqueles que considerei os melhores filmes lançados em 2012 no Brasil. Vocês, amigos leitores e leitoras, já fizeram suas listas? Espero vê-las no meu e-mail: farid.cultura@uol.com.br


sexta-feira, 28 de dezembro de 2012

COMO NO CINEMA


Por José Farid Zainefarid.cultura@uol.com.br
Twitter: @faridzaine
Facebook: Farid Zaine

“O Moço acordou meio atordoado. Dois dias de festas por ocasião do Natal, muita comida e um certo exagero na bebida. Tocou o telefone, ele atendeu enquanto ligava a TV. Falava com um amigo enquanto mudava de canal com o controle remoto, inteiramente desinteressado. Ria das coisas “malucas” que tinha aprontado nas noites de farra. Na telinha, umas imagens fortes, algum filme de ficção científica vindo por aí, e a TV já se adiantava mostrando cenas cheias de efeitos especiais dignos de um Oscar. Mas as exibições não paravam. Quando acabou a conversa, aumentou o volume da TV e começou a compreender o que se passava. Aquelas imagens espetaculares de águas violentas derrubando tudo, engolindo gente, o mar avançando com fúria sobre praias, hotéis, corpos arrastados como meros objetos....aquilo tudo era verdade: uma catástrofe se exibindo, ao vivo, humilhando as mais sofisticadas técnicas de criação de efeitos visuais. Ele ficou ali, o resto do dia, a cada minuto se surpreendendo mais com as estatísticas do horror.



O Moço começou a revisitar seus conceitos e suas crenças. Pensou, a princípio, que a natureza era cruel, não era mãe coisa nenhuma, era mesmo uma madrasta perversa. E Deus, onde estava? Não via seus filhos amontoados, reunidos em meras pilhas de cadáveres? Não se compadecia? Então Deus não se importava com aquelas crianças mortas, aquelas mães desesperadas, aqueles novos órfãos perambulando por ruas destruídas, escombros, sujeira?



O Moço tentou fazer uma oração, mas seu coração estava duro demais. Achava que não valia a pena ter fé. Esse sentimento o acompanhou pelo resto do dia, no dia seguinte e nos subsequentes. Foi entrando na sua rotina com um certo desconforto por estar tão bem instalado, numa casa forte, com comida boa e farta, rodeado de seus brinquedos eletrônicos conectando-o com o mundo, seus filmes, seus discos...



A TV não se cansava de cravar os olhos sobre aquela parte devastada do Planeta. E então algumas histórias ganhavam espaço. Numa delas, a moça aparecia viva, depois de dias boiando no mar agarrada a uma espécie de coqueiro. Em outra, uma criança resgatada com vida depois de flutuar sobre um colchão, também por vários dias. Tocou fundo o coração do moço a história da mãe agarrada a dois filhos pequenos, tendo que escolher qual soltaria à fúria das águas, porque não conseguiria segurar os dois; depois de consumada a mais dramática escolha possível para uma mãe, aos olhos do pai aterrorizado e impotente, o final mais feliz acontece: os quatro, sãos e salvos, se abraçam numa cena milagrosa. “Só no cinema mesmo isso acontece”, pensaria o moço, caso estivesse vendo um filme de ficção. Mas não. Ali estava o milagre, presente, inteiro, ao vivo para todo o mundo, para as plateias de crentes e ateus.



O Moço voltou a revisitar seus conceitos e sua fé. Chegou a ficar envergonhado pelos seus momentos de dúvida, pelas suas blasfêmias. Voltou a orar, com um fervor que não experimentava há muito tempo. Pediu paz às almas daqueles milhares de cidadãos do mundo, pediu fé e amparo para aqueles que vagavam por um mar de fome, miséria, doença e saudade. Viu a TV mostrar o mundo inteiro mobilizado numa ação de solidariedade nunca vista antes. Quis dar sua cota de contribuição, procurando uma forma de fazer uma doação. Seu coração estava triste, mas sua alma não tinha sido tragada pelo tsunami. Imagens iam e vinham na sua cabeça. Como uma onda.”



O texto acima foi escrito por mim e publicado em janeiro de 2005, poucos dias após o tsunami que devastou o sudeste asiático, matando dezenas de milhares de pessoas. Ao ver o filme “O Impossível”, em cartaz nos cinemas brasileiros desde a semana passada, procurei o texto nos meus arquivos, e vi que os sentimentos despertados em mim pelo filme estavam presentes no artigo, mais do que eu poderia colocar numa crítica, daí o desejo de compartilhá-lo com os leitores, no último fim de semana de 2012, o ano em que o mundo ia acabar, mas não acabou. Continuamos firmes, alimentando nossa fé em Deus e nos homens de boa vontade.





“O Impossível” chega em boa hora, trazendo ótimas interpretações de Naomi Watts e Ewan MacGregor, como o casal que resolve ir passar férias na Tailândia com os três filhos pequenos, num lugar paradisíaco, logo transformado numa sucursal do inferno. Em meio a tanto horror e desolação, eis que brilha a luz da fé e seu poder, o que faz balançar o coração do mais insensível dos mortais, assim como aconteceu com o “Moço” do artigo de 2005.



O cinema, neste fim de 2012, faz acender nos corações e mentes das pessoas pelo menos a reflexão sobre a fé, o destino, a existência de Deus e o poder da natureza. Dois filmes nos conduzem a esse exercício tão necessário: “As Aventuras de Pi”, de Ang Lee, um dos mais belos filmes do ano, e esse “O Impossível”. Ambos nos envolvem, nos engolem em tsunamis, nos colocam como náufragos sobre mares revoltos, mas nos devolvem à vida com o sentimento de que tudo é possível quando a fé sobrevive. E é essa fé que eu desejo que permaneça nos corações de todos em 2013, e que ela mova nossos sonhos e desejos em direção aos finais felizes. Como no cinema.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

NEGOCIAÇÕES SOMBRIAS E AVENTURAS ILUMINADAS


Por José Farid Zaine
farid.cultura@uol.com.br
Twitter: @faridzaine
Facebook: Farid Zaine

Estreia hoje nos cinemas brasileiros o novo filme estrelado por Richard Gere, “A Negociação” (Arbitrage), dirigido por Nicholas Jarecki. Trata-se de um thriller bem resolvido sobre questões nem sempre bem tratadas pelo cinema, os golpes financeiros. Histórias desse tipo, que envolvem compreensão dos mecanismos que movem grandes empresas e a dinâmica da economia e seus meandros, podem causar certo afastamento dos espectadores mais preguiçosos. “A Negociação”, contudo, consegue levar adiante um enredo complexo que se torna bem acessível. Gere está muito bem como o empresário bem sucedido, com imagem social impecável, e que precisa manter essa imagem, a despeito de seus graves problemas financeiros e do complicado envolvimento com sua amante. A esposa, vivida com a costumeira elegância por Susan Sarandon, faz parte do jogo de aparências, mas tenta dar as cartas.



A atuação de Gere em “A Negociação” tem sido considerada seu melhor trabalho no cinema nos últimos anos, a ponto dele estar cotado para uma indicação ao Oscar de melhor ator. A indicação é possível, mas a vitória é improvável, diante de nomes como Daniel Day-Lewis, favorito por sua interpretação do presidente americano Abraham Lincoln na superprodução de Steven Spielberg “Lincoln” e de outros fortes concorrentes a uma vaga entre os indicados, que são: Ben Affleck ( “Argo”) , John Hawkes (“The Sessions”), Denzel Washington (“Flight”), Hugh Jackman (“Les Miserables”), Joaquin Phoenix (“The Master”) e Bradley Cooper ( “Silver Linings Playbook”).

Richard Gere tem uma carreira de muito sucesso cujo auge foi atingido com “Uma Linda Mulher”, o conto de fadas pós-moderno que encantou milhões por todo o mundo, celebrizou Julia Roberts e transformou num hit internacional a música-tema, “Oh, Pretty Woman”, antigo sucesso de Roy Orbison e que inspirou a realização do filme. Recentemente Gere protagonizou um drama lacrimogêneo muito requisitado nas locadoras e exibido à exaustão na TV, tanto a aberta quanto a paga, “Sempre ao seu Lado”, do diretor Lasse Hallström, baseado em fatos reais.

HOJE É DIA DE ANG LEE


A grande estreia de hoje, contudo, é o novo filme de Ang Lee, um cineasta que nunca se repete e que não se cansa de surpreender o público a cada produção sua que entra em cartaz. Neste 21 de dezembro inundam as telas “As Aventuras de Pi” (Life of Pi), com um visual espetacular, desde já candidatíssimo a vários prêmios técnicos, incluindo o Oscar de efeitos visuais, categoria em que provavelmente brigará com “O Hobbit- Uma Jornada Inesperada”, “Os Vingadores”, “Batman- O Cavaleiro das Trevas Ressurge”, “Cloud Atlas” ( A Viagem) e “Prometheus”.

Ang Lee leva no currículo o Oscar de melhor diretor por “O Segredo de Brokeback Mountain”, belíssimo drama com Heath Ledger numa interpretação inesquecível, acompanhado de outras sensacionais performances de Jake Gyllenhall, Michelle Williams e Anne Hataway. Aliás, “Brokeback Mountain” ter perdido a estatueta de melhor filme do ano para “Crash – No Limite”, é considerada uma das maiores injustiças da história do Oscar.

Aproveitando o lançamento de “As Aventuras de Pi”, temos ótima oportunidade de rever alguns dos grandes momentos de Ang Lee, além, claro, de “Brokeback”. Um deles é a comédia de 1993, “Banquete de Casamento” que, assim como “Razão e Sensibilidade”, de 1995, foram premiados em Berlim. Do ano 2000 temos um dos mais populares filmes do diretor, “O Tigre e o Dragão”, que levou as lutas marciais, tão comuns no cinema asiático, a um nível de sofisticação artística impressionante, com os lutadores voando pelos cenários, em uma verdadeira coreografia espacial que encantou as plateias do mundo inteiro e deu ao filme o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro.

A visão de Ang Lee sobre o mais celebrado festival de rock de todos os tempos está em “Aconteceu em Woodstock”, de 2009, também facilmente encontrado nas locadoras.

Hoje, portanto, é dia de rever os cabelos grisalhos mais famosos do mundo, agora numa intrincada rede de falcatruas e intrigas, e de acompanhar a vida de Pi, passeando na profundidade da tecnologia 3D pelos improváveis cenários de suas aventuras.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

“O HOBBIT”... E PETER JACKSON ALÉM DA TERRA MÉDIA

Por José Farid Zaine
Twitter: @faridzaine
Facebook: Farid Zaine

Uma das estreias cinematográficas mais aguardadas do ano acontece hoje em todo o Brasil: desde os primeiros minutos da madrugada desta sexta-feira, quando foram exibidas as pré-estreias, centenas de salas oferecem o que o público estava ansioso para ver: “O Hobbit – Uma Viagem Inesperada”, o início de mais uma trilogia dirigida por Peter Jackson, depois do estrondoso sucesso mundial da primeira, “O Senhor dos Anéis”, com “A Sociedade do Anel” em 2002, “As Duas Torres” em 2003 e “O Retorno do Rei” em 2004.


O autor dos livros que se transformaram em enormes best-sellers, JRR Tolkien, escreveu primeiro “O Hobbit”, em 1937, considerado um prelúdio para a saga “O Senhor dos Anéis”, que viria a ser publicada somente em 1954, com “A Sociedade do Anel” e “As Duas Torres” e em 1955, com a última parte, “O Retorno do Rei”.

Com todo o alvoroço da estreia, não é apenas hoje que as salas passam a ser invadidas pelas personagens fantásticas de Tolkien e pelos arrebatadores cenários concebidos por Jackson e sua equipe: desde terça-feira, muitos cinemas de São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Brasília, Curitiba, Florianópolis, Niterói, Salvador e Porto Alegre dedicaram-se a uma maratona “preparatória” destinada aos fãs ardorosos da saga e aos novos adeptos, influenciados por uma história de sucesso no cinema iniciada em 2002.

Nunca uma trilogia foi tão bem sucedida no Oscar. Os três filmes da série “O Senhor dos Anéis” somam 30 indicações e 17 Oscars conquistados:

2002: “A Sociedade do Anel” obteve 13 indicações e ganhou 4 prêmios;

2003: “As Duas Torres” obteve 6 indicações e levou 2 Oscars;

2004: “O Retorno do Rei” obteve 11 indicações e ganhou em todas as categorias, ficando esta última parte da trilogia igualada no record de Oscars até então mantido por “Ben-Hur” (1959) e “Titanic” (1997). O record de indicações continua com o empate entre “Titanic” e “A Malvada” (All About Eve): 14!

Tratando-se de um filme de aventura e fantasia dirigido por Peter Jackson, o que se esperava de “O Hobbit” era um grande esmero visual, com efeitos fabulosos, agora com o uso da tecnologia 3D, ausente na trilogia inicial, acrescentando-se ainda uma filmagem em altíssima definição, que deu ao filme um aspecto de inusitada beleza de imagens. A história inicial de Bilbo Bolseiro, seu encontro com Gollum e as perigosas viagens pelas surpresas da Terra Média tem seu primeiro encontro com o público a partir de hoje, prossegue em dezembro de 2013, com o lançamento do segundo filme dessa trilogia e termina em julho de 2014, quando o terceiro e último será lançado.

Faces conhecidas continuam presentes em “O Hobbit”, através das personagens vividas por Ian McKellen, Ian Holm, Cate Blanchett, Orlando Bloom e Elijah Wood, entre outros.

PETER JACKSON ALÉM DA TERRA MÉDIA
Para quem associa o nome do diretor neozelandês apenas às extremamente marcantes partes de “O Senhor dos Anéis”, é interessante conhecer outros filmes dirigidos por ele, todos disponíveis nas locadoras. Um deles não foge à regra dos blockbusters, superproduções de orçamento milionário: é “King Kong”, de 2005, refilmagem do ultraclássico de 1933, que já teve outra versão em 1976, dirigida por John Guillermin. No primeiro, o monstro que abraçava o Empire State assombrou o mundo, com efeitos visuais nunca vistos antes e que hoje parecem toscos e primários, mas que causaram uma revolução. A versão da década de 70 tentou sofisticar esses efeitos, usando inovadores recursos tecnológicos, ganhou o Oscar de efeitos visuais, mas deve apenas ser lembrada por apresentar ao mundo a grande atriz que é Jessica Lange. Justificar uma terceira versão de “King Kong” era mostrar, mais do que tudo, o poder da computação gráfica e dos recursos da era das ferramentas virtuais. E Peter Jackson fez seu filme valer por isso.

Há um Jackson fora das aventuras mirabolantes, e ele está presente em dramas de suspense e terror, como o recente e mal falado “Um Olhar do Paraíso” (The Lovely Bones), com Saoirse Ronan, Rachel Weisz e Mark Wahlberg, de 2010, e o ótimo “Almas Gêmeas”(Heavenly Creatures), de 1994, com Kate Winslet no início de sua gloriosa carreira!

Bom, pra hoje o que temos é “O Hobbit”, para que os fãs de Tolkien vejam se valeu a pena transformar o livro em três filmes...e para a próxima sexta Ang Lee nos trará “As aventuras de Pi”( Life of Pi)! Peter Jackson e Ang Lee nos dão um natal cinematográfico cheio de monstros, abismos, florestas assustadoras, oceanos imprevisíveis, tigres famintos, meninos corajosos e muito, muito encantamento!

sexta-feira, 7 de dezembro de 2012

Três vezes “Em Nome de Deus”

Por José Farid Zaine
farid.cultura@uol.com.br
Twitter: @faridzaine
Facebook: Farid Zaine



Está em cartaz nos cinemas brasileiros desde a semana passada (embora tenha estreado em São Paulo no dia 9 de novembro), o novo filme do diretor filipino Brillante Mendoza, “Em Nome de Deus” (Captive). O título em português até cabe, mas poderia ser outro, mais próximo do título original, principalmente porque já existem outros filmes com o mesmo nome no Brasil. Pelo menos dois. Falo deles mais à frente.





“Em nome de Deus”(Captive) narra a história de 20 estrangeiros tomados como reféns em 2001, num resort chamado “Dos Palmas”, por terroristas islâmicos nas Filipinas. Baseado em fatos reais, o filme introduz o espectador a uma angustiante peregrinação de mais de um ano pela selva, onde vivem os reféns conduzidos e vigiados por seus sequestradores. A excelente atriz francesa Isabelle Huppert interpreta a missionária Thérèse Bourgoine, personagem ficcional que se prende ao fio condutor da narrativa.



Brillante Mendoza conduz a câmera como se ela fosse o espectador. Sempre temos a sensação de estarmos dentro da selva, como um dos reféns, sofrendo toda sorte de privações e sofrimentos, sempre com a mesma roupa, comendo restos de comida, dormindo ao relento e ainda correndo risco permanente de morte nas desastradas tentativas de resgate feitas por militares filipinos.



“Em Nome de Deus” tem uma tensão crescente desde a primeira cena. Há pouco espaço para amenidades, como a cena de uma refeição recebida de aldeões ou na aproximação de Thérèse com um menino que integra o grupo de terroristas.



Há algumas semanas comentei aqui o excelente “Argo”, de Ben Affleck, sobre a invasão da embaixada americana em Teerã por iranianos que exigiam a extradição do Xá Reza Pahlevi pelo governo americano, o que desencadeou a chamada “crise dos reféns”. Affleck conseguiu, filmando uma história também real, realizar um dos mais emocionantes e surpreendentes filmes do ano, que ninguém pode perder. Nessa linha está “Em Nome de Deus” (Captive), muito menos espetacular, mas ainda assim um ótimo filme.



Já que o título “Em nome de Deus” gera certa confusão, porque as pessoas acham que já viram o filme filipino que estreou, a melhor coisa, enquanto se espera que ele venha aos cinemas da cidade (o que é bem difícil) ou que chegue ao DVD ou Blu-Ray, é revisitar os outros filmes homônimos disponíveis nas locadoras.



O primeiro a ser visto ou revisto é o irlandês “Em Nome de Deus”, outra tradução brasileira que nada tem a ver com o título original, “The Magdalene Sisters”, dirigido por Peter Mullan, sobre um reformatório católico dirigido por freiras, as “Madalenas”, destinado a receber jovens rejeitadas por suas famílias, por sua conduta digamos, mais liberal. As jovens sofrem duplamente: quando a família resolve desfazer-se delas, obrigando-as a serem trancadas no tal reformatório, e depois no próprio confinamento, quando precisam suportar as piores humilhações. O filme foi premiado em Veneza, gerou protestos do Vaticano, mas recebeu o aplauso da crítica em todo o mundo. É fortíssimo. Abalou o público, principalmente o católico, ao expor situações embaraçosas e até grotescas, inimagináveis para o século XX, mais precisamente os anos 1960, e que vieram à tona com a coragem do diretor e com um elenco primoroso.



O outro filme que também foi batizado de “Em Nome de Deus” no Brasil é uma produção de 1988, originalmente chamado “Stealing Heaven”, narrando o romance proibido e secularmente famoso de Abelardo e Heloísa. Trata-se de uma coprodução entre Reino Unido e a então Iugoslávia, que ainda hoje faz muito sucesso, principalmente entre as mulheres. A tragédia dos amantes que nunca podem viver livremente a sua paixão é sempre um tema que exerce muito fascínio sobre o público. Clive Donner, o diretor, fez aqui uma versão livre da conhecida história de amor medieval que emociona gerações.



Bem, temos aí então, três filmes chamados “Em Nome de Deus” no Brasil. Nenhum deles leva, originalmente, esse nome; os nomes originais são “Captive” (palavra francesa para refém), o filipino de 2012 que está nos cinemas, “The Magdalene Sisters”, o irlandês de Peter Mullan de 2002 e “Stealing Heaven”, a coprodução entre Inglaterra e Iugoslávia ,de 1988, esses dois últimos disponíveis nas locadoras. Três filmes para vermos em nome de Deus, segundo nossos atentos e criativos tradutores.

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

A ORIGEM DOS GUARDIÕES


Por José Farid Zaine
farid.cultura@uol.com.br
Twitter: @faridzaine
Facebook: Farid Zaine



A aproximação do Natal e das férias de verão trazem a tradicional programação destinada às crianças e aos jovens, que enchem os cinemas de fãs das aventuras fantásticas e dos desenhos cada vez mais sofisticados. Dois grandes lançamentos são aguardados para dezembro: o novo filme de Ang Lee, premiado com o Oscar por “O Segredo de Brokeback Mountain, “As aventuras de Pi”, já cotado para receber indicações nas categorias técnicas, principalmente de efeitos visuais. Outra estreia muitíssimo aguardada é “O Hobbit”, de Peter Jackson, prometida para 14 de dezembro. Jackson dirigiu a extremamente bem-sucedida trilogia “O Senhor dos Aneis”, e agora traz neste filme o prelúdio da história. Na lista dos blockbusters figura também o drama histórico “Lincoln”, sobre a vida de um dos mais amados presidentes americanos, dirigido pelo campeão de bilheterias Steven Spielberg. Os três são destinados a grande sucesso de público. O “Lincoln” de Spielberg, claro, não tem nada a ver com “Abraham Lincoln – O Caçador de Vampiros”, recente aventura de terror muito bem feita, dirigida ao público formado principalmente por adolescentes que amam o gênero.



Hoje, em todo o Brasil, é dia de estreia de uma animação também muito esperada, “A Origem dos Guardiões”, que vi numa pré-estreia em Campinas na semana passada. O filme tem todos os elementos para atrair as crianças, porque é movimentado, bonito, tem personagens cativantes e conhecidos como Papai Noel, o Coelhinho da Páscoa e a Fada dos Dentes; além de tudo, os pais gostarão da “mensagem” edificante e educativa sobre como manter vivos os sonhos e dominar os medos na infância.

Na história contada no filme, Jack Frost, um “espírito” brincalhão que comanda a neve, é escolhido para se juntar à turma dos “Guardiões”, protetores universais das crianças e que estão às voltas com um grave problema: O Bicho-Papão em pessoa deseja acabar com os sonhos das crianças, transformando-os em pesadelos; para isso ele precisará que os pequenos, em todo o mundo, deixem de acreditar em Papai-Noel, no Coelhinho da Páscoa, na Fada dos Dentes, no Homem-Areia e no próprio Jack Frost, que primeiro deverá conquistar a confiança e a crença delas para depois se firmar como Guardião. Jack precisará conhecer sua própria história para aceitar a tarefa que lhe é confiada.


VIDA PARA A ANIMAÇÃO: MÚSICA E VOZES
“A Origem dos Guardiões” (Rise of The Guardians), dirigido por Peter Ramsey, cumpre bem o papel dos filmes de férias, com efeitos especiais ótimos, edição ágil e boa trilha sonora de Alexandre Desplat, um craque na área, com quatro indicações ao Oscar incluindo “A Rainha” e “O Discurso do Rei”. No Brasil, os principais dubladores foram Thiago Fragoso, fazendo a voz de Jack Frost, e Isabelle Drummond, fazendo a Fada dos Dentes. No original as vozes são de Chris Pine e Isla Fischer, respectivamente.

Guillermo Del Toro foi o produtor do filme, sendo ele um dos responsáveis por boas sacadas, como dar o aspecto nórdico ao Papai-Noel, fazer do Coelhinho da Páscoa um “coelhão australiano” e criar uma imagem interessante da Fada dos Dentes, mistura de ser humano com pássaro. A imagem do “Homem-Areia” (Sandman) responde por bons e belos efeitos dourados, e Jack Frost fixa uma bela estampa de jovem aventureiro e brincalhão, porém responsável. Del Toro tem intimidade com personagens fantásticas, tendo no currículo a direção do aclamado “O Labirinto do Fauno”.

“A Origem dos Guardiões” foi bem nas bilheterias em sua estreia nos cinemas americanos. Outra animação com ótimo desempenho é “Detona Ralph”, que chega ao Brasil somente no dia 4 de janeiro para engrossar a lista dos “filmes de férias”.

O ano de 2012 foi muito bom para as animações e ótimo para os estúdios que arrecadaram fortunas nas bilheterias em todo o mundo. Fica para janeiro o anúncio dos 5 finalistas ao Oscar da categoria. São tantas produções que é feita uma pré-seleção para indicar os semifinalistas, digamos, que são 21. Dentre eles, aposto neste “A Origem dos Guardiões”, em “Detona Ralph”, e no ótimo “Frankenweenie”, de Tim Burton, para a lista dos indicados a serem anunciados no dia 10 de janeiro, havendo ainda grandes chances para entrar nas outras duas vagas o simpático “Valente” e os originais “O Lorax”, “ParaNorman” e “Piratas Pirados”.

Livremo-nos, pelo menos por uma hora e meia, do nosso costumeiro ranço de adultos, para curtirmos sem constrangimentos os heróis de “A Origem dos Guardiões”. Deixemos que eles entrem em nossas mentes, protejam nossos sonhos e afastem nossos pesadelos!

sexta-feira, 23 de novembro de 2012

PARECE QUE FOI ONTEM, SEAN


Por José Farid Zaine
farid.cultura@uol.com.br
Twitter: @faridzaine
Facebook: Farid Zaine

Lá se vão 50 anos desde que Sean Connery anunciou pela primeira vez quem era ele: “Bond. James Bond”. E que Ursula Andress saiu do mar com seu famigerado biquini branco, que escandalizou até o Vaticano, mas teria hoje pano suficiente para vários fios dentais cariocas...O ano era 1962, e a obra de Ian Fleming, “O Satânico Dr. No”, na qual era criado o mais famoso agente secreto de todos os tempos, chegava aos cinemas no dia 5 de outubro. Começava aí a história de estrondoso sucesso mundial das aventuras do agente 007, sempre a serviço de Sua Majestade, a rainha da Inglaterra. James Bond, encarregado das mais perigosas, complexas e extravagantes tarefas começava, com “Dr.No”, sua agenda de rocambolescas aventuras e incendiários romances. A face definitiva do agente foi dada por Sean Connery. Nenhum ator, depois dele, conseguiu encarnar com tal rigor e perfeição a personagem criada na literatura e que veio para o cinema para se transformar em um ícone indestrutível. Hoje James Bond é defendido com categoria por Daniel Craig, que se deu bem com sua postura, seu físico bem trabalhado, seu olhar glacial e a expressão sempre séria de um sujeito que não está para brincadeiras. Craig chega ao seu terceiro filme, o 23º da série, o ótimo “007 – Operação Skyfall”, em exibição nos cinemas brasileiros. Entretanto, graças à tecnologia, é possível ver, com grande qualidade de imagem e som, todos os filmes de James Bond, disponíveis em DVD e Blu-Ray.



 
Qual seria o melhor 007 de todos os tempos? Cada cinéfilo tem sua lista. Bom mesmo é lembrar as sequências de tirar o fôlego, os efeitos especiais, as antológicas cenas de perseguição, as aberturas, as músicas. Em “Skyfall” chama a atenção a música cantada por Adele na ótima abertura. Mas outras canções marcaram muito a trajetória de James Bond nas telas. Uma delas é “From Russia with Love”, o tema de “Moscou contra 007”, um dos meus favoritos, que fez enorme sucesso na voz de Matt Monro; outra é “Goldfinger” (007 contra Goldfinger), de John Barry, cantada por Shirley Bassey. Carly Simon, Tina Turner e até Sir Paul McCartney cantaram temas de 007. Pesquisa feita em setembro deste ano no Reino Unido escolheu a música de McCartney para “Com 007 Viva e Deixe Morrer” (Live and Let Die) como a melhor dentre todas as que foram temas da série. A música de “Skyfall” é forte candidata a uma vaga para a disputa do Oscar de Melhor Canção, principalmente pela força da interpretação de Adele , cantora onipresente no universo musical em todo o mundo na atualidade. Aliás, o Oscar nunca foi generoso com os filmes de James Bond, tendo ficado apenas na estatueta para “melhores efeitos especiais” em “007 Contra a Chantagem Atômica” (Thunderball) em 1966. Em 2013 pode haver alguma surpresa, primeiro pelas qualidades reais de “Skyfall”, depois pelo significativo aniversário de 50 anos da primeira aventura.

Além de Sean Connery e Daniel Craig, outros quatro atores foram James Bond no cinema: Roger Moore, George Lazenby, Timothy Dalton e Pierce Brosnan. Há notícias no meio cinematográfico de que Daniel Craig ainda fará mais dois filmes da série. Craig declarou, num comunicado oficial, que o agente secreto 007 é uma personagem tão marcante e de tamanho sucesso no cinema, que deverá permanecer, ser interpretada por muitos outros atores e chegar ao centenário, daqui a 50 anos. Eu acredito.



James Bond já esteve no Brasil. Em “007 contra o Foguete da Morte” (Moonraker), o Rio de Janeiro foi palco de movimentadas cenas envolvendo o bondinho do Pão de Açúcar. Uma histórica gafe também aconteceu por conta de uma perseguição que começava na Amazônia e terminava nas Cataratas do Iguaçu, como se ambos os cenários fizessem parte da mesma região.

O novo filme da série, o 23º , “007 – Operação Skyfall”, é um dos melhores, e isso se deve muito à direção de Sam Mendes, premiado com o Oscar de melhor diretor por “Beleza Americana”. Mendes é também diretor do magnífico “Foi Apenas um Sonho” (Revolutionary Road), com Leonardo Di Caprio e Kate Winslet. Com filmes desse porte dramático no currículo, é compreensível a escolha dele para este novo 007, em que assuntos nunca antes abordados tão claramente, fazem a diferença. Em “Skyfall”, M., interpretada pela sempre maravilhosa Judi Dench, é o centro das atenções, por causa de decisões suas que teriam desencadeado sérios problemas à segurança britânica e à própria instituição, o MI6. Fala-se, então, de morte e envelhecimento, da perda da juventude, dos problemas que a idade acaba trazendo ao desempenho físico. Então nem mesmo James Bond é imortal? Sam Mendes trata a questão com muita propriedade, conduzindo um quarteto bem afinado de intérpretes: Daniel Craig, Judi Dench, Javier Bardem (sensacional) e Ralph Fiennes.

Está em exibição a nova e espetacular aventura de 007, e as outras 22 já feitas podem ser curtidas a qualquer momento. Muitas outras vidas e muitas outras faces continuarão colocando James Bond nas telas, para deleite de todas as gerações. Mas o tempo é implacável : “Quando se vê, passaram-se 50 anos”, diz o poema de Mário Quintana, e assim já aconteceu com a estreia de “O Satânico Dr.No”. Parece que foi ontem, Sean.

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

MONSTRINHOS E HOMENS SARADOS


Por José Farid Zaine


Twitter: Farid Zaine
Facebook: Farid Zaine

O novo filme de Tim  Burton é  “Frankenweenie”, uma animação que combina a modernidade da tecnologia 3D com o look antigo do preto e branco. A fusão resulta num belo trabalho com a marca inconfundível do diretor. Não se deixem enganar: “Frankenweenie”, apesar de ser uma animação e as personagens serem crianças e animais, não tem nada de divertido. É sombrio até nas graças, embora tenha momentos de emoção e encantamento. A história é macabra, o próprio filme sendo um “Frankenstein”, colcha de retalhos de inúmeras citações dos clássicos do terror. Isso funciona muito bem. Menções a “Drácula”, “Gremlims” e, claro, “A Noiva de Frankenstein” surgem com naturalidade. Até a célebre cena de “Os Pássaros”, de Hitchcock, em que Tippi Hedren fica presa numa cabine de telefone e é atacada por gaivotas enfurecidas, aparece aqui homenageada.



“Frankenweenie”, em cartaz nos cinemas desde a semana passada,  conta a história de um menino, Victor Frankenstein,  muito apegado a seu cão, Sparky; quando este morre atropelado, ele usa seus conhecimentos científicos adquiridos nas aulas de um arrojado e estranho professor para trazer de volta à vida o amiguinho, que será retirado de seu túmulo num cemitério de animais.  Cenas belíssimas vem a seguir, remetendo aos clássicos sobre Frankenstein. Claro, nem tudo dará certo nessa louca empreitada, e uma série de acontecimentos colocará a cidade em polvorosa.

Tim Burton é um diretor que não tem medo de ousar, e seus filmes sempre são surpreendentes. A “costura” dos vários elementos presentes nos filmes de terror, a união do preto e branco com a profundidade das 3D, dão ao filme a atmosfera  necessária, construída com perfeição pelos desenhos, pela iluminação, pela trilha sonora e pelos efeitos especiais.

“Frankenweenie” ainda reserva espaço suficiente para que se reflita sobre a amizade verdadeira, os limites da ciência, a morte e seus enigmas, com direito a moinhos gigantes, incêndios, cemitérios assustadores em noites de tempestade, raios, trovões, adultos complicados, crianças boas e más, monstros perigosos e dóceis animais. Juntar tanta coisa assim, dando ao produto final coerência, beleza e profundidade, não é para qualquer um. Para Tim Burton é moleza.

HOMENS COM POUCA ROUPA
Falando em moleza, seria fácil e glamorosa a vida de strippers, homens que se apresentam em clubes para mulheres, tirando a roupa e dançando? A resposta está em “Magic Mike”, que também estreou na semana passada nos cinemas brasileiros. O filme vem fazendo gordas bilheterias, principalmente pelo fato de apresentar homens seminus, atraindo principalmente as plateias femininas. Mas não se trata de um filme pornográfico, nem mesmo erótico. Tem “cenas quentes”, danças sensuais, mas é um filme até muito sério. Dirigido por outro diretor extremamente competente, Steven Soderbergh, “Magic Mike” vai fundo na vida complicada de suas personagens. A principal, Mike,  interpretada com surpreendente categoria por Channing Tatum, vive momentos de decisão para sua vida, quando já vê que os anos dedicados ao show em que se aperfeiçoou já não lhe trazem prazer nem realização. Ao mesmo tempo ele vê que, como se fossem descartáveis, os homens vão envelhecendo, tendo consciência da efemeridade da força e da beleza, enquanto os mais jovens, como The Kid, vivido por Alex Pettyfer, surgem cheios de ilusões para trilhar o mesmo caminho percorrido pelos mais velhos.

“Magic Mike” tem no elenco sua grande força, com destaque para Matthew MacConaughey, como Dallas, o dono do Clube. Com ótimas fotografia e  direção de arte, trilha sonora adequada e edição excelente, o longa de Soderbergh é uma boa opção entre os recentes lançamentos nos cimenas.

Para pais sensíveis, principalmente os que conhecem e amam o cinema, e para filhos inteligentes (maiores de dez anos), “Frankenweenie” é o indicado. Para adultos com bom gosto, mas com disposição para reflexões indigestas, “Magic Mike” pode ser uma ótima escolha. Tim Burton e Soderbergh, inteligentes, criativos e sempre sacando o que irá ao encontro do gosto das mais variadas plateias, estão presentes em nossos cinemas com suas novas travessuras. Caberá ao público optar pelos monstrinhos em preto e branco ou pelas abusadas coreografias de homens quase pelados. Para não haver nenhum dilema, sugiro a todos que vejam os dois!

sexta-feira, 9 de novembro de 2012

O OSCAR GOSTA MUITO DO IRÃ

Por José Farid Zaine
Twitter: @faridzaine
Facebook: Farid Zaine

No ano passado o Irã foi notícia no meio cinematográfico pelo Oscar conquistado por “A Separação”, belíssimo filme que ganhou ainda muitos outros prêmios pelo mundo, revelando aspectos do cotidiano naquele país, através de uma história apresentada em um roteiro magnífico, com incríveis interpretações de todo o elenco.



Em 2012 o Irã volta ao foco em “ARGO”, dirigido e estrelado por Ben Affleck, com estreia prevista para hoje nos cinemas brasileiros. A história, baseada em espantosos fatos reais, acontece em 1979, no meio da chamada “crise dos reféns no Irã”: militantes iranianos, a maioria estudantes, invadem a embaixada americana em Teerã e fazem mais de 50 reféns, para uma negociação com o governo americano em que exigiam a extradição do Xá Reza Pahlevi, abrigado nos Estados Unidos. O Irã, comandado pelo aiatolá Khomeini, com o desejo de fazer justiça contra Pahlevi, radicalizou o discurso que culminou na invasão da embaixada. Acontece que seis funcionários conseguiram fugir pelos fundos do prédio e foram abrigados na Embaixada do Canadá. Trazer de volta para casa esses seis americanos exigia um plano especial da CIA. Dentre as malucas e perigosíssimas opções venceu a que parecia a mais desvairada ficção: um agente da CIA (vivido por Affleck) iria a Teerã como se estivesse buscando locações para um filme de ficção científica, estilo “Star Wars”, chamado “Argo”. Um filme de mentira, mas uma operação de verdade.

A condução de uma história dessas, sem o risco de que se tornasse panfletária, unilateral, ou defendesse despudoradamente os EUA, ou demonizasse o Irã, precisava muito de um arrojado e experiente diretor. Ben Affleck provou que esse diretor era ele. O ator, premiado com o Oscar pelo roteiro de “Gênio Indomável” em 1998, amadureceu profundamente após dirigir dois filmes, sendo este terceiro seu melhor trabalho.

“Argo” é feito com qualidade em todos os quesitos: seu roteiro é excelente, o elenco é bastante competente (com destaque para o próprio Affleck e os sempre ótimos John Goodman e Alan Arkin), a fotografia, a direção de arte, os figurinos e a trilha sonora são muito adequados. Não bastasse isso, o filme tem um clima permanente de tensão da primeira à última cena, prendendo o espectador desde a sequência inicial atordoante, a invasão da embaixada americana pelos iranianos, até o desfecho emocionante.

O grande feito de Ben Affleck foi contar uma história conhecida, mas com elementos pouco revelados de um episódio crucial nas relações entre EUA e Irã. A construção do plano que faria a CIA chegar à embaixada canadense em Teerã é perfeita e envolvente.

O clima sufocante de permanente e crescente tensão é amenizado pelas críticas à própria indústria cinematográfica de Hollywood, e nesse aspecto se destacam as presenças marcantes de John Goodman e Alan Arkin.

Numa época em que começam a surgir os prováveis indicados ao Oscar 2013, “Argo” aparece com certa força: ainda há muito por ver até janeiro, mas é pouco provável que o filme não esteja entre os indicados a melhor filme, melhor roteiro adaptado, melhor ator, ator coadjuvante e melhor diretor, havendo grandes possibilidades também para a espetacular edição. Além de tudo, o thriller político de Ben Affleck vai muito bem nas bilheterias, tendo já desbancado blockbusters como “Cloud Atlas” (A Viagem), com Tom Hanks e Halle Berry , em suas primeiras semanas nos cinemas americanos.

A partir de hoje os brasileiros podem conferir o progresso do ator Ben Affleck, firmando-se como um dos melhores de sua geração no drama “Argo”, em que a metalinguagem surge como uma personagem de grande peso.

“Argo” é um filme baseado em fatos reais, mas está longe de ser um documentário. Tem credibilidade, sim, mas foi feito como se fazem os dramas de suspense mais envolventes, acrescentando-se o inegável fascínio exercido pelo Irã e sua conturbada história, tanto sobre os espectadores quanto sobre os membros da Academia. Com certeza, alguma estatueta vai brilhar na estante de Ben Affleck em fevereiro de 2013.

sexta-feira, 2 de novembro de 2012

SOBRE MENINAS, DEMÔNIOS E DÓLARES




Por José Farid Zaine
Twitter: @faridzaine
Facebook: Farid Zaine

Em 1974 estreava no Brasil aquele que viria a ser o mais espetacular filme de terror de todos os tempos, “O Exorcista”, dirigido por William Friedkin e com roteiro de William Peter Blatty, autor do livro homônimo. Blatty vinha de extraordinário sucesso de vendas do livro no mundo inteiro, daí a enorme expectativa em torno do filme.

O livro já era aterrorizante, conquistou uma legião de fãs que passaram a ser estudiosos do assunto, e imaginar aquele clima na tela deixou multidões ansiosas para conferir em que se transformara o best-seller.



Público e crítica aprovaram o resultado, e o filme, cujo orçamento era de 12 milhões de dólares, arrecadou mais de 440 milhões. Tudo na adaptação cinematográfica cativou e emocionou as plateias, do elenco afinadíssimo encabeçado por Ellen Burstyn ( a mãe) e Linda Blair (a menina possuída), à parte técnica irrepreensível (fotografia, som, direção de arte, efeitos visuais). “O Exorcista” foi um marco do terror explícito e também psicológico, e ainda com excepcional carga de mistério e angústia. Ganhou muitos prêmios, incluindo os Oscars de Roteiro Adaptado e Som.  Depois dele, vieram dezenas de outros subprodutos abordando a possessão demoníaca, mas nenhum conseguiu se igualar ao impacto causado por ele ou à sua inequívoca qualidade. Uma vez ou outra surgiram bons filmes sobre o tema, como “O Exorcismo de Emily Rose”, em 2005, e agora este “Possessão”, de 2012, que estreia hoje em todo o Brasil.

“Possessão” (The Posession), dirigido por Ole Bornedal, coprodução entre EUA e Canadá, mistura com competência algumas das conquistas dos seus similares anteriores. Com um diretor habituado ao gênero, um expert em sustos e climas tensos, Sam Raimi, a produção resulta em um thriller de terror bem aceitável, com produção requintada e efeitos visuais impressionantes, sem o exagero dos terrores sanguinolentos. Como em “O Exorcista”, em “Possessão” a vítima também é uma menina, possuída por um demônio  que fora aprisionado em uma caixa, depois  trancada e com uma inscrição em hebraico avisando que jamais deveria ser aberta. Comprada por um pai para a filha que se encantou com a caixa numa feirinha de antiguidades, roupas e objetos esquisitos, a caixa passa a ser uma obsessão para a menina que, é óbvio, conseguirá abri-la. Com o demônio solto, a vida da família vira um inferno, literalmente.

Os pais da menina são interpretados com eficiência por Jeffrey Dean Morgan e Kyra Sedgwick. O casal está divorciado e tentando levar a nova situação numa boa com as filhas. As coisas ruins que começam a acontecer são creditadas a esta fase vivida pela família, mas logo descobrirão que algo muito pior está por trás das drásticas transformações de temperamento e comportamento da menina, Emily, vivida com intensidade pela jovem atriz Natasha Calis.

Sam Raimi é um diretor muito competente para o gênero terror, como demonstrou nos dois exemplares de The Evil Dead ( Uma Noite Alucinante - A Morte do Demônio). Aliás, The Evil Dead terá remake em 2013, mas sem Sam na direção, e o título brasileiro será apenas “A Morte do Demônio”, a distribuidora tendo optado por suprimir “Uma Noite Alucinante”. Raimi é bom em aventuras também, como provou através do monumental sucesso dos exemplares que dirigiu de “O Homem Aranha”. Além de não pesar demais a mão, ele sempre usa uma dose apropriada de humor, muito presente no ótimo “Arraste-me para o inferno”, ótima pedida para se conferir o seu talento, já que está disponível em DVD e Blu-Ray. Aqui o humor é mais raro, mas pode ser sentido principalmente na sequência em que o pai busca a ajuda de um rabino para sua desesperada luta contra o espírito do mal, neste caso um dybbuk, um espírito que aos poucos domina e devora seu hospedeiro, de nome Abyzou. Em “O Exorcista”, o nome aterrorizante era Pazuzu, aliás bem semelhante.

Não há comparação entre “O Exorcista” (The Exorcist), clássico de 1973, e este “Possessão”, de 2012. Dizem que Sam Raimi quis, na verdade, usar o filme de William  Friedkin como referência, e fazer a ele uma homenagem. Pode ser. Quem gostar de bons sustos e climão sufocante não vai ter do que reclamar, mesmo porque fica claro, ao final, que a caixa que aprisiona o demônio Abyzou ainda vai atormentar muitas famílias. Afinal, meninas possuídas por demônios são ingredientes de incontestável eficiência no tempero dos filmes que miram altas bilheterias.

sexta-feira, 26 de outubro de 2012

O INÍCIO, O FIM E O MEIO


Por José Farid Zaine
farid.cultura@uol.com.br
Twiter: @faridzaine
Facebook: Farid Zaine



Logo no início as cenas de “Easy Rider” e a presença de Elvis Presley nos dão um resumo sobre o biografado: veremos a história de um rebelde, um inquieto, um visionário, um revolucionário, enfim. Assim foi Raul Seixas. Sua obra é a maior prova do poder que o artista tem de mudar o seu tempo, as cabeças das pessoas. É impressionante a sobrevivência da música de Raul, refletida na atualidade delas e na fidelidade de uma multidão de fãs, já multiplicados em uma nova geração.



O documentário de Walter Carvalho, “Raul – O Início, O Fim e o Meio”, é um filme obrigatório para os amantes da música popular brasileira, do rock nacional, para os estudiosos da nossa história recente, enfim, para todos os brasileiros. A primorosa edição transforma a obra em um filme emocionante, envolvente, realmente capaz de captar as nuances de um compositor e cantor que deixou marcas indeléveis na história de nossa música. “Toca Raul!” , grito dos fãs em quase todos os shows, passou a ser um bordão repetido à exaustão, significando muito mais do que pedir a banda para executar músicas do repertório do ídolo. Siginifica a presença dele, intensa e irreversível, mais de 20 anos depois de sua morte, e o desejo de se ouvir música boa que tenha algo a dizer, coisa tão rara nesses nossos tempos de “oi, oi, oi”.



Os documentários costumam pecar por suas longas e monocórdias entrevistas. Aqui não é o caso. As entrevistas em “Raul – O Início, o Fim e o Meio” são ótimas, muito bem aproveitadas, algumas delas se transformando em belos momentos, como Caetano Veloso cantando “Ouro de Tolo”, uma das mais significativas composições de Raul, revolucionária e que trazia uma semente do rap, com sua letra praticamente falada, mesmo havendo uma melodia que também se tornou inesquecível. Incrível verificar, hoje, como a censura daqueles anos de chumbo, rigorosíssima na época do auge da ditadura militar, não a tenha proibido. Talvez a censura tenha sido tão burra, que não conseguiu captar o pleno significado da letra.



Walter Carvalho dosou com competência e sensibilidade os depoimentos de Caetano, Paulo Coelho, Tom Zé, Pedro Bial, amigos, filhas, ex-esposas. E Raul esteve presente, de corpo inteiro, nas suas entrevistas, nas suas aparições polêmicas, nas imagens preservadas de sua passagem pelos palcos em shows arrebatadores, nos clipes exibidos na televisão. Um dos momentos mais tocantes é justamente uma das gravações mais antigas da TV, ainda em preto e branco, quando ele canta “Maluco Beleza”, que juntamente com “Gita”, “Metamorfose Ambulante” e “Sociedade Alternativa” jamais deixam de estar presentes nas seleções de favoritas dos seus fãs, transformados em verdadeiros seguidores.



O filme de Walter Carvalho não esconde nada sobre o ídolo: traz as imagens de sua rebeldia de adolescente, quando se apaixonou pelo filme “Balada Sangrenta” (King Creole), com Elvis Presley, e passou a ser influenciado pelo rock e pelos grandes músicos norteamericanos, passa por sua trajetória até chegar ao estrelato, e revela sua incursão pelo mundo das drogas e das bebidas. Paulo Coelho não esconde o fato de ter sido ele a apresentar as drogas ao parceiro, mas num tempo, segundo ele, em que “já era casado, tinha uma filha e sabia o que estava fazendo”! Surgem, nos diversos depoimentos, histórias dramáticas sobre o “começo do fim” de Raul, quando já não havia mais controle sobre a bebida e as drogas, e ele passou a não cumprir compromissos, a causar problemas em agendas de shows. O cantor Marcelo Nova surgiu como um “salvador”, tirando Raul do ostracismo, já que as gravadoras e os produtores musicais passaram a fugir dele. No período em que já estava bem doente, Nova levou Raul para um show seu, o que viria depois a se transformar numa maratona de 50 shows. Teria sido isso um motivador do agravamento da saúde do ídolo do rock nacional? Teria Marcelo Nova se aproveitado do sucesso de Raul para se promover? Até mesmo essas questões contundentes são tratadas, com depoimentos do próprio Marcelo Nova, e de Caetano, que diz não acreditar que Raul tenha sido usado ou prejudicado. O certo é que a vida, para Raul Seixas, era a música, era o palco, era a possibilidade de expor um talento enorme para comunicar ideias através do seu som inconfundível.



“Raul – O Início, O Fim e o Meio” está disponível nas locadoras. Não se trata de um filme destinado apenas aos milhares de fãs, mas de uma obra fundamental para a compreensão de um dos maiores gênios de nossa cultura popular, na verdade, de um ícone da contracultura. Com seus retalhos, e sem ser panfletário, o filme é também um registro precioso de um período da história do Brasil, do auge da ditadura até a chegada da democracia, quando Raul se despediu da vida.



Eu, que amo os festivais de música e já produzi tantos, não posso me esquecer daquele choque maravilhoso que foi a música “Let Me Sing”, no palco do Festival Internacional da Canção do Rio, quando a figura e a irreverência de Raul marcaram definitivamente o início de uma fascinante história, e da construção de verdadeiros “hinos” que habitarão para sempre os ouvidos e os corações dos brasileiros.

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

OUTUBRO DE AMENIDADES E TERRORES

Por José Farid Zaine
Twitter: @faridzaine
Facebook: Farid Zaine

Outubro é um mês especial para estreias de filmes nos cinemas e lançamentos nas locadoras. Primeiro, porque é o mês da criança, cujo dia foi comemorado no dia 12, mesma data em que se festeja o dia da Padroeira do Brasil, Nossa Senhora Aparecida. Por outro lado, é também o mês das bruxas, cujo ápice das comemorações acontece no dia 31, o famigerado Halloween, estranha tradição importada dos Estados Unidos.



Numa sacada muito inteligente, a Sony Pictures fundiu duas coisas: o terror cômico e a animação destinada às crianças, com tempero suficiente para agradar aos pais, tios, etc. num filme para a família toda, que deve abocanhar milhões de dólares nas bilheterias. Trata-se de “Hotel Transilvânia”, estreado na semana passada em todo o Brasil e já conquistando um lugar entre os blockbusters do ano.

As animações têm feito a festa dos grandes estúdios, a ponto de surgirem grandes produtoras para ameaçar a hegemonia da Disney. Foi o caso da Pixar, com seus megassucessos como “Toy Story”, “Monstros S/A”, “Procurando Nemo”, “Carros” e “Ratatouille”, abrindo-se espaço num ramo altamente lucrativo e em expansão na indústria cinematográfica. Agora as duas estão juntas. O uso adequado e o aperfeiçoamento da tecnologia 3D contribuiu muito para tornar mais sofisticadas e fascinantes as produções de animação. Roteiros modernos e inteligentes também deram uma grande arejada no gênero. “Hotel Transilvânia” é um ótimo exemplo de como combinar uma boa história com técnica irrepreensível, ritmo perfeito e uso apropriado de personagens muito conhecidas. O enredo é baseado no fato de que o Conde Drácula, após a perda trágica da esposa, resolve reformar seu castelo e transformá-lo num resort, um hotel luxuoso para abrigar monstros que querem a paz da distância dos seres humanos; sua filha, Mavis, completa 118 anos, e para celebrar essa “passagem para a vida adulta”, uma grande festa é preparada. Claro, ninguém contava com a presença de um humano, nem que ele viesse para conquistar o coração de Mavis. Isso é apenas um bom começo para uma divertida e movimentada aventura.

Outro filme que vem procurar o filão infantil do mês da criança é “Procurando Nemo 3D”, agora reformulado pelas três dimensões, ganhando um atrativo extra muito merecido, já que é uma das melhores animações já realizadas.

Não deu pra ser em outubro, mas a previsão de estreia de outra animação que vai dar o que falar ficou para o comecinho de novembro. É outra mistura de terror com humor com a marca do sempre polêmico, original e criativo Tim Burton. Falo de “Frankenweenie”, que deve estrear no feriado de finados, o que não será mera coincidência...

 
TERROR
“Chernobyl” chega às locadoras, após ser bombardeado pela crítica. Parece mesmo horripilante a ideia de usar um dos maiores desastres nucleares já vistos como tema de um filme de terror para adolescentes. Tem seus fãs, contudo.

Nos cinemas, na semana passada estreou “A Entidade” (Sinister), estrelado por Ethan Hawke e dirigido por Scott Derrickson, que tem no currículo coisas muito boas como “O Exorcismo de Emily Rose”. “A Entidade”, lançamento apropriado para o mês das bruxas, também deve ter sido vítima de alguma maldição: o filme é previsível, usa e abusa de clichês, tem algumas – poucas – sacadas interessantes, provoca um e outro susto e fica por aí. A história é a de um escritor que precisa produzir um novo livro e se muda com a mulher e os filhos para uma casa onde foi assassinada toda uma família. Lá, através de filmes que lhe são deixados, ele consegue conexão com outros crimes semelhantes e começa a perceber que algo nada natural está por trás de tudo. “A Entidade” tem a pretensão de ser daqueles terrores inteligentes com final surpreendente, mas passa longe disso.

“Chernobyl” em casa e “A Entidade” nos cinemas são pratos para quem tem estômago forte e paciência, muita paciência.

Já no plano religioso, outubro festeja o dia da Padroeira, Nossa Senhora Aparecida. Para quem quer ver algo a respeito, há o filme de Tizuka Yamasaki, “Aparecida – o Milagre”, disponível nas locadoras. O longa tem Murilo Rosa, Maria Fernanda Cândido e Leona Cavalli no elenco e não foi bem de público nem de crítica. Dá pra ver, mas Nossa Senhora Aparecida merecia coisa melhor.

Bem, aí foram algumas dicas sobre lançamentos que marcam outubro, um mês de amenidades deliciosas e terrores dispensáveis.