segunda-feira, 25 de julho de 2011

HARRY POTTER ENVELHECE...DORIAN GRAY, NÃO!


Por José Farid Zaine

farid.cultura@uol.com.br

twitter: @faridzaine

Facebook: Farid Zaine




Os cinemas estão abarrotados com o lançamento, na semana passada, de “Harry Potter e as Relíquias da Morte, Parte 2”. O longa, último da série,que vem batendo sucessivos recordes de bilheteria em todo o mundo, já se transformou na maior abertura de todos os tempos, e corre para ser uma das maiores rendas da história. As aventuras do bruxinho vivido por Daniel Hadcliff estão entre os dos maiores achados do cinema puramente destinado ao divertimento.


A cinessérie tem seguidores, não fãs, como foi o caso de “Star Wars”. O que levou multidões a desejarem ver tão rapidamente o desenrolar da trama que acompanham desde 2001, quando o pequeno mágico era um garotinho? Será que o público está sofrendo com uma sensação de perda, de abandono, agora que a série acabou? Ou havia um desejo oculto de preservação da imagem de Harry, como se assim a própria pessoa permanecesse jovem para sempre? Mas é inexorável: até Harry Potter envelhece, até Daniel Hadcliff . Só Dorian Gray é que não...Exatamente: enquanto as últimas peripécias e malabarismos acontecem em Hogwarts, e inundam a tela grande, chega às locadoras o filme de Oliver Parker, “O Retrato de Dorian Gray”, inspirado no célebre romance de Oscar Wilde. Aí sim a juventude é o dom a ser preservado, porque ela encerra a beleza. A obra de Wilde é profunda na discussão da arte, da moral, com seu texto belo e dramático em que a sugestão é muito mais sutil do que a ação escancarada. O filme de Parker é estrelado por Ben Barnes, ele mesmo, o Príncipe Caspian das “Crônicas de Narnia” e pelo vencedor do Oscar deste ano, Colin Firth, ator de primeiríssima classe, vindo de sucessivos sucessos de crítica por suas interpretações estudadas, todas produto do tempero equilibrado entre talento e técnica.


Barnes é Dorian Gray, que vende a alma ao diabo para permanecer eternamente jovem, enquanto o seu retrato, pintado por um artista fascinado por sua beleza (interpretado por Ben Chaplin), envelhece e vai assumindo as marcas da vida corrupta e devassa do modelo. O jovem ator Ben Barnes se esforça, mas nem sempre consegue dar a intensidade necessária a uma personagem tão conhecida como Dorian Gray. Sua imaturidade artística fica evidente.


A magnífica ideia, que no livro é tratada com a elegância do texto admirável de Wilde, no filme descamba para o terror explícito, algumas vezes grosseiro. Efeitos especiais atualíssimos remetem aos filmes dedicados a jovens que gostam de aventuras escandalosas, onde o sangue jorrando é elemento indispensável. Uma “climatização” à antiga, contudo, faz lembrar os velhos filmes de terror da Hammer, produtora inglesa que se notabilizou no mundo por seus filmes desse gênero. Aliás, a Hammer, que teve seu auge nos anos 1950 aos 1970, retorna agora com remakes de seus maiores sucessos.


O Retrato de Dorian Gray” tem a seu favor um tratamento plástico esmerado, com cenários e figurinos muito bons, além da ótima direção de arte. Esta também derrapa em alguns pontos, como o da criação de uma Londres lúgubre, escura e decadente, para combinar com as andanças, digamos, nada ortodoxas do jovem Dorian, quando mergulha num mundo onde o que vale é o prazer imediato, mesmo que esse custe a destruição de vidas. Para Dorian Gray qualquer horror será cometido em nome da manutenção do seu segredo, o da permanência da beleza e da juventude. Oliver Parker parece não querer nada com a sutileza do texto original, e carrega nas tintas de um sexo sempre associado à sujeira e à tragédia. Sabe-se o inferno que Oscar Wilde teve de viver, por conta de sua homossexualidade. No romance há insinuações do relacionamento de Dorian com o pintor, mas no filme o diretor quis torná-las explícitas.

Por basear-se numa história que se desenrola em torno de um quadro, o filme de Oliver é bastante pictórico. Muitas cenas são tão bonitas como uma bela tela.


O paralelo entre Harry Potter e Dorian Gray, pela coincidência dos lançamentos, vem dos sentimentos que tive em relação aos dois: num deles a sensação da perda, do fim de uma etapa da vida, da inexorabilidade que é aceita...no outro, a repulsa ao tempo e às transformações que ele provoca.


As dicas da semana então ficam para “Harry Potter e as Relíquias da Morte, Parte 2”, dirigido por David Yates, nos cinemas, e “O Retrato de Dorian Gray”, nas locadoras. “O Tempo não Para”, cantava Cazuza, e com essa verdade vamos nos deparar sempre, e tanto o bruxinho de J.K.Rowling quanto o eterno dândi de Oscar Wilde estão aí para reforçar essa lembrança.

terça-feira, 19 de julho de 2011

O GRANDE DIRK BOGARDE

Por José Farid Zaine

farid.cultura@uol.com.br

Twitter: @faridzaine

Facebook: Farid Zaine


Boa notícia para os cinéfilos: em setembro deve chegar às locadoras o DVD do filme “Meu Passado Me Condena” (Victim), de 1961, com Dirk Bogarde. Ele foi exibido em junho no TCM, canal pago que exibe clássicos do cinema, numa semana dedicada à diversidade sexual, aliás o que o GNT também fez. No TCM, a programação especial foi colocada num programa chamado “Orgulho e Preconceito”. O espaço dado a um filme como “Meu Passado Me Condena” é louvável, pois além de ser uma obra forte, vigorosa, é também um exemplo de coragem: na Inglaterra do início dos anos 1960 o homossexualismo era considerado crime. Tratar, portanto, do tema, pela primeira vez explicitamente, indicava alto grau de ousadia, um tapa na cara da hipocrisia. Somente seis anos mais tarde, em 67, seria abolida a retrógrada lei britânica, num tempo em que começava a explodir a filosofia “paz, amor e música”, universalizada por Woodstock pouco depois, consagrada pela liberação dos costumes e pelo amor livre cantado pelos hippies, principalmente nos EUA.


Quem não viu ainda “Meu Passado Me Condena”, filmado em branco e preto, terá a chance de conferir um dos momentos mais importantes da carreira do grande ator inglês Dirk Bogarde, ele próprio muito corajoso na época, por conta de sua homossexualidade, não se importando de se expor num papel assim, nem de ameaçar uma carreira que poderia, confortavelmente, ser a de um belo galã hollywoodiano. Bogarde preferiu manter suas convicções, fortalecendo, com muitos de seus filmes, uma filmografia invejável, pelo alto grau de qualidade das obras que estrelou. Entre elas está um dos mais belos, profundos e apaixonantes filmes de todos os tempos, a obra-prima “Morte em Veneza”, de Luchino Visconti, baseada em outra obra-prima da literatura universal, o romance homônimo de Thomas Mann. Impossível uma pessoa dizer que conhece cinema, se não viu “Morte em Veneza”. Aqui, Bogarde dá vida ao músico Gustav Von Aschenbach (no livro um escritor), numa Veneza assolada pela peste, atormentado por suas lembranças e pelos sentimentos despertados pela beleza de um adolescente. A interpretação de Dirk Bogarde é um marco no cinema. Mas há outros grandes momentos seus que merecem ser vistos e revistos. Que tal, da mesma forma que sugeri uma “Mostra Hitchcock” ou uma “Semana Woody Allen” em sua casa, montar agora uma “Mostra Dirk Bogarde”?


Podem começar, então, a prestar atenção à programação do TCM, e esperar a reprise de “Meu Passado Me Condena”, ou aguardar seu lançamento em breve nas locadoras e sites de vendas. “Victim”, como é chamado no original, tem Sylvia Syms no elenco e é dirigido por Basil Dearden.


Além de “Morte em Veneza”, outro ponto alto da filmografia de Visconti é “Os Deus Malditos”, também estrelado por Bogarde, com Ingrid Thulin e outro preferido do diretor, o ator Helmut Berger, astro de “Ludwig”, o terceiro da mais célebre trilogia do genial cineasta italiano.


Somente essas grandes obras-primas justificariam toda uma carreira. Mas Dirk Bogarde estrelaria ainda um magnífico suspense, “Todas as Noites às Nove” (Our Mother´s house”, de 1977), um dos meus favoritos do gênero, dirigido por Jack Clayton, que já havia dado ao mundo uma outra obra-prima inquestionável, “Os Inocentes”, com Deborah Kerr, em 1961, baseado no livro “A Outra Volta do Parafuso”, de Henry James.


Um filme que eu adoraria ver na TV aberta ou paga, em DVD ou qualquer mídia, é outro estrelado por Bogarde: “O Vento Não Sabe Ler” (The Wind Cannot Reed), melodrama de Ralph Thomas, em que ele vive um romance com Yoko Tani, a atriz japonesa que ficou famosa internacionalmente. Quem tiver notícia desse filme, avise-me, por favor...ele não pode faltar à minha “Mostra Dirk Bogarde”. Nessa mostra outro filme que deve estar presente é “Sonho de Amor” (Song without End), a biografia do grande pianista e compositor húngaro Franz Lizst, concentrada na sua tumultuada relação amorosa com duas mulheres, interpretadas por Genevieve Page e Capucine.


E há ainda “Darling – A Que Amou Demais”, “Uma Ponte Longe Demais” e “Na Glória, a Amargura” (I Could Go On Singing), de 1963, dirigido por Ronald Neame e em que ele contracena com Judy Garland! Este filme marcaria a história do cinema para sempre, por ser um reflexo da atormentada vida de Judy e seu último trabalho no cinema.


Dirk Bogarde nasceu em Londres em 1921 e aí morreu em 1999, deixando sua marca numa memorável filmografia, que hoje temos a feliz chance de ver e rever, a partir do lançamento de “Meu Passado Me Condena”, ótimo por si só, mas também por chamar a atenção para a carreira de um dos maiores atores do cinema inglês de todos os tempos.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

JULHO COM GLAMOUR E AVENTURAS REQUENTADAS


Por José Farid Zaine
farid.cultura@uol.com.br
Twitter: @faridzaine
Facebook: Farid Zaine



O cinema continua sendo uma das melhores e mais baratas opções de lazer, cultura, entretenimento... Desde seus primórdios, qualquer novidade tecnológica que surja parece determinar o seu desaparecimento. A mais radical foi a popularização da TV nos anos 1950, quando o cinema vivia seu auge. “A TV vai matar o cinema”, diziam. Mas o que se viu foi o fortalecimento da indústria cinematográfica, que não apenas cresceu, como soube se utilizar das novas conquistas. Sempre, portanto, quando surgem períodos de férias escolares, as distribuidoras se armam para colocar seus principais lançamentos de apelo popular nessa época.
Na nossa região, não são apenas os “blockbusters” em cartaz que chamam a atenção. Ontem começou o Festival de Cinema de Paulínia, um megaevento que agora reúne, além dos filmes concorrentes e atividades paralelas correlatas, shows com grandes nomes da música brasileira. E como estamos muito próximos, a pouco mais de 30 minutos da nossa vizinha, melhor colocar esse importante e glamuroso festival na nossa agenda.

Ontem na abertura, foi exibido “Corações Sujos”, de Vicente Amorim. Na sequência virão, entre os selecionados:

Hoje: destaque para o documentário “Uma Longa Viagem”, de Lúcia Murat, e o longa de ficção “O Palhaço”, dirigido por Selton Mello.

Amanhã: atenção para “Rock Brasília – Era de Ouro”, de Vladimir Carvalho, e “Meu País”, de André Ristum.

Domingo: “A Cidade Imã”, de Ronaldo German”, documentário, e outro longa de ficção, “Onde Está a Felicidade”, de Carlos Alberto Riccelli.

Segunda, 11 : “Ibitipoca, dobra pra lá”, de Felipe Scaldini, e “Os 3”, de Nando Olival.

Terça, 12 : “Ela Sonhou Que eu Morri”, de Maíra Bühler e Matias Mariani, e “Trabalhar Ca nsa”, de Juliana Rojas e Marco Dutra.

Quarta, 13 – “A Margem do Xingu – Vozes Não Consideradas”, de Damiá Puig, e “Febre do Rato”, de Cláudio Assis.

Quinta, 14 – Encerramento com o longa de Marcos Paulo, “Assalto ao Banco Central”.

O primeiro dos indicados é sempre um documentário e o segundo, um longa de ficção. Há ainda os curtas regionais e nacionais, os debates e encontros, tudo no próprio Theatro Municipal de Paulínia, com entrada franca. Somente para a abertura e encerramento são necessários os convites distribuídos pela organização.

...E para quem não quer saber das novidades do cinema nacional em um dos mais concorridos festivais da atualidade, as salas exibidoras da região continuam com as atrações próprias das férias, a maioria delas continuações:

“X-Men: Primeira Classe”: Bem , quando uma história se esgota, nada como voltar ao seu princípio, no estilo “foi assim que tudo começou”. Mas aqui funciona muito bem, e o filme, onde se conhece a origem da guerra entre Magneto e os X-Men, os mutantes, é muito bom, com ótimos efeitos e uma dramática sequência inicial que já vale o filme todo.

“Piratas do Caribe: Navegando em Águas Misteriosas” : Aqui a franquia desandou. Saudado como uma das melhores e mais divertidas aventuras surgidas no cinema recente, o quarto filme da série é o pior de todos. É sempre bom ver Johnny Depp e seu já antológico Capitão Jack Sparrow, agora na companhia de Penélope Cruz, mas não dá pra engolir uma sucessão de chatices que torna o filme enfadonho, aborrecido e sem graça.

Outra continuação é “Carros 2”, animação que vem arrecadando milhões de dólares mundo afora, como era de se esperar, mas que não chega aos pés do extraordinário “Rio”, enorme sucesso que logo arrasará nas locadoras.

Na onda de sequências há ainda “Kung Fu Panda 2” e, para os adultos, “Se Beber Não Case! Parte 2”, para quem se atrever a suportar um festival de tolices e piadas grosseiras.

Como novidade temos a estreia esperada de “Transformers: O Lado Oculto da Lua”, cujo trailer vem sendo exibido há meses, estrelado por aquele chatíssimo Shia LaBeouf, o mesmo que fez “Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal”, falou mal do filme e tem sido atacado pelo ícone Harrison Ford...

E por último, para completar, invadiram as telas seis pinguins, os parceiros de Jim Carrey em sua nova comédia, “Os Pinguins do Papai”. O ator esteve no Brasil nos últimos dias divulgando o filme. Quem viu suas entrevistas, já pode imaginar as caras e caretas que o comediante vai exibir no longa, mais um típico divertimento para as férias de inverno.

Portanto, julho recheado de opções, do glamour de um festival de cinema bem ao lado de nossa casa, às novidades infanto-juvenis e às indefectíveis aventuras requentadas! Haja pipoca...

sexta-feira, 1 de julho de 2011

UMA CASA SEM LUZ E BRILHO NAS PRATELEIRAS



Por José Farid Zaine

farid.cultura@uol.com.br

Twitter: @faridzaine

Facebook: Farid Zaine


Muitos filmes que marcaram o Oscar 2011 já estão nas prateleiras das locadoras. Cada vez mais cedo, os filmes chegam ao DVD e Blu-Ray, satisfazendo aos que preferem a sala de estar de sua casa ao compartilhamento do escurinho nos cinemas...Aliás, as salas exibidoras estão mais sofisticadas, mais bem equipadas e buscando atrativos para “fisgar” o espectador. Salas com projeção e som ruins vão ficando, com muita justiça, condenadas ao esvaziamento. É o que merecem as empresas que não investem no melhoramento de suas salas, principalmente em cidades onde não há concorrência. Bom para quem pode viajar e escolher onde ver, com a qualidade que o cinema hoje oferece, os lançamentos mais recentes. Em Limeira, infelizmente nem o 3D, que já não é mais novidade, chegou ainda. Esperava-se que isso acontecesse no início do ano, mas o incidente no Shopping, com o desabamento do teto da Praça de Alimentação, com certeza atrapalhou o andamento da chegada dessa tecnologia que ganhou notoriedade, principalmente pelo já longínquo lançamento de “Avatar”. Mas vamos às indicações da semana.


Estreou no Brasil na sexta passada o filme uruguaio “A Casa” (La Casa Muda), terror de baixíssimo orçamento, que remete – em termos de produção - ao sucesso e à fama instantânea de “A Bruxa de Blair”. “A Casa”, dirigido por Gustavo Hernandez, tem seus méritos, mas é preciso conhecer sua história: o filme foi feito em uma só locação,num só plano-sequência, numa casa abandonada, e a iluminação foi inteiramente feita com a luz da lanterna carregada pela protagonista durante os quase 80 minutos de duração. Isso posto, compreende-se a escuridão em que se desenvolve a trama, toda passada no interior de uma casa deteriorada, com janelas trancadas e lacradas, onde não entra a luz do dia, e onde a noite, logicamente, é mais escura, já que não há eletricidade. O roteiro foi baseado num fato verídico acontecido no Uruguai, nos anos 1940, em que dois homens aparecem assassinados numa casa, com os corpos mutilados e com fotos de uma Polaroide ao lado deles. No filme, a personagem Laura e seu pai chegam com o proprietário a essa casa que deverão limpar e cujos arredores deverão ser capinados. A primeira noite no lugar, entretanto, trará momentos de terror e angústia. Há sequências com certa densidade, que carregam no suspense e na dramática situação da protagonista. As reviravoltas do enredo, contudo, não satisfazem, e sempre fica no ar a sensação de que algo não foi revelado ou, melhor dizendo, não foi suficientemente mostrado. O que era para ser o grande trunfo do filme, acaba também sendo seu maior problema. De qualquer maneira, não dá para ignorar um lançamento desses. Cinéfilos, confiram, principalmente para tentar compreender como um filme desses foi parar em Cannes, na seleção oficial.


E para quem perdeu os vencedores do Oscar, eles agora estão nas prateleiras das locadoras. Boa chance para conferir porque nosso quase totalmente brasileiro “Lixo Extraordinário” perdeu para “Trabalho Interno”( Inside Job) na categoria Documentário. Os dois foram lançados. “Trabalho Interno”, dirigido por Charles Ferguson e narrado por Matt Damon, é mais pesadão, mas vai fundo na questão da crise financeira mundial de 2008, no Brasil – ainda bem – chamada de “marolinha”. O verdadeiro tsunami financeiro arrasou economias mundo afora, colocando em risco o equilíbrio universal. Não é fácil compreender os intrincados mecanismos que colocaram no mesmo saco banqueiros, políticos e acadêmicos. Ferguson teve coragem para cutucar, sem medo, todos eles. Mas “Trabalho Interno” deixa a incômoda sensação de que tudo, a qualquer momento, possa fazer com que o cenário mude novamente, e para pior...Não estaríamos vendo na Grécia e Portugal, só para citar dois países europeus, novos protagonistas de algo parecido com “A Crise – O Retorno”? Tomara que não.


Bom, a comparação é inevitável, e como fanáticos torcedores pelo que é nosso – ou quase – vamos achar que “Lixo Extraordinário”, o documentário sobre o artista plástico brasileiro Vik Muniz e seu contato com os catadores de lixo do maior aterro sanitário da América do Sul, no Rio de Janeiro, é melhor e deveria ter ganho. É só alugar os dois, curtir e tirar conclusões.


Mas as prateleiras, em termos de Oscar 2011, estão bem generosas. Quem não viu nos cinemas, pode ir correndo alugar “Cisne Negro”, o filme de Darren Aronofsky que deu o Oscar de melhor atriz para Natalie Portman, com a atormentada e maravilhosa música de Tchaikovsky e sua sequência final operística. Não, “Cisne Negro” não ganhou a estatueta de melhor filme, mas dá para comparar vendo o vencedor. Opa, na verdade há “O Vencedor”, que também não foi escolhido melhor filme, mas levou os prêmios de ator e atriz coadjuvantes ( Christian Bale e Melissa Leo). Para não fazer confusão, recomendo então, “o ganhador”, que foi o belo e britânico (com as qualidades e os defeitos que esse adjetivo prevê) “O Discurso do Rei”, que deu ao seu protagonista, Colin Firth, talvez o Oscar mais merecido de 2011.


Bom, temos lançamentos para satisfazer a todos: tanto a quem busca o terror de uma casa sem nenhuma luz, indo ao cinema, quanto os que preferem o brilho dos astros e estrelas adormecidos nas caixinhas de DVDs e Blu-Rays, para acordá-los em sua casa, iluminando a tela da TV.

terça-feira, 28 de junho de 2011

MEIA-NOITE EM PARIS

Por José Farid Zaine

farid.cultura@uol.com.br

Twitter: @faridzaine

Facebook: Farid Zaine

Imagine que vocês estão em Paris, andando por todos aqueles cenários que habitam os sonhos de todos os românticos do mundo...Imagine também que irão, quando soarem as badaladas da meia-noite, aos lugares freqüentados por Scott Fitzgerald e sua mulher, Zelda, Ernest Hemingway, Gertrude Stein, Pablo Picasso, Salvador Dali, Luis Buñuel, Toulouse Lautrec, Cole Porter, e o mais incrível: eles estarão lá, e vocês conversarão e conviverão com eles...Se acham que isso é loucura, que é impossível, estão errados. Basta verem o novo filme de Woody Allen, “Meia-Noite em Paris”, e entrarem nessa viagem fantástica, deliciosa, conduzidos por um diretor que já demonstrou sua paixão por Nova York, sua cidade, de tantas formas, sendo a mais bela delas em “Manhattan”... Qual seria o amor mais bem retratado por Allen a um outro lugar, fora de sua cidade natal? A Barcelona de “Vicky Cristina Barcelona”? Londres de “Match Point”? Não, não. Paris ganha de todas elas. Ganha a mais bela homenagem que um cineasta poderia fazer a uma cidade. Neste seu mais recente filme, a abertura já nos conduz a um passeio absolutamente maravilhoso por Paris, pelos mais conhecidos cartões postais da cidade-luz, mas de uma forma totalmente nova...andamos pelas ruas da cidade, passamos por seus mais célebres monumentos, como a Torre Eiffel, o Arco do Triunfo, vemos seus famosos telhados, frequentamos o Maxim´s e o Moulin Rouge, Versailles, o Louvre, o Sena...Desse jeito parece que estou falando de um documentário, ou de uma daquelas comédias românticas que servem para fomentar o turismo de certa região... Sim, ficamos apaixonados por Paris ao ver o filme de Woody Allen, mas o envolvimento com o cenário desta vez não vem em forma de propaganda de uma agência de viagens. Esse envolvimento vem através de uma história encantadora, colocada num roteiro perfeito.


Owen Wilson , ótimo, dá vida a Gil,um roteirista de Hollywood, conceituado e bem-sucedido, mas que se sente frustrado por não ser o escritor que deseja. As circunstâncias o levam, junto com sua noiva,Inez (Rachel McAdams) a fazer uma viagem a Paris, onde os pais dela (Kurt Fuller e Mimi Kennedy) cuidarão de negócios...Gil é daqueles que acham que o passado é sempre melhor que o presente, que outras épocas são melhores. Veremos que essa discussão interessante, ganha corpo no filme, sendo responsável por momentos divertidos e inteligentes, com os costumeiros diálogos afiados de Woody Allen. Importante nesse aspecto da história é a presença da personagem Adriana, que teria sido um dos amores de Picasso e modelo de uma de suas obras. Adriana é interpretada por Marion Cotillard, hoje uma das mais conceituadas e requisitadas atrizes francesas, cuja carreira foi impulsionada internacionalmente com o Oscar que ela ganhou, merecidamente, por “Piaf”.


A graça e a beleza de “Meia-Noite em Paris” são acentuadas pela forma com que o fantástico é mostrado, como se a magia da noite parisiense permitisse tudo, e nada parecesse surreal. O mágico e o fantástico já habitaram outros filmes de Allen, e um deles também ostentava uma beleza e uma poesia inigualáveis: “A Rosa Púrpura do Cairo”, em que a personagem vivida por Mia Farrow, para fugir de uma realidade dura e triste, literalmente entrava dentro de um filme. Gil, o escritor de “Meia-Noite em Paris”, quer entrar no passado, fugindo de um presente que não gosta de encarar.


As escolhas de Owen Wilson e Marion Cotillard foram acertadíssimas, mas não as únicas. Kathy Bates está perfeita como Gertrude Stein, e Adrien Brody, que ganhou o Oscar por sua estupenda atuação em “O Pianista”, está impagável como Salvador Dali. E outro toque esperto no elenco: Carla Bruni , a linda primeira-dama francesa, faz o papel de guia de um museu, e parece muito à vontade nessa tarefa...


Tudo funciona em “Meia-Noite em Paris”, do roteiro magnífico à fotografia que realça as decantadas belezas de Paris, seja à luz da manhã, do entardecer, da noite iluminada, ou da madrugada chuvosa. Claro, a trilha sonora é mais do que perfeita.


“Meia-Noite em Paris” é o maior lançamento de um filme de Woody Allen no Brasil, e teve a maior bilheteria de estréia dentre seus filmes, levando cerca de 126 mil espectadores aos 98 cinemas das 24 cidades em que foi lançado. Nos EUA o filme também vai muito bem nas bilheterias, e pode se transformar no maior sucesso do diretor em seu país.


Estamos no inverno brasileiro, quase entrando nas férias de julho. Pensem numa viagem magnífica e barata para a capital francesa, amigos leitores e leitoras. Ela pode ser feita comprando um ingresso para ver a nova joia de Woody Allen...e lembrem-se: não durmam cedo em Paris, pois são as badaladas da meia-noite que anunciam os momentos mais saborosos...

segunda-feira, 20 de junho de 2011

LEVE MEDO E ANGÚSTIA PARA SUA CASA. VAI SER DIVERTIDO.

Por José Farid Zaine

farid.cultura@uol.com.br

Twitter: @faridzaine

Facebook: Farid Zaine

Entre junho e julho, o CCBB e o CineSesc, em São Paulo, exibirão a Mostra Hitchcock, com a obra completa do mestre do suspense. Mas se vocês, caros leitores e leitoras, estão tristes porque não podem ir a São Paulo nesse período, para curtir na tela grande os filmes de Alfred Hitchcok, em película, podem criar, em casa, sua própria Mostra. É só programar algumas obras-primas do mestre disponíveis em DVD ou Blu-Ray, buscá-las numa locadora ou num site de venda de filmes...e momentos de absoluto deleite, sempre temperados com muito medo, suspense, agonia e terror, farão a festa desse festival doméstico.

Na minha mostra de filmes do grande Hitchcock, jamais poderiam faltar:

UM CORPO QUE CAI (Vertigo) – Filme de 1958, talvez o maior momento do diretor e um dos melhores filmes de todos os tempos, assíduo freqüentador das listas dos cinéfilos e críticos do mundo todo. A história é fascinante: homem contrata detetive para investigar a própria mulher, que vem tendo comportamentos estranhos e tendências suicidas...o detetive contratado, vivido por James Stewart, tem acrofobia (medo de altura), e começará a acreditar que a mulher, Madeleine, pode ser a reencarnação de outra , sua antepassada Carlotta Valdez, ou que estivesse possuída pela alma dela, que também tinha queda para o suicídio...Kim Novak, no auge da beleza, interpretando Madeleine, é a estrela desse magnífico, belo e misterioso filme, a que se assiste com ininterrupto e crescente interesse. “Um Corpo que Cai” também inovou na forma, e seus efeitos especiais marcaram época, a ponto de um deles ser chamado “efeito Vertigo”.

JANELA INDISCRETA (Rear Window), de 1954 – Aqui temos novamente James Stewart, um dos atores favoritos de Hitchcock. A loura da vez, já que o cineasta era louco por elas, é nada mais, nada menos, que Grace Kelly, tão intensamente bela e elegante, que saiu do cinema para ser princesa de verdade, encantando o mundo até o dia de sua morte precoce. “Janela Indiscreta” leva ao extremo a análise do próprio cinema: o que é real? o que é imaginação? o que é fantasia? Ao entrarmos no mistério do filme, somos nós mesmos levados a acreditar ou não em nossos próprios olhos.

OS PÁSSAROS (The Birds) – Clássico de terror de 1960. Alfred Hitchcock, que sempre aparecia em seus filmes, faz aqui uma emblemática participação ao passar por uma loja de animais. “Os Pássaros”, tem no elenco Rod Taylor, Tippi Hedren ( a loura que depois faria com o diretor “Marnie, Confissões de Uma Ladra”), Jessica Tandy e Suzanne Pleshette, recentemente falecida. O filme foi estrondoso sucesso em todo o mundo, provocando acalorados debates. Trata-se de uma adaptação da novela homônima de Daphne de Maurier. A questão, aliás não resolvida, é esta: o que fazer diante daquilo que não se pode conter, nem compreender? Forças incríveis da natureza estão sempre colocando o homem diante de sua impotência: terremotos, tsunamis, vendavais, epidemias...e, se, de repente, gaivotas serenas se tornassem monstros violentos e assassinos? Se milhares delas e outros pássaros inofensivos começassem, sem que ninguém soubesse o motivo, a provocar pânico e morte? O clima aterrorizante de “Os Pássaros” marcou o cinema para sempre, e ainda hoje pode exibir sua força.

PSICOSE (Psycho). Filme de 1963, em preto e branco, baseado no romance de Robert Bloch, arrebatou as plateias com seu suspense sufocante, com os movimentos de câmera que também causaram impacto, com sua trilha sonora espetacular criada por Bernard Herrmann, e com uma das sequências que viraram símbolo do cinema do gênero: a da morte da loura no chuveiro, ela interpretada por Janet Leigh. Anthony Perkins deu vida a sua personagem jamais igualada, Norman Bates, da qual nunca conseguiu se livrar. O remake, em cores, filmado em 1998, quadro a quadro como o original, dirigido por Gus Van Sant, uma das maiores idiotices já cometidas por um cineasta, foi um merecido fracasso. Não se mexe numa obra-prima como “Psicose”, mesmo porque o filme não envelhece, a exemplo dos outros clássicos de Alfred Hitchcock...

Bem, esses são apenas alguns exemplares da minha mostra hitchcockiana... uma segunda edição ainda poderia ser tão boa quanto esta, com “Rebecca, a Mulher Inesquecível”, “Topázio”, “O Homem que sabia Demais”, “Disque M para Matar”, “Ladrão de Casaca” e, sem dúvida alguma, “Intriga Internacional”. Programe sua mostra...e convide pessoas inteligentes e de bom gosto para com elas dividir o que foi feito de melhor no gênero dominado pelo seu maior mestre. Torça para que elas sintam muito, muito medo, e descubram o humor quase sempre presente numa obra ímpar.

sexta-feira, 17 de junho de 2011

DE VOLTA AO CINE VITÓRIA


Por José Farid Zaine

farid.cultura@uol.com.br

Twitter: @faridzaine

Facebook: Farid Zaine


O Teatro Vitória, que foi o Cine Vitória por décadas e que, como todo “cinema de rua” teve seus dias de glória e seu declínio, experimenta agora um pouco de retorno a essa história com o Projeto Cine Cultura, iniciado no dia 19 de maio com a exibição do longa de Marcelo Laffitte “Elvis e Madona”. O público aprovou, comparecendo em massa e lotando o cinema. A experiência prossegue na próxima quarta-feira, dia 15, com um programa duplo digno dos melhores festivais de cinema: na abertura um excelente curta-metragem vencedor nessa categoria no festival de Paulínia de 2010: “Eu Não Quero Voltar Sozinho”, dirigido por Daniel Ribeiro. A história, contada com leveza ímpar, é a de três estudantes de uma mesma classe, um deficiente visual (Guilherme Lobo), a amiga que o acompanha na volta para casa (Tess Amorim), e o novo aluno que chega (Fábio Audi). O ator Fábio Audi, que esteve recentemente na Secretaria da Cultura, acertando detalhes de um curta que será realizado em Limeira, deverá estar presente.


Depois do curta, virá a exibição de “Bodas de Papel”, dirigido por André Sturm. André é conhecido nos meios culturais por ter sido até há poucos dias o Diretor da Unidade de Fomento e Difusão Cultural da Secretaria de Estado da Cultura. Ele ficou muito ligado a Limeira, por causa do Festival Paulista de Circo, cuja sede é nossa cidade desde 2008. Na semana passada André deixou a Unidade de Fomento e foi nomeado Diretor do Museu da Imagem e do Som, o MIS. Ele foi notícia recentemente, por ser o dono do Cine Belas Artes, um dos ícones da cultura paulistana, desativado após um período de negociações infrutíferas com os proprietários do prédio, para frustração de todos os cinéfilos.


André Sturm, o cineasta, produziu e dirigiu “Bodas de Papel”, um drama delicado sobre um intenso relacionamento amoroso numa pequena cidade do interior paulista. O título faz referência à comemoração, por um casal, do primeiro aniversário de união. O casal em questão é formado por Nina, uma linda mulher (Helena Ranaldi) que compra a casa onde seu avô morou e onde estão impregnadas as lembranças de sua infância, cheia de histórias que não podem terminar, para que a vida prossiga com interesse. Nina vem para Candeias, a cidade fictícia onde se passa a ação, e que seria destruída pela construção de uma Hidrelétrica. Com a desistência da construção, por parte do governo, os habitantes começam a voltar, e um processo de reconstrução e revitalização é iniciado. Para se integrar a esse trabalho chega a Candeias um arquiteto argentino, Miguel, vivido por Dario Grandinetti. Nina e Miguel se conhecem e se apaixonam. A história dos dois vai sendo contada ao longo do filme, que flui com delicadeza e simplicidade. Presente e passado vão se misturando com naturalidade, assim como fábulas seculares são narradas geração após geração. Como a vida em seu curso, o filme registra um cotidiano de amores, amizades, memórias, coisas que se constroem e se destroem, como a morte física e a ressurreição permitida pelas lembranças.


“Bodas de Papel” tem uma produção simples, como convém ao ambiente em que se desenrola a trama, cheio de casas bucólicas, com seus jardins, seus vasos de flores, seu café feito em coador de pano...Helena Ranaldi está perfeita como Nina. As presenças de Walmor Chagas e Cleyde Yaconis, ambos com mais de 80 anos, é que dão ao filme seus momentos de maior frescor. O avô contador de histórias cai muito bem para Sérgio Mamberti. A trilha sonora é perfeita, com música original de Alexandre Guerra e uso adequado de temas conhecidos como “Stabat Mater”, de Vivaldi, o Adágio, de Albinoni, além da célebre ária “Uma Furtiva Lagrima”, da Ópera de Donizetti, “O Barbeiro de Sevilha”. Como a personagem masculina principal é o argentino Miguel, a referência musical óbvia, o tango “El Dia Que Me Quieras”, com Carlos Gardel, surge apropriadamente, até como parte de uma outra história eternamente recontada.


Na próxima quarta, então, às 20 h , no Teatro Vitória, com entrada franca, teremos encontro com dois momentos marcantes do novo cinema brasileiro: um curta que revela enorme talento de seu diretor e de seu jovem elenco e um longa que nos envolve na sua atmosfera delicada temperada por amores e lembranças. Dois filmes sobre a vida como ela é, com sua alternância de encontros e despedidas, encantos e desencantos, dias de amores e paixões, tempos de solidão e tristeza...mas sempre com a certeza que nos passa o poeta H.W. Longfellow em seu célebre poema “The Rainy Day”: mesmo que os dias sejam chuvosos, lúgubres e frios, por trás das nuvens o sol continua brilhando.