segunda-feira, 19 de setembro de 2011

LINDO

Por José Farid Zaine

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Quando você pergunta a uma pessoa que acabou de assistir a um filme, o que ela achou dele, no caso dela ter gostado muito, virão muitas respostas esclarecedoras. Se a pessoa disser “Gostei demais”, “nossa, um filmaço”, “um arraso” ou coisas do gênero, pode acreditar que ela viu uma grande aventura, um filme com efeitos especiais, um blockbuster que faz tremendo sucesso de bilheteria...mas se ela usar o adjetivo “lindo” para classificar o que viu, então saberemos que se trata de um drama que faz chorar, um romance cheio de reviravoltas ou uma comédia dramática com as emoções das histórias do cotidiano, que envolvem o espectador pela proximidade das situações vividas pelas personagens...Pois bem, nesta semana vou recomendar dois filmes que trazem essa marca, que ao final tem essa classificação que não significa 5, 4 , ou 3 estrelas – como fazem os críticos – ou a conceituação como Excelente, ótimo, muito bom, bom...a classificação a que me refiro é a que melhor pode ser traduzida com o tal adjetivo, “lindo”, suspirado ao final da sessão, principalmente pelas mulheres...


O primeiro deles é “A Minha Versão do Amor” (Barney´s Version), comédia dramática de 2010 , interpretada magistralmente por Paul Giamatti e Dustin Hoffman. Sim, é a história de um homem...e das mulheres de sua vida. Não se enganem os que pensam que o adjetivo “lindo” tira a força desse filme. Ele é ainda muito mais que isso, ao construir um enredo verossímil, pungente sem ser piegas, com situações e diálogos inteligentes, além de um interesse total que vai da primeira à última cena. Não é um filme que tenha a pretensão de ser intelectual, nem tenha a pose de ser psicologicamente analítico. Ele flui como a vida, com suas perdas e seus ganhos, com seus encontros e despedidas, com a juventude e suas infinitas possibilidades, com a chegada da velhice e a perda da saúde, com a iminência da morte presente no transcorrer de cada dia...Paul Giamatti interpreta Barney Panofsky, que trabalha numa produtora de TV. Aos 65 anos, separado de sua terceira esposa, por quem é profundamente apaixonado, ele relembra fatos de sua vida e dos casamentos anteriores. Ele é judeu, filho de um policial aposentado vivido com a costumeira maestria por Dustin Hoffman, dando grandeza a um papel menor. O filme é canadense, dirigido por Richard J. Lewis, e é uma verdadeira pérola a ser pinçada nas prateleiras das locadoras, para ser apreciada com urgência...E para conhecer o trabalho de Paul Giamatti, não custa anotar alguns nomes para conferir o talento desse ótimo ator: “Sideways – Entre Umas e Outras”, dirigido por Alexander Payne, de 2004, e que recebu 5 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme. Outro grande momento dele foi “Anti-Heroi Americano” (American Splendor), de 2003, dirigido por Robert Pulcini e Shari Springer Berman. A Academia de Hollywood já está em dívida com Paul Giamatti.



O outro filme que pode ser visto com prazer e emoção é o mais novo estrelado por Nicole Kidman, “Reencontrando a Felicidade”, aliás um título bastante infeliz em português em relação ao original, que é bem mais instigante, “Rabbit Hole” ( A Toca do Coelho). Ela está magnífica como Becca, a mãe que, ao perder o filho de apenas quatro anos, precisa superar essa dor insuportável, manter o bom relacionamento com o marido e os familiares e até se aproximar do adolescente que dirigia o carro que atropelou seu filho...roteiro que parece complicado, mas que é levado com leveza pelo diretor John Cameron Mitchell. O marido, Howie Corbett, é bem interpretado por Aaron Eckart. Mas assim como Dustin Hoffman rouba a cena em “A Minha Versão do Amor”, toda vez que aparece, aqui o feito fica por conta de Dianne Wiest. Essa atriz maravilhosa, completa, nunca desapontou em nenhum de seus trabalhos.



Dianne faz a mãe de Nicole, e as duas são responsáveis por momentos de emoção e tensão dramática, sem nunca sequer resvalar no melodrama ou na pieguice. Nem é preciso indicar filmes com Nicole, pois todas as locadoras possuem quase todos seus grandes sucessos. Só vou entregar que meus favoritos dela são “As Horas, “Os Outros” e “De Olhos Bem Fechados”. O melhor é investir no talento de Dianne, uma veterana brilhante, que eu considero à altura de outro monstro sagrado dos palcos e das telas, Judy Dench.


Dianne Wiest tem uma filmografia extensa e de qualidade, e é também uma ótima dica uma relação de alguns de seus melhores trabalhos: “Tiros na Broadway”, “A Rosa Púrpura do Cairo”, “A Era do Rádio” e o meu favorito “Hannah e Suas Irmãs”, todos de Woody Allen, além de “A Gaiola das Loucas”, “Mentes Que Brilham” e outros.


Bem, as principais dicas da semana são “A Minha Versão do Amor” e “Reencontrando a Felicidade”. Quem assistir, pode me mandar um recadinho dizendo se usou a classificação “lindo”, pelo menos para um dos dois...se não, vou saber respeitar. De qualquer forma, que todos tenham um lindo fim de semana!

terça-feira, 13 de setembro de 2011

PETER WEIR NO CAMINHO GELADO PARA A LIBERDADE

Por José Farid Zaine

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Acaba de ser lançado em DVD o novo filme de Peter Weir, “Caminho da Liberdade” (The Way Back), com duas horas de sofrimento no meio da mais inóspita paisagem da terra, a Sibéria... Imagine um campo de concentração nos confins do mundo, quando a temperatura é usualmente muitos graus abaixo de zero. Fugir de uma prisão dessas? Como? Para onde? Se escapar dos algozes humanos, como escapar da natureza ? Ela está lá, com sua neve, suas rajadas de vento, seu movimento e sua inércia, tudo acontecendo sem que a presença humana tenha a menor relevância. Pois é nesse cenário de “se correr o bicho pega, se ficar o bicho come”, que uma dramática e intensa história sobre os limites humanos, sobre a capacidade de superação e sobre a busca pela liberdade transcorre. A paisagem é violenta, mas carrega uma beleza inquestionável. A fotografia é um dos trunfos do drama, e é inegável que ela consegue conquistar uma plasticidade impressionante. Ambientado em 1941, durante a Segunda Guerra, o filme tem no elenco Ed Harrris, Colin Farrel, Mark Strong e Saoirse Ronan, entre outros. Muitos críticos fecharam a cara para o filme.


Peter Weir é bem conhecido do grande público por vários filmes que investigam o ser humano em situações que exigem coragem, obstinação e crença no poder da fé. Para acompanhar a filmografia desse cineasta, há bons filmes que podem anteceder ou suceder a ida à locadora para tirar da prateleira o novo “Caminho da Liberdade”, e conferir se a crítica mais azeda teve alguma razão. Alguns dos filmes mais conhecidos do diretor:


- MESTRE DOS MARES – Estrelado por Russel Crowe e Paul Bettany, a aventura dramática tem um visual deslumbrante para contar uma história inteiramente transcorrida em navios sobre o mar. O filme é de 2003 e foi indicado ao Oscar em dez categorias e ganhou Fotografia e Edição de som. Concorria com “O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei”, que ganhou 11 estatuetas. Nosso “Cidade de Deus” também concorria. Ano ingrato... “Mestre dos Mares” não alcançou o sucesso esperado, mas é algo que se vê sempre com interesse.


- SOCIEDADE DOS POETAS MORTOS (Dead Poet Society) – Quando se fala em filmes sobre escola, estudantes, professores, não há quem não mencione esse drama de 1989, estrelado por Robin Williams e que lançou Robert Sean Leonard. O roteiro é bom e a história agrada até hoje, ao retratar o cotidiano de uma rígida escola inglesa , nos anos 1950, os conflitos naturais entre os estudantes, seus professores, a direção, a família, tudo conforme as regras morais da época, as normas arcaicas de disciplina...Quando tudo o que é ruim e sufocante parece dominar, a luz vem de um professor (Williams) e seus métodos pouco ortodoxos que, como era de se esperar, geram amor e ódio em proporções gigantes. O filme celebrizou e popularizou a expressão “Carpe Diem” (em latim, aproveitem o dia), um dos mandamentos do professor. Levado com um certo equilíbrio entre emoção, leveza e mão pesada, o drama escolar comove e encanta, por pouco escapando do melodrama. Recebeu indicações ao Oscar , ganhou na categoria “roteiro original”e sempre foi um sucesso, desde seu lançamento nos cinemas, depois no VHS e agora no DVD e no Blu-Ray.


- O SHOW DE TRUMAN (The Truman Show) – é o meu filme favorito do diretor. Antes que o mundo inteiro fosse contaminado pelos reality shows, Weir dirigiu este filme em 1998, tendo o elenco encabeçado por Jim Carrey. O comediante, no auge do sucesso pelos seus papeis cômicos, aqui usou seu talento completo na criação de uma personagem ímpar: um homem que tem, desde o nascimento, sua vida mostrada como um grande show de TV. Tudo no mundo dele é cenário, é roteiro, as pessoas que o cercam são atores e atrizes. Um diretor , com interpretação magnífica de Ed Harris, indicado ao Oscar de melhor ator coadjuvante, que é como se fosse o pai da criatura, monitora cada segundo da vida de Truman, único que não sabe de sua condição. Original e chocante, principalmente para a época em que foi lançado, há 13 anos, com recursos tecnológicos avançados , “O Show de Truman” encanta e emociona. A trilha sonora é belíssima. O filme foi indicado ao Oscar em três categorias, mas não levou em nenhuma . Ganhou prêmios mundo afora, e abriu muitas portas para o diretor Peter Weir , além de colaborar de forma definitiva para o reconhecimento do talento dramático de Jim Carrey, que foi esnobado pela Academia, num ano em que era uma grande aposta dos críticos e do público.


Fiquemos na companhia de Peter Weir e conheceremos seus mares bravios, sua neve impiedosa, seus poetas, além de ficarmos imaginando como seria a nossa vida sob uma grande redoma, vista passo a passo por uma audiência sedenta de emoções, num Big Brother levado às últimas consequências.

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

O PLANETA DE CHARLTON HESTON

Por José Farid Zaine

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Em 1968, o mundo conheceria uma versão chocante e fascinante de sua história, do seu passado e do seu futuro. Estreava nos cinemas o primeiro filme de uma longa série, mas que marcou definitivamente o gênero ficção científica. Naquele ano, o mundo vivia em turbulência, numa febre de mudanças e de criatividade artística num período de efervescência cultural jamais igualado. Há quem diga que é o ano mais emblemático da história. Pois surgiu nesse ano o filme de Franklin Shaffner, com a espantosa maquiagem que criava macacos falantes com absoluta perfeição, até hoje copiados. A plateia vibrava com a história do comandante George Taylor, que chega a um planeta misterioso dominado por macacos. Eles falam, comandam tudo, há entre eles políticos, historiadores e cientistas que estudam...humanos! Esses são escravizados e desprovidos de fala. Que planeta seria esse, em tudo semelhante à Terra, não fosse por seus habitantes, tanto os dominadores quando os dominados? Taylor teria que passar por muitas provações, até chegar ao final aterrador de suas indagações. Uma das mais inteligentes, magníficas e dramáticas sequencias finais da história do cinema estava ali, nos últimos minutos de “O Planeta dos Macacos”, com Charlton Heston. As sequências que viriam depois jamais igualariam o impacto desse primeiro filme, nem mesmo sua refilmagem por Tim Burton, no ano de 2001, contando com uma participação especial do próprio Heston.


Estreou na semana passada em todo o Brasil um novo filme sobre o tema para ganhar novas gerações e conquistar ou não a simpatia dos milhões de fãs da saga em todo o mundo. Trata-se do sucesso imediato de público “O Planeta dos Macacos – A Origem”, dirigido por Rupert Wyatt, estrelado por James Franco. Já não há Charlton Heston. O grande heroi do cinema , o poderoso e viril salvador do mundo em todas as situações possíveis, morreu em 2008, aos 84 anos de idade, com o corpo deteriorado pela velhice e por uma doença degenerativa...coisas da vida, do tempo implacável. Ficaram, contudo, eternizadas pelo poder do cinema, as imagens desse ator marcado por personagens ligadas à força, ao heroísmo, ao destemor...


Nos anos 1950 e início dos 60, Charlton Heston estrelou seus maiores e mais significativos filmes, dentro de uma enorme filmografia. Qualquer estudioso da sétima arte jamais poderá deixar de conhecer os monumentais filmes em que atuou, fixando sua imagem de força, colada a personagens com imenso poder de liderança, sempre ligadas a histórias relevantes de fé e de busca pela igualdade social e pela justiça. Em 1956 ele foi Moisés, guiando seu povo através do deserto, em busca da terra prometida numa das mais espetaculares superproduções até então já realizadas, com o gosto duvidoso do seu diretor, Cecil B. DeMille. Não há como negar, contudo, o encanto desse filme cheio de efeitos especiais espantosos para a época (ganhou o Oscar nessa categoria), como a cena em que o mar vermelho se abre para a passagem da multidão que foge do Faraó Ramsés, e depois se fecha sobre os soldados do tirano.


Em 1961 chega às telas a história de Rodrigo Dias de Bivar, herói espanhol que comanda uma batalha mesmo depois de morto...quem poderia encarná-lo? Heston, claro, e assim ele o fez no belíssimo épico “El Cid”, dirigido por Anthony Mann, contracenando com Sophia Loren no auge da beleza...mas o maior de todos os valentes herois de Charlton Heston foi mesmo a personagem título de “Ben-Hur”, de 1959, dirigido por William Wyler, em que ele ganha o Oscar de melhor ator, um dos onze prêmios da Academia arrebatados pelo filme, record absoluto até então, só igualado quase meio século depois por “Titanic” em 1997, e por “O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei”, em 2003. Os três recordistas são filmes grandiosos, tecnicamente perfeitos, mas “Ben-Hur” é inigualável, por sua história humana e comovente, por sua trilha sonora magnífica, e sobretudo pela corrida de bigas, uma das sequências mais espetaculares e bem feitas de todos os tempos. Mas seria injusto não mencionar, na filmografia de Charlton Heston, o clássico “A Marca da Maldade”, do gênio Orson Welles, obra que revelou suas qualidades de ator dramático, através de personagem desvinculada das figuras históricas.


Fiquemos com essa estreia nos cinemas, digna e tecnicamente irrepreensível, como manda o figurino dos nossos tempos de alta tecnologia, mas sem negar um olhar para o verdadeiro início de tudo, o filme de 1968. Todos já sabem o que vão encontrar vendo esse DVD, mas vale a pena vê-lo antes de assistir a essa nova aventura que acabou de estrear, para revelar o que aconteceu no Planeta até o momento em que a Estátua da Liberdade, soterrada até a altura do peito, escancara o que o homem fez com seu próprio lar. Aí, até a montanha vigorosa de músculos de Charlton Heston precisou se curvar e urrar de indignação.

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

FRUTOS PERMITIDOS


Por José Farid Zaine

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Entrar no clima do filme “A Árvore da Vida”( The Tree of Life), em exibição nos cinemas brasileiros desde a semana passada, é uma experiência para todos os sentidos. De início já somos mergulhados em algo que , sabemos, não será um filme comum, pelas imagens e sons que inundam a tela. A platéia silencia, envolvida pela música e pela força da fotografia. Efeitos especiais em profusão preenchem boa parte dos trinta minutos iniciais, levando-nos à criação do mundo, ao Big Bang, ao surgimento da vida, à evolução das espécies, como se fosse preciso que nos situássemos dentro dessa origem do universo, das explosões, das galáxias, para compreendermos as razões de estarmos vivos, fazendo parte de tudo...Terrence Malick volta com este drama intimista, cheio de silêncios,vozes murmuradas, sombras e luz, muita luz...O público jamais verá com indiferença esta nova obra do consagrado diretor de “Cinzas do Paraíso” e “Além da Linha Vermelha”.


“Cinzas no Paraíso” (Days of Heaven), consagrou o diretor principalmente pela sua predileção pela plástica, aqui revelada através de magnífica fotografia. Está disponível em DVD e tem Richard Gere no elenco, acompanhado por Brook Adams e Sam Shepard. Saudado por criar uma das mais belas fotografias do cinema, Nestor Almendros ganhou o Oscar por esse trabalho. “Cinzas no Paraíso” é de 1978, e “Além da Linha Vermelha” viria apenas 20 anos depois, em 1998.


Não se espere uma coisa fácil de “A Árvore da Vida”, um roteiro linear, uma história que tenha os nítidos contornos de começo, meio e fim bem delineados. Não há nada de complicado, também, por paradoxal que possa parecer, no enredo: uma família americana, no Texas dos anos 1950, vive seu cotidiano de inquietações, alegrias, buscas...A perda de um ente querido levará ao questionamento das razões da existência, à aproximação e ao distanciamento com Deus, a busca do equilíbrio com a natureza...O sermão do Padre está presente, a alertar sobre a necessidade do amor.


Brad Pitt confirma seu talento de ator dramático, já demonstrado em “Babel”, “O Curioso Caso de Benjamin Button” e “Clube da Luta”. Em “A Árvore da Vida” ele é o chefe de família que impõe aos seus um tratamento machista e autoritário, com a intenção de dar rígida formação aos filhos. O mais velho, Jack, representado com incrível segurança pelo excelente ator mirim Hunter McCracken, na vida adulta tem Sean Penn como intérprete. O contraponto ao ambiente bucólico da infância, mas nem por isso sempre feliz, será uma cidade de concreto, vidro e aço, de onde a mente de Jack viajará para sempre ao passado, na tentativa de se harmonizar com ele.


A mãe, interpretada com precisão, delicadeza e emoção por Jessica Chastain chega a ser quase um oásis na vida de regras e opressões da família. A atriz é o melhor achado do elenco.


“A Árvore da Vida” carrega um profundo sentimento religioso, pela concepção plástica do universo em transformação, pela música que cria sempre o ambiente das grandes catedrais vazias, como se fosse a ponte sonora para Deus...O autor da trilha, Alexandre Desplat, colocou nas suas criações e nas suas escolhas toda sua larga experiência no cinema. Além da música original, belíssima, obras consagradas como a Tocata e Fuga em Ré Menor (que a personagem de Pritt toca num órgão), de Bach, e sinfonias de Brahms. Cordas e coros permeiam todo o longa. Desplat foi indicado ao Oscar neste ano pela trilha de “O Discurso do Rei”.


O filme de Terrence Malick foi laureado com a Palma de Ouro, em Cannes, em 2011. O prêmio é um dos mais conceituados do mundo, perdendo em glamour e popularidade apenas para o Oscar. Malick não foi recebê-lo, dada sua conhecida aversão às badalações características dos grandes festivais internacionais. Não houve unanimidade no júri do Festival de Cannes, neste ano presidido por Robert de Niro. Tampouco o público aceitou o resultado, havendo clara divisão entre os que gostaram muito, os que detestaram e os que não o compreenderam. Isso é comum com obras que gerem algum tipo de polêmica. O certo é que ninguém ficou indiferente ao belo, poético e perturbador filme do diretor.


“A Árvore da Vida” consegue tocar em temas como família, autoridade, passado, natureza, Deus, origem do universo, sem nunca ser piegas e muito menos didático. Os efeitos especiais, que Malick nunca usou tanto como aqui, servem para valorizar o pensamento que gerou o filme, nunca para demonstração de pirotecnia tecnológica.


Fiquemos à sombra desta “Árvore da Vida”, ou melhor, fiquemos sob sua luz, sua intensa luz. Os frutos dela são permitidos.

terça-feira, 16 de agosto de 2011

COMO ESQUECER DZI CROQUETTES?

Por José Farid Zaine

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Hoje e amanhã o Teatro Vitória revive, mais uma vez, seus dias de cinema... prossegue nesta sexta e continua amanhã, sábado, o Projeto Cine Cultura, da Secretaria da Cultura de Limeira, desta vez trazendo à cidade, pela primeira vez, o Festival Mix de Cinema da Diversidade, grande sucesso em São Paulo. Em Limeira, acontecerão as exibições de dois longas e dois programas de curtas sobre o tema.


O longa de hoje é “Como Esquecer”, um belo drama com Ana Paula Arósio e Murilo Rosa. A história é a da professora de literatura inglesa, Júlia, no período que se sucede a uma dolorosa separação de uma mulher com quem viveu um romance de dez anos. Mágoas e ressentimentos dominarão o cotidiano de Júlia, que passa a contar com o apoio do amigo Hugo (Murilo Rosa), outro que sofre pelo rompimento com um caso amoroso, por conta da morte do parceiro. Situações diversas, mas que obrigam as personagens a tentar recompor a vida após perdas traumáticas.

A diretora Malu de Martino correu o risco de ver seu filme taxado de “papo cabeça” ou intelectualizado, por certa “pompa” em seus diálogos. Mas a natureza das personagens envolvidas exigia algo assim, e Ana Paula Arósio dá conta de construir uma Júlia verossímel, sem deixar que os exageros de pessimismo a transformassem numa personagem chata. O filme é delicado, bem fotografado, tem boa trilha sonora, flui com leveza, sem que jamais se torne panfletário. Narra a convivência de pessoas com o aprendizado da dor, da ausência. Neste aspecto consegue aprofundar essa reflexão e ser comovente.

Após “Como Esquecer”, o público poderá apreciar os curta-metragens selecionados pelo festival e premiados na edição de 2010.


O título do artigo remete ao outro filme do festival, que será exibido amanhã. Trata-se de um dos mais aclamados e premiados documentários brasileiros sobre um grupo de artistas que fez história nos anos 70, enfrentando a ditadura militar com inteligência e bom humor. Não demorou para a censura, câncer da cultura nos anos do regime militar, proibir o musical. O espetáculo foi para Paris e ganhou notoriedade internacional, como mostram depoimentos que estão no documentário, e que incluem palavras emocionantes de Liza Minelli.


“Dzi Croquettes” foi um grupo de ousados artistas da cena teatral brasileira num período difícil, em que a arte era vista como inimiga do poder, o que é comum nas ditaduras e regimes totalitários. Quem confrontasse o governo sofria as penas dos anos de chumbo, que incluíam prisões arbitrárias e bárbaras torturas, além de assassinatos e exílios. Por romper com as convenções e não se submeter às imposições, usando criatividade e fina ironia, o espetáculo “Dzi Croquettes” surgia e apaixonava as plateias.


O público limeirense terá a chance de conferir, amanhã, às 20h, com entrada franca, a fascinante trajetória dos “Dzi Croquettes”, treze homens atores/bailarinos, dos quais 8 já morreram, incluindo uma de suas maiores estrelas, o coreógrafo Lennie Dale. Lennie era amigo de Liza, que viu o espetáculo no Brasil e depois em Paris.


“Dzi Croquettes” tem direção de Tatiana Issa e Rapahael Alvarez. Tatiana, conforme ela declarou no Programa do Jô, morou com a trupe em Paris quando era muito menina, pois o pai trabalhava na equipe técnica do espetáculo.


O grupo se dissolveu em 1979, mas retornou em 1988, naturalmente sem o grande impacto do período de seu surgimento, quando recebeu todos os adjetivos imagináveis, de criativos a debochados, de irônicos a escrachados, mas sem nunca faltar o reconhecimento à sua genialidade.


Além de Liza Minnelli, o documentário traz depoimentos de Marília Pêra, Gilberto Gil, Ney Matogrosso, Nelson Motta e outros.


A possibilidade de que novas gerações conheçam o trabalho dos “Dzi Croquettes” e, através dele, compreendam melhor uma época difícil e traumática da recente história do Brasil, foi saudada por muitos críticos, e o filme recebeu diversos prêmios em festivais.


O Projeto Cine Cultura teve início no mês de maio, com uma pre-estreia nacional do filme “Elvis e Madona”, de Marcelo Lafitte, com a presença do ator Igor Cotrim, que interpreta Madona. “Elvis e Madona” estreará nos cinemas apenas no dia 23 de setembro! Em junho tivemos o filme “Bodas de Papel”, de André Sturm e o curta-metragem vencedor nessa categoria em Paulínia, no ano passado, “Eu Não Quero Voltar Sozinho”, com a presença do ator Fábio Audi. Este curta estará na programação do Festival Mix em Limeira. Na terça passada foram exibidos curtas argentinos.


Portanto, cinéfilos e público que deseja uma opção interessante e inteligente de cinema na cidade: Hoje e amanhã, de graça, a partir das 20h, no Teatro Vitória, ótimos filmes discutem a diversidade, mostrando a visão do cinema sobre amor, sexo e liberdade!

terça-feira, 9 de agosto de 2011

RAQUÍTICOS SONHADORES

Por José Farid Zaine

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Desde os seus primórdios, o cinema namorou a sua condição de fábrica de sonhos. Possibilidade inesgotável de documentação da história passou a existir, assim como a discussão da natureza humana em todas as suas facetas. Mas o que fascinou a humanidade foi a possibilidade de ver, nas telas, em movimento, a materialização dos seus desejos. No cinema é possível ultrapassar todas as limitações do corpo, do espaço, do tempo. Quem não desejou ser um super herói, com poderes para fazer de tudo, mudar ou conquistar tudo? Quais são os filmes que arrastam multidões ao cinema em todas as partes do mundo? A briga está por aí: Batman ou Homem Aranha? Homem de Ferro ou Superman? Todos os herois juntos ou o pequeno bruxo de Hogwarts? O universo se curva diante dos invejados poderes deles todos, e isso se traduz numa indústria voraz que consome e arrecada bilhões, numa prova incontestável do prazer gerado por uma aventura fantasiosa nas telas...Afinal somos nós, sentados nas poltronas, que nos deixamos levar pela fantasia, como se adquiríssemos todo o poder sonhado, e de repente pudéssemos romper com nossas limitações, transformando-nos em herois salvadores do planeta...Bem, haverá quem se identifique com os vilões, igualmente dotados de superpoderes, mas com outro foco, lógico...

Pois eis que chega às telas uma nova concepção de outro conhecido salvador da pátria, o Capitão América. Ele vem na pele do ator Chris Evans, numa superprodução que acaba de estrear, também destinada a conquistar grandes plateias. “Capitão América – O Primeiro Vingador”, dirigido por Joe Johnston, tem todos os ingredientes que temperam as grandes aventuras do cinema moderno: efeitos visuais espetaculares, capricho na direção de arte, fotografia, magníficos figurinos, trilha sonora...O apelo visual é fortíssimo, assim como o som, mas é preciso que o filme seja visto num cinema bem equipado...Fui ver numa sala que o exibia em 3D, mas com péssima projeção e uns óculos extremamente desconfortáveis, que ficavam folgados demais. Aí a sala exibidora trabalha contra a produção, tecnologicamente irrepreensível. Mas lá está o nosso herói. Muito americano, claro, defensor das cores de sua bandeira, o que é louvável em todo herói, não fosse a patriotada. Em todo o caso, em “Capitão América”, ela é mais leve do que em “Homem Aranha”. A magia do cinema, que,como já disse, nos permite tudo, aqui se revela na segunda guerra mundial. Sabemos o que existia na década de 1940, o que era possível existir dentro da história das conquistas científicas, mas nos divertimos vendo vilões com equipamentos incrivelmente avançados para a época...Lá estão os indefectíveis cientistas, o do bem e o do mal, ambos com suas descobertas mirabolantes, que não podem deixar de passar pelas máquinas e soros capazes de transformar um rapaz pequeno, raquítico, tímido, numa montanha de músculos, sem que se perca a marca do “homem bom”. Nisso reside muito do humor de “Capitão América”, pela escolha acertada do ator, e pelos efeitos interessantes que o fazem mudar a estatura e a compleição física.


O mês de julho, por ser de férias, foi pródigo em lançamentos de aventuras que prolongam sua temporada por todo o mês de agosto...Podemos escolher entre voltar à segunda guerra no corpo de um soldado bombadão ( dentro dele estamos nós, os raquíticos sonhadores), penetrar no mundo sombrio das descobertas de Harry Potter, mas podendo usar todos os recursos de sua magia, ou nos envolvermos no universo mecânico de “Transformers”...aliás, este último vem nos revelar o “outro lado da lua”, a mesma lua que fascinou os primeiros aventureiros da sétima arte, que há mais de cem anos já viajaram, através do celulóide, ao nosso satélite...”Viagem à Lua”, do francês Georges Méliès é de 1902!


É espantoso compararmos os filmes de décadas atrás com as produções de agora, mas sabendo que, em cada época, eles foram capazes de despertar as mesmas emoções. O que virá pela frente? É igualmente fascinante pensar nisso. O que não mudará, com toda a certeza, será o poder que o cinema tem de alimentar nossas fantasias, nossos sonhos e ilusões.


Cito um exemplo: Não teríamos todos um desejo secreto de nos vingarmos dos nazistas, pelas barbaridades que cometeram durante o holocausto, que causam choque e terror ainda hoje? Pois Quentin Tarantino fez isso por todos nós. A sequência final de “Bastardos Inglórios” é a nossa redenção: os nazistas pagam, de forma cruel, claro, pelos seus crimes. Tudo bem, trata-se de um filme de ficção. Mas de que outra forma conseguir justiça, a esta altura da história?


Bom, é hora de acabar com os preconceitos e se permitir uma folga só pra curtir um divertimento sem outras pretensões. Quem for ver “Capitão América” com esse propósito não se arrependerá.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

CHICO, ZORBA E AS PONTES DE MADISON


Por José Farid Zaine

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Chico Buarque está apaixonado! Sorte nossa: o momento dele faz nascer a costumeira poesia nas letras de suas músicas...seu novo CD traz provas incontestáveis disso. Ele confessa: “meu tempo é curto, o tempo dela sobra. Me cabelo é cinza, o dela é cor de abóbora”...a música é “Essa Pequena”, em que ele canta o amor de um homem mais velho por uma mulher bem mais nova. Diz que não sabe quanto vai durar “essa novela”, mas está pronto para curtir “cada segundo que se esvai”...É lindo! É Chico, mais uma vez, inundando a MPB com seus versos que celebram o amor, em qualquer momento da vida. Ele já foi responsável por tantas canções de amor antológicas que, para fazer justiça à sua obra, não dá para citar pouca coisa. Lembro-me então de uma das minhas favoritas, “As Vitrines”, a que tem uma das mais lindas letras já escritas em toda a história da música popular brasileira, e termina com o amante apaixonado, que pode apenas, de longe, ver passar o seu amor, sem ser notado: “passas em exposição, passas sem ver teu vigia, catando a poesia que entornas no chão”...bonito demais.

O que tem a ver as canções de amor de Chico Buarque com o CineArt desta semana? Explico: eu estava conferindo a programação da Secretaria da Cultura para os próximos dias, recheada de atrações de todos os tipos, com um destaque para o cinema brasileiro: nos dias 1º e 2 de agosto, segunda e terça próximas, ao lado do Gigantão, lá na Cecap, será apresentado ao público o projeto “Energia em Cena”, patrocinado pela Elektro, com filmes brasileiros de graça para o público, os grandes sucessos “Se eu Fosse Você 1 e 2”, e os infantis “Eu e Meu Guarda-Chuva” e “O Grilo Feliz e os Insetos Gigantes”... ouvia o CD do Chico, e me deparei com um grande espetáculo de teatro que receberemos no dia 4, próxima quinta-feira: “As Pontes de Madison”, um belíssimo drama romântico sobre o amor de duas pessoas adultas, num momento da vida em que viver tórridas paixões poderia parecer apenas coisa de ficção...a ligação com a música que estava ouvindo foi imediata, pois tanto ela como a peça tratam do assunto com igual delicadeza, com poesia e emoção. Aí meu cérebro fez o inevitável “link” com o filme de mesmo nome, estrelado por Meryl Streep e Clint Eastwood, dirigido por ele.

Eis aí a minha recomendação da semana: ver ou rever “As Pontes de Madison”, em DVD ou Blu-Ray, e depois ir conferir a peça no Teatro Vitória. Ninguém pense que ver o filme antes estraga o prazer de ver a peça. Eu mesmo havia visto pelo menos três vezes o filme, e assisti com enorme prazer à montagem teatral com Marcos Caruso e Jussara Freire. O casal que estará em Limeira é composto por Flávio Galvão e Mayara Magri, igualmente ótimo.

A história revela um caso de amor entre Francesca Johnson (Meryl Streep), uma dona de casa, e um fotógrafo da National Geografic (Clint Eastwood). A pacata vida de Francesca será sacudida por um amor profundo e por um intenso relacionamento de apenas alguns dias entre os dois, durante uma viagem da família. A revelação do affair virá apenas depois da morte dela, através de cartas deixadas aos filhos.

“The Bridges of Madison County” é o título original deste romântico filme de 1995, que deu outra indicação ao Oscar à sempre magnífica Meryl. O par com Eastwood resulta perfeito, e é impossível não se emocionar.

E Zorba? Bem, nesta semana que passou, marcada pela avalanche de notícias sobre a morte precoce de Amy Winehouse, o cinema perdeu também o diretor grego Michael Cacoyannis, criador de um dos mais belos filmes de todos os tempos, e que projetou o cinema da Grécia por todo o mundo. Trata-se de “Zorba, o Grego”, obra-prima de 1964 filmada em preto e branco, aliás com uma fotografia esplêndida, estrelada por Anthony Quinn no melhor momento de sua carreira. É sempre um grande prazer rever “Zorba”, com a antológica trilha sonora que também fez enorme sucesso. No elenco, Alan Bates brilha ao lado das excepcionais atrizes Irene Papas e Lila Kédrova, esta vencedora do Oscar de melhor atriz coadjuvante. Cacoyannis morreu na segunda-feira, dia 25, em Atenas, aos 89 anos. Rever “Zorba, o Grego”, em sua homenagem, é também um excelente programa. Então, estamos combinados: fim de semana com sessões domésticas de “As Pontes de Madison” e “Zorba, o Grego”, segunda e terça cinema de graça com sucessos do cinema brasileiro no Gigantão, e dia 4, todos ao teatro Vitória, quando a adaptação de “As Pontes de Madison” chegará ao nosso palco principal...e enquanto tudo isso acontece, que a trilha sonora da semana seja o novo CD de Chico Buarque de Hollanda, com a prova de que a melhor receita para se viver bem , é nunca deixar de amar!