sexta-feira, 9 de março de 2012


DOBRADINHAS



Por José Farid Zaine

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Agora que temos uma Broadway brasileira, que é São Paulo, podemos nos dar ao luxo de ver grandes musicais no palco e também as versões deles para o cinema. Neste começo de ano é possível programar deliciosos passeios na Capital, escolher um dos espetáculos que estão em cartaz, e ainda conferir, nos DVDs, as versões para a tela grande.


Pertinho de nós, aqui em Paulínia, no Theatro Municipal, neste fim de semana acontecem apresentações de “Cabaret”, excelente oportunidade para ver uma montagem muito boa de um dos mais aclamados musicais da Broadway. Nossa estrela Cláudia Raia dá conta do recado ao encarnar a cantora decadente Sally Bowles, atração de um cabaré na Berlim que está vendo o nascimento do nazismo...A personagem foi imortalizada no filme de Bob Fosse, um dos melhores de todos os tempos, por Liza Minnelli. Ela ganhou o Oscar de melhor atriz, merecidíssimo, o filme ganhou 8 no total, incluindo um para Joel Grey, o fabuloso mestre de cerimônias. O filme tem cenas antológicas que já entraram para a história dos musicais. As músicas são extraordinárias, e um dos grandes momentos, tanto na tela grande quanto no palco é “Maybe this time”. Liza teve uma interpretação inigualável dessa música, e Cláudia até que segura bem na versão em português.


No caso de “A Família Addams”, que acabou de estrear no Teatro Abril, o musical chegou aos palcos inspirado nas histórias tão conhecidas da terrível família, que nos deu ótimos filmes, mas não musicais. Marisa Orth e Daniel Boaventura estão no elenco. Então é possível curtir os filmes já lançados, reviver a fantástica Anjelica Huston e matar a saudade de Raul Julia, além de curtir as peripécias dessa turma impagável num espetáculo cheio de surpresas e sofisticados efeitos especiais. Bom, para ver “A Família Addams”, o musical, no cinema, vai demorar um pouco...e ainda resta esperar como será a versão a ser dirigida por Tim Burton!


Nesta semana, também, outro musical aterrissa no palco do Teatro Alfa em pre-estreias. Trata-se do consagrado “Um Violinista no Telhado”, que fez sucesso no Rio e agora chega a São Paulo, embalado pela grande audiência de Fina Estampa, já que José Mayer, que está na novela, é o astro do musical, razão do visual dele no folhetim das 9. Da Broadway, “Um Violinista no Telhado” foi para o cinema pelas mãos de Norman Jewison que, entre outras coisas, dirigiu outro enorme sucesso, a ópera-rock “Jesus Cristo Superstar”. No filme “Um Violinista no Telhado” (Fiddler on the Roof), facilmente encontrado em DVD e Blu-Ray, o intérprete é o ator Topol. Está aí uma ótima chance para curtir uma dobradinha das melhores.


Outro espetáculo que estreará na próxima semana é “Priscilla, a Rainha do Deserto”, no Teatro Bradesco. Muito interessante será ver a versão do musical em DVD do filme de Stephan Elliot, com nada mais, nada menos que Terence Stamp, Hugo Weaving e Guy Pearce no elento. Os grandes hits “It´s raining Men” e “ I will survive” já garantem a trilha Sonora. “Priscilla” ganhou o Oscar de melhor figurino em 1994, e a versão para os palcos paulistas promete qualidade artística e glamour, temperos cada vez mais frequentes nas nossas produções.


Outra oportunidade de sensacional dobradinha – palco e dvd – é o musical “Hair”, em cartaz até fim de abril no Teatro Frei Caneca, em São Paulo. Trazido pelos “papas” dos musicais no país, os diretores e produtores Charles Möeller e Cláudio Botelho, a peça tem encantado o público, tanto o mais velho que curtiu o surgimento de Woodstock nos anos 60, quanto os jovens que se encantam com a história que não envelheceu, bem como as canções. No DVD está a possibilidade de ver e rever a versão dirigida por Milos Forman, o grande diretor tcheco que fez grandes filmes nos Estados Unidos, incluindo “Amadeus”, vencedor de 8 Oscar. Tanto o “Hair” de Milos Forman quanto esse que alegra o palco do Frei Caneca, são ótimas opções de um divertimento de alta qualidade, com as músicas que marcaram gerações e permanecem com seu poder de envolvimento. Não há quem não cante junto a linda “Aquarius”, nem se emocione até as lágrimas quando o afinado elenco repete “Let the Sunshine in”, convidando as pessoas a subirem ao palco.


Grandes musicais chegam ao País, e vemos com orgulho nossos atores e atrizes, cantores e cantoras, bailarinos e bailarinas revelando que já estamos entre os melhores do mundo. Então a dobradinha é a seguinte: a gente vê o que o cinema fez com esses musicais e vamos ao teatro para, ao vivo, aplaudirmos o talento de uma nova geração de artistas que encantam o Brasil.

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Quem vai ganhar o Oscar 2012?

Por José Farid Zaine

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Chegamos enfim à semana mais aguardada pelo mundo inteiro, quando se fala em cinema. O maior, mais influente e fascinante prêmio do universo da sétima arte será entregue, em sua edição de número 84, neste domingo, em Los Angeles, no agora chamado “ex- Teatro Kodak”, pois o espaço não terá mais o nome Kodak por conta de uma pendenga judicial, que não vale discutir neste espaço.


Para Farid, o melhor filme será O ARTISTA.


Vi muita, muita coisa nas últimas semanas, ente pre-estreias, estreias e DVDs. Há excelentes filmes na safra deste ano, grandes nomes consagrados, gente que está despontando agora, coisas que não podiam ser indicadas, atores e atrizes esnobados pela Academia...enfim, tudo o que marca a entrega do Oscar todos os anos.


Vamos agora aos meus palpites:


MELHOR FILME

A categoria principal traz ótimos filmes como “O Artista”, “A Invenção de Hugo Cabret”, “Os Descendentes”, “A Árvore da Vida” e “Meia-Noite em Paris”. A lista poderia parar por aí, se ainda valesse a regra de dois anos atrás, quando eram 5 os finalistas. A Academia mudou o número para dez, e agora impôs novas regras, o que fez com que este ano fossem 9 os indicados. Agora o número pode variar de 5 a 10, pois somente os filmes que atingirem 5% dos votos dos membros da Academia para o primeiro colocado de cada lista, estarão entre os indicados...


Meu favorito: O ARTISTA, a bela homenagem de Michel Hazanavicius ao cinema americano, através de um filme sem diálogos e em preto e branco.


Segunda opção: o drama familiar americano “Os Descendentes”, de Alexander Payne.


MELHOR DIRETOR

Os 5 são magníficos e são os diretores dos meus filmes favoritos. Martin Scorsese é sempre garantia de um grande filme, e “A Invenção de Hugo Cabret” não foge à regra. Optando pelo 3D, Scorsese fez também sua declaração de amor ao cinema, homenageando os primórdios dessa arte, com as obras de Georges Mèliés como nunca foram vistas antes. Contudo, a originalidade, a criatividade e a emoção colocadas em “O Artista”, revelam ao mundo um talentoso diretor de grande futuro.


Meu favorito: Michel Hazanavivius, por “O Artista”.


Segunda opção: Martin Scorsese, “A Invenção de Hugo Cabret”


MELHOR ATOR

Entre o sorriso encantador de Jean Dujardin, a marca de “O Artista”, fico com a melhor interpretação da carreira de George Clooney, como o pai de família que precisa enfrentar uma reviravolta nas relações familiares, em “Os Descendentes”.


Meu favorito: George Clooney, em “Os Descendentes”


Segunda opção: Jean Dujardin, em “O Artista”


MELHOR ATRIZ

Um ano de grandes interpretações femininas, sobretudo pela criação espantosa de Meryl Streep como Margaret Thatcher. Na lista final falta Tilda Swinton, fantástica em “Precisamos falar sobre o Kevin”. É a grande ausente do Oscar 2012.


Minha favorita: Meryl Streep, por “A Dama de Ferro”


Segunda opção: Viola Davis, por “Histórias Cruzadas”.


MELHOR ATOR COADJUVANTE

Uma das grandes “barbadas” do ano ! A comovente e delicada interpretação de Christopher Plummer, como o viúvo que, depois dos 70 anos se declara gay e passa a curtir uma nova vida, ainda que marcada por um drama, é uma unanimidade!


Meu favorito: Christopher Plummer, por “Toda Forma de Amor” (Beginners).


Sem segunda opção...


MELHOR ATRIZ COADJUVANTE

Briga boa nesta categoria. Em “Histórias Cruzadas” (The Help), Octavia Spencer dá um show como a empregada negra num tempo de brutais discriminações raciais nos EUA. Sua patroa, interpretada pela ótima Jessica Chastain também concorre com força. Berenice Bejo está maravilhosa em “O Artista”, assim como Janet Mcteer em “Albert Nobbs”, em que faz uma mulher que se faz passar por homem, do mesmo modo que a personagem de Glenn Close, nesse belo drama inglês.


Minha favorita: Octavia Spencer, por “Histórias Cruzadas”


Segunda opção: Janet Mcteer, por “Albert Nobbs”.


MELHOR ROTEIRO ORIGINAL

Meu favorito: “Meia-Noite em Paris”, de Woody Allen


Segunda opção: “A Separação”, drama iraniano indicado a melhor filme estrangeiro.


MELHOR ROTEIRO ADAPTADO

Meu favorito: “Os Descendentes”


Segunda Opção: “A Invenção de Hugo Cabret”


MELHOR EDIÇÃO (montagem)

Meu favorito: “A Invenção de Hugo Cabret”


Segunda Opção: “Millenium – Os Homens que não amavam as Mulheres”


MELHOR FIGURINO

Meu favorito: O ARTISTA


Segunda opção: “Anonymous”


MELHOR TRILHA SONORA ORIGINAL

Meu favorito: O ARTISTA


Segunda Opção: “A Invenção de Hugo Cabret”


MELHOR CANÇÃO ORIGINAL

Aqui não dá pra ser diferente: fica apenas minha grande torcida para “Real in Rio”, de Sergio Mendes e Carlinhos Brown, do filme “Rio”, de Carlos Saldanha. Infelizmente acho que vai dar “Man or Muppet”, do filme “Os Muppets”, bem melosa e mais ao gosto da Academia. Minha favorita, sem dúvida, é a nossa música brasileira.


DIREÇÃO DE ARTE

Meu favorito: “A Invenção de Hugo Cabret”

Segunda opção: “O Artista”


MAQUIAGEM

Tanto “Albert Nobbs” (com uma Glenn Close irreconhecível como homem, assim como Janet McTeer) quanto “Harry Potter” e “A Dama de Ferro” tem maquiagens dignas de prêmios. Fico com a caracterização impressionante de Meryl Streep em “A Dama de Ferro”.


FOTOGRAFIA: Todos os finalistas aqui merecem ganhar. São esplêndidos todos os trabalhos indicados.

Meu favorito: “A Árvore da Vida”


Segunda opção: “A Invenção de Hugo Cabret”


DOCUMENTÁRIO DE LONGA METRAGEM

Vi apenas um dos concorrentes, mas duvido que haja outro à sua altura: trata-se do excelente documentário dirigido pelo alemão Wim Wenders sobre a coreógrafa e dançarina Pina Bausch. “PINA” é sensacional, assim como a obra da artista retratada nele.


MELHOR FILME EM LÍNGUA ESTRANGEIRA

Aqui temos outra possível “barbada”: celebrado em todo o mundo, o drama iraniano “A Separação” vem arrebatando críticos, jurados de festivais e público. Não podia ser diferente, pois o filme é absolutamente sensacional e é o meu favorito. Aliás, um dos melhores que vi nos últimos anos.


MELHOR EDIÇÃO DE SOM

Meu favorito: “A Invenção de Hugo Cabret”


Segunda opção: “Cavalo de Guerra”


MELHOR MIXAGEM DE SOM

Meu favorito: “A Invenção de Hugo Cabret”


Segunda opção: “Cavalo de Guerra”


MELHORES EFEITOS VISUAIS

Meu favorito: “O Planeta dos Macacos – a origem”


Segunda opção: “A Invenção de Hugo Cabret”.


MELHOR ANIMAÇÃO

Aqui deveria estar, com certeza, o lindo “Rio”, de Carlos Saldanha. Como não está, meu favorito entre os que ficaram é o engraçadinho “RANGO”. Sem segunda opção.


Aí estão os meus palpites, resultado de uma deliciosa maratona pelos cinemas...e desejo que meus leitores e leitoras vejam todos esses filmes, usando horas de seu tempo para usufruir dessa arte tão completa, que nos dá tanta emoção e tanto prazer. Nós todos merecemos.

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

A GRANDE DAMA DO CINEMA


Por José Farid Zaine

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Meryl Streep não deveria mais ser indicada ao Oscar ou a outros prêmios: deveria ficar determinado que ela já é vencedora por todos os papeis que vier a interpretar, e ser Hors-concours em todos os festivais e premiações. Claro, é um exagero, mas a carreira e os trabalhos dessa atriz espetacular atestam a sua indiscutível condição de maior atriz do seu tempo, e uma das maiores de todos os tempos na história do cinema. Não há um único filme dela em que sua performance não tenha sido perfeita. Nem sempre os filmes são bons, mas Meryl está lá, completa, compondo a personagem que lhe foi conferida com entrega absoluta. Não é para menos que tenha sido indicada 17 vezes ao Oscar (venceu em duas oportunidades, como coadjuvante em “Kramer vs Kramer” e como atriz principal em “A Escolha de Sofia”), 26 ao Globo de Ouro (venceu oito vezes) e uma penca de indicações e prêmios de sindicatos, associações, festivais.


Meryl Streep é novamente a grande favorita ao Oscar, nesta edição de 2012. Mais uma vez sua interpretação é considerada absolutamente perfeita. Concorre com magníficas atrizes, mas não há como dizer que haja alguém melhor que ela. Tudo pode acontecer no Oscar. Viola Davis é uma grande atriz e tem também um excepcional desempenho em “Histórias Cruzadas” (The Help), e já ganhou vários prêmios. Não se pode dizer que será injustiça uma vitória dela. Mas Meryl é única, daí eu ter dito no começo deste artigo que ela nem deveria concorrer mais...Viola Davis ganhar não será injustiça, mas Meryl perder será...


Em “A Dama de Ferro” (The Iron Lady), que estreia hoje em todo o Brasil, ela interpreta Margaret Thatcher, a poderosíssima Primeira-Ministra britânica, primeira mulher a ocupar esse cargo e que conduziu, com firmeza absoluta (até combatida e criticada), a Inglaterra a um período de prosperidade e de mudanças que projetaram nova imagem do País para todo o mundo. A “mão de ferro” de Thatcher guiou até uma guerra aparentemente improvável contra a Argentina pelas ilhas Falklands, as Malvinas, de desfecho favorável aos ingleses e com marcas terríveis para nossos vizinhos sul-americanos.


A composição feita por Meryl para recriar Thatcher no cinema é espantosa. A diretora Phyllida Lloyd , com quem a atriz fez o musical “Mamma Mia”,conta a história da Primeira-Ministra a partir do presente, mostrando-a já debilitada e com a memória confusa, nos seus 86 anos. A caracterização de Meryl é perfeita, e sua interpretação é comovente, sem jamais ser piegas. Eu gosto bastante de como a história é contada, em flash-backs, mostrando as várias etapas da vida dessa grande personalidade de nossos tempos. Muitos críticos torceram o nariz para o fato de não haver um aprofundamento na biografia de Thatcher, o que realmente não acontece, mas a proposta do filme não é exatamente um painel histórico, cronológico e analítico da vida dela...o que vemos é a mulher, cujo poder foi imenso, mergulhada em lembranças, alucinações, memórias, como se nos momentos de maior lucidez assistisse ao filme da própria vida.


Recomendo “A Dama de Ferro”, assim como recomendo todos os filmes dessa magnífica atriz que é Meryl Streep. Para quem quer fazer uma revisão de sua obra, indico meus favoritos, todos facilmente encontrados nas locadoras;


1. “A MULHER DO TENENTE FRANCÊS” , de 1981, dirigido por Karel Reisz...é o meu favorito.

2. “AS PONTES DE MADISON”, de 1995, dirigido por Clint Eastwood. Um emocionante drama romântico de enorme sucesso.

3. “A ESCOLHA DE SOFIA”, de 1982, dirigido por Alan Pakula. Fortíssimo drama de guerra que deu a ela seu Oscar de Melhor atriz.

4. “IRONWEED”, de 1987, de Hector Babenco, o diretor argentino naturalizado brasileiro. A dupla Meryl Streep e Jack Nicholson numa explosão de talento. Filme belíssimo pouco conhecido do grande público, para ser visto com urgência.

5. “ENTRE DOIS AMORES”, de 1985, dirigido por Sydney Pollack. O filme ganhou 7 Oscars, incluindo “melhor filme”, e tem fotografia e trilha sonora antológicas.


Enfim, basta ver o nome de Meryl Streep no elenco para se ter certeza de que, no mínimo, valerá a pena ver o filme pelo trabalho dela.


No caso de “A Dama de Ferro”, o filme tem muitas qualidades, mas Meryl, a grande dama do cinema, é o maior motivo para não perdê-lo de jeito nenhum.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

UMA SEPARAÇÃO QUE APROXIMA



Por José Farid Zaine

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O grande público não está habituado a filmes falados em línguas orientais, que causam certo estranhamento, apesar da beleza, da sonoridade que elas tem...Filmes iranianos, cuja língua é o persa (ou farsi), há um tempo, ganharam notoriedade nos festivais em todo o mundo, ganhando a crítica e um público restrito. Criou-se até um rótulo, um preconceito: ver esses filmes só seria para os frequentadores de festivais e mostras de cinema, porque o espectador comum morreria de tédio com eles...Pois quem quiser desmanchar definitivamente essa imagem precisa ver, com urgência, “A Separação”, magnífico drama iraniano dirigido por Asghar Farhadi. O filme, além de jamais ser tedioso ou lento, é um exemplo de cinema bem acabado, inteligente, ágil, com um roteiro primoroso que prende o espectador da primeira à última cena, merecidamente indicado ao Oscar nessa categoria.


A história contada em “A Separação” é a de um casal, Simin (Leila Hatami) e Nader (Peyman Moadi), que está se divorciando. As primeiras imagens já nos mostram os dois conversando com um juiz (que não aparece), num diálogo bastante esclarecedor, que não só nos coloca diante da situação familiar do casal, como nos revela o sistema judiciário iraniano, arcaico e dominador. Simin deseja viajar para fora do País, e com ela levar Termeh, a inteligente filha de onze anos, interpretada por Sarina Farhadi...sim, o diretor é pai dela; Nader, que a princípio iria junto, não quer ir mais por conta do pai, que tem Alzheimer e precisa de cuidados. Daí a proposta do divórcio, pois dessa forma a mulher poderia viajar e levar com ela a filha. Daí também o conflito, pois o pai não deseja separar-se dela. Um novo casal entra na história: Nader contrata uma empregada, mas o marido dela não sabe que ela vai trabalhar fora; grávida, ela vai cuidar do pai de Nader, mas sua forte religiosidade a impede de agir sem antes consultar alguém que a oriente. Ela é Razieh (Sareh Bayat) e seu marido é Hodjat (Shahab Hosseini), e eles tem uma filha pequena, Somayeh (Kimia Hosseini), cujo olhar é o espelho dos dramas vividos pelos adultos. A entrada de Razieh na história desencadeia uma sequência de acontecimentos que não dá para contar, para que não se perca nada do precioso roteiro, sabiamente concebido da primeira cena à desconcertante e instigante sequência final.


O que é a verdade? O que se esconde atrás de cada gesto, de cada olhar? Qual o poder da palavra, quando é bem colocada num contexto? Numa roda viva impressionante somos lançados a um remoinho de emoções e de expectativas, dentro de um cenário que, aos poucos, vai se tornando familiar, universal, apesar de todas as diferenças culturais, políticas e religiosas de um país que parece tão distante de nós...Mulheres cobertas pelo xador, desde a infância, regras religiosas rígidas, comportamentos masculinos e femininos delineados e rigorosos, tudo, enfim, o que norteia uma teocracia, está lá, no filme de Farhadi; ele foi capaz de derrubar a barreira da língua e dos costumes para nos introduzir por completo dentro de sua história e seus cenários. E o fez de forma tão magnífica, tão cinematograficamente acertada, que uma chuva de prêmios e indicações ao redor do mundo vem fazendo crescer o interesse pelo filme, a ponto dele precisar ser cauteloso até com seus discursos, para não ser alvo da censura e retaliações por parte do governo iraniano. “A Separação” se transformou num grande sucesso popular no Irã, levando mais de três milhões de espectadores aos cinemas de lá. Esse número deve aumentar muito depois que o filme ganhou o Globo de Ouro de Melhor Filme em Língua Estrangeira ,e após ter sido o grande vitorioso no Festival de Berlim, de onde saiu com o Urso de Ouro de Melhor filme, e ainda teve o elenco praticamente todo premiado (os dois casais dividiram os prêmios de melhor ator e melhor atriz). É quase certa a premiação no Oscar como melhor filme em língua estrangeira, porque dificilmente um outro filme será tão arrebatador quanto este, neste ano. E a indicação para melhor roteiro é o mais evidente sinal de que isso acontecerá.


Se há uma separação que merece ser celebrada, é esta, porque nos permite a aproximação com um cinema que vem de longe, mas que felizmente está ficando cada vez mais perto de nós.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2012

SOBRE CAVALOS E ESPIÕES


Por José Farid Zaine

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A temporada cinematográfica que começa em janeiro é sempre muito boa. O cardápio é variado, eclético, e o mundo se agita para saborear as novidades, tudo em função da noite mágica que se repete todo ano, há 84 anos, em que se dá a entrega do Oscar. Pois bem, do Globo de Ouro, o segundo prêmio em prestígio, às dezenas de listas de melhores e premiações de todo tipo, tudo é feito para ver quem mais se aproxima do Oscar. Não há quem tire da estatueta dourada o status de maior, mais cobiçado e mais esperado filme do ano. No Brasil, as estreias acontecem bem em cima da hora, já que as indicações são anunciadas no dia 24 de janeiro e a entrega do Oscar no dia 26 de fevereiro. Neste ano, uma novidade: não será obrigatório haver dez indicados na categoria principal, a de Melhor Filme, podendo esse número variar entre 5 e 10. Invariavelmente, a crítica internacional, os sites especializados e os cinéfilos do mundo todo já se movimentam em torno dos favoritos. Na semana passada vi uma estreia e uma pre-estreia de dois filmes que devem estar, de alguma forma, entre os indicados em algumas categorias. O primeiro deles, que estreou em todo o País na sexta-feira passada é o novo filme dirigido por Steven Spielberg, “Cavalo de Guerra” (War Horse). A guerra é um tema recorrente na obra de Spielberg. Ela vem misturada com sentimentos e olhares da infância, como aconteceu em “O Império do Sol”, um dos meus favoritos do gênero, ou explosiva como em “O Resgate do Soldado Ryan”, ou ainda adulta e comovente como em “A Lista de Schindler”. Em “Cavalo de Guerra”, a amizade profunda entre um cavalo e um menino que o viu nascer é levada de forma épica, com fotografia arrebatadora, direção de arte magnífica reconstruindo as paisagens dominadas pela guerra de 1914 e a música característica de John Williams, com uma orquestração carregada de cordas para acentuar os momentos mais comoventes e provocar lágrimas. Claro, a música é linda... O cavalo em questão, chamado Joey, vive uma aventura de conquistas e sofrimentos, da salvação da fazenda do dono aos momentos de dor vividos no front. A insanidade e a crueldade da guerra são agora realçadas pelo enfoque dado aos animais, especialmente aos cavalos que puxam tanques e artefatos de guerra, quase sempre até a morte. O estreante Jeremy Irvine é o intérprete de Albert, o garoto que transforma Joey num cavalo chamado de “milagroso”. O outro destaque do elenco é a sempre magnífica Emmily Watson. “Cavalo de Guerra” não é uma obra-prima, mas um filme digno e um divertimento garantido pela assinatura de Spielberg.


Nesta sexta estreia em todo o Brasil outro filme que deve merecer a atenção da Academia, principalmente pelo espetacular elenco masculino, com os maiores nomes do cinema inglês da atualidade, incluindo Gary Oldman, John Hurt, Toby Jones e Colin Firth, que ganhou o Oscar de melhor ator no ano passado interpretando, de forma soberba, o Rei George VI, no vencedor “O Discurso do Rei”. Estou falando de “O Espião que Sabia Demais”, que tem o estranho e intrigante título original de “Tinker Tailor Soldier Spy”. O filme é dominado por Gary Oldman, numa interpretação precisa, milimetricamente construída. O roteiro é baseado no livro homônimo de John Le Carré, especialista em histórias de espionagem na Guerra Fria. “O Espião que Sabia Demais” exige uma atenção constante do espectador: aquele que se distrair demais com as pipocas poderá perder o fio da meada de uma trama complexa, intrincada, mas que faz a delícia dos cinéfilos que curtem o gênero. A ação se passa em 1973, e Gary Oldman encarna o espião aposentado George Smiley, que é novamente recrutado para desvendar um grande mistério: quem, dentre os membros que compõem a cúpula do SIS (Secret Intelligence Service), o serviço secreto britânico tratado no filme como o “Circo”. É certo que um deles é um agente duplo, a serviço também dos soviéticos. “O Espião que sabia Demais” é um ótimo filme dirigido pelo sueco Tomas Alfredson, que ganhou notoriedade pelo estranho mas também excelente “Deixa Ela Entrar”, que ganhou versão anglo-americana dirigida por Matt Reeves e exibida com o nome correto: “Deixe-me Entrar”.


Então, caros leitores e leitoras: boas dicas pra quem curte cinema, mas nas telas grandes das salas confortáveis e tecnicamente bem equipadas: A comovente história de um menino e seu cavalo, que passam por todos os tipos de percalços, incluindo uma Guerra Mundial, e as intrincadas histórias de homens envolvidos em outra guerra, suja e sem canhões, entrem nas filas para ver “Cavalo de Guerra” e “O Espião que Sabia Demais”. E comecem a anotar suas apostas...

terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Na gruta da Praça Toledo Barros, El Monoloco Bar recebe público diversificado

O El Monoloco Bar, famoso “bar da gruta” de Limeira, localizado na Praça Toledo Barros, no Centro, traz novidades para a população em 2012.

O bar que, para muitos, tem nome difícil, está em funcionamento desde 2010.

Segundo Kevin Gustavo Lopez, um dos sócios do estabelecimento, a novidade para 2012 será com o cardápio. “Espetinhos, lanches, novos drinks e petiscos estreiam em nosso cardápio já neste início de ano”.

Atualmente o carro-chefe do El Monoloco Bar é o pastel acompanhado pelo suco de laranja; mais pedido pelos frequentadores. “O preço acessível e a boa qualidade dos produtos e serviços chamam a atenção de nossos clientes”, conta Lopez.

O prédio do bar chama a atenção de muitos, uma vez que a gruta continua sendo um ponto turístico da cidade, com uma arquitetura peculiar.

Música ao vivo
El Monoloco Bar tem a capacidade para receber 60 pessoas. "A casa fica lotada principalmente de quinta a domingo, quando ocorrem shows ao vivo, com repertório variado, de sertanejo à MPB. A intenção é agradar as pessoas que frequentam o local”, friza Lopez. Neste bar, segundo Lopez, não há cobrança de couvert (valor em dinheiro que se acrescenta à conta pela apresentação artística) e consumação.


O público que frequenta o bar é diversificado, são estudantes, trabalhadores, famílias e jovens. “Pela manhã, o ambiente é bem familiar. Os pais se distraem num ambiente agradável, enquanto seus filhos brincam na praça. Já à noite, o espaço tem maior concentração de jovens”, finaliza Lopez.

O funcionamento do El Monoloco Bar acontece todos os dias (de segunda a domingo), das 9h às 22h30, na Praça Toledo Barros, 164, Centro.


Natália Campos – Estagiária de Jornalismo
Secretaria Municipal de Comunicações
Prefeitura de Limeira
(19) 3404-9622

sexta-feira, 6 de janeiro de 2012

AS SETE MARAVILHAS DE 2011 – PARTE II

Por José Farid Zaine

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Quem pensava que o irrequieto cineasta espanhol Pedro Almodóvar iria sossegar, ou cair na mesmice, depois de seus últimos filmes, foi sacudido por uma grata surpresa. Em 2011 ele nos deu mais uma prova de seu talento, de sua capacidade de surpreender o público. Com seus temperos habituais que incluem muito sexo, histórias mirabolantes, reviravoltas e revelações bombásticas, relações familiares pra lá de complicadas, Almodóvar nos brindou no ano que passou com “A Pele Que Habito”, incursão ao gênero terror misturado com ficção científica, mas com sua marca inconfundível . Seu astro predileto Antonio Banderas vem confirmar essa parceria brilhante como o médico Robert Ledgard, que pesquisa a produção de uma nova pele humana, em experiências nada ortodoxas sob o ponto de vista da ética científica. Sabe-se que o médico, cirurgião plástico conceituado, perdeu a mulher precocemente: ela teria sofrido um acidente de carro, teria tido o corpo inteiro mutilado por brutais queimaduras. Contar mais será estragar o prazer de ver essa história desvendada, bem ao estilo já mostrado em tantas obras do diretor, principalmente “Fale com Ela” e “Tudo Sobre Minha Mãe”.

“A Pele que Habito” é um dos melhores lançamentos nos cinemas em 2011, e fará sucesso nas locadoras, com certeza, dada a legião de fãs que Almodóvar tem no Brasil. Um filme fascinante, irresistível.

4

Outro cineasta que nunca decepciona é Clint Eastwood. E apesar de alguns críticos terem torcido o nariz para “Além da Vida” (Hereafter), o filme é um achado, e apenas confirma o talento do diretor. Ele não se repete e não tem medo de ousar. O tema, perigosíssimo, que é a busca da explicação da vida após a morte, é tratado com sutileza e inteligência. A história de um homem com poderes mediúnicos, e que não deseja mais carregar o peso de seu dom, é mostrada sem que haja uma tendência para pregar religiões ou opções de crença. O filme é muito neutro nesse quesito. Mas as histórias que se cruzam são dramáticas e comoventes, e é impossível não refletir sobre o tema após o fim do filme. Ele permanece na mente das pessoas, como um convite à reflexão. Matt Damon e Cècile de France são grandes presenças no elenco, marcado também pelos ótimos garotos gêmeos, Frankie e George MacLaren.

5

Bem, se Lars Von Trier, o cinema Argentino, Almodóvar e Clint Eastwood marcaram pontos em 2011, Woody Allen marcou muitos, muitos pontos com seu apaixonante “Meia-Noite em Paris”. Ele achou a fórmula perfeita para combinar romance, comédia e fantasia nessa história encantadora, rodada num dos mais belos cenários naturais do mundo, Paris. Mas os cenários, fundamentais, com direção de arte impecável, nada valeriam sem um roteiro genial, recheado de diálogos inteligentes e situações inusitadas. Owen Wilson está perfeito como o escritor em busca de sua obra, e que sempre acha que tempos bons são os que já foram vividos...Quem o ajudará a revisar essas impressões é nada mais, nada menos que Marion Cotillard, linda e talentosa. Para ver e rever muitas vezes, essa delícia criada por Woody Allen vai marcar as listas de todos os cinéfilos em 2011.

6

Terrence Malick nos deu, em 2011, seu enigmático, belo e poético “A Árvore da Vida”, cujas semelhanças formais com o belíssimo “Melancolia” já mencionei no artigo da semana passada. Neste espaço já comentei também sobre essa obra perturbadora, marcada pelas presenças de Brad Pitt, Sean Penn e a maravilhosa Jessica Chastain. ”A Árvore da Vida” será lembrado no Oscar, com certeza, pelo menos por algumas indicações inevitáveis.

7

Veio através da Folha de São Paulo uma boa surpresa cinematográfica em 2011: o jornal paulista lançou uma coleção magnífica de filmes europeus, que colocaram obras-primas inquestionáveis ao alcance de um público enorme. Muita gente pode conhecer filmes que marcaram a história do cinema e serão eternas referências de qualidade, de arte cinematográfica sólida e duradoura. Dentre tantos filmes inesquecíveis e importantes da coleção, cito alguns da minha lista de sempre dos melhores de todos os tempos: “Rocco e Seus Irmãos”, “Roma, Cidade Aberta”, “Mamma Roma”, “Cinema Paradiso”, “A Doce Vida” e “Hiroshima, Meu Amor”, só para citar algumas preciosidades.

Que 2012 nos traga outras tantas maravilhas, caros leitores e leitoras, e que elas nos mantenham unidos através da magia do cinema.