sexta-feira, 7 de junho de 2013

SANGUE NOVO NA JORNADA NAS ESTRELAS

Por José Farid Zaine
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“ Espaço: a fronteira final. Estas são as viagens da nave estelar Enterprise... Em sua missão de cinco anos... para explorar novos mundos... para pesquisar novas vidas... novas civilizações... audaciosamente indo onde nenhum homem jamais esteve”... Com esse texto, um narrador  abria solenemente os episódios semanais de “Jornada nas Estrelas”, série surgida nos anos 1960, que quase não passou da primeira temporada nos EUA por falta de audiência. Depois de permanecer até uma terceira temporada uma legião de fãs no mundo todo não deixou que a série ficasse fora da TV. Daí para a franquia no cinema, era um passo inevitável. E depois de mais de uma dezena de filmes de sucesso, chega às salas o segundo exemplar dirigido por J.J. Abrams. Os saudosistas não terão do que reclamar, pois o filme só valoriza a história e as personagens, criando uma imagem moderna, ágil e belíssima para as aventuras da célebre nave e sua simpática tripulação. Mesmo os bem  jovens, que não viram nada do início da saga espacial ou tiveram acesso apenas ao que está disponível na internet, terão motivos de sobra para gostar.   



“Além da escuridão - Star Trek” tem todos os elementos necessários ao sucesso dos blockbusters:  o roteiro é bem amarrado, a história é interessante, os efeitos especiais são abundantes e de primeiríssima qualidade, direção de arte e fotografia são acompanhados de ótima trilha sonora (a cargo de Michael Giacchino)...e apesar do filme não ter sido originalmente filmado em 3D, a transposição para essa tecnologia trouxe um brilho extra para as qualidades visuais. A edição de som também é espetacular.
Não é só pelas qualidades técnicas, contudo, que sobrevive e se segura com dignidade essa nova aventura dirigida pelo competente Abrams, o renovador da série a partir de 2009. O elenco é excelente e traz um vigor novo para personagens tão conhecidas e adoradas pelo público: Chris Pine cai como uma luva para o Capitão Kirk; ele não é apenas o astro bonitão que é usado para chamariz, mas um bom ator de verdade. Zachary Quinto também ficou ótimo como Mr. Spock, firmando-se como o herdeiro de Leonard Nimoy, cuja breve aparição é apenas uma das citações e homenagens que estão por todo o  filme. Zoe Saldana ( a mulher azul de Avatar) também vai bem, para garantir o lado feminino, embora o caso com Spock seja mais cômico que romântico. A introdução de uma nova personagem, vivida pela bela Alice Eve, como Carol, nada acrescenta, mas também não atrapalha. A cena em que ela fica de calcinha e sutiã, sugerindo que vem aí um possível namoro com o Cap. Kirk, foi muito criticada, mas não tem relevância, nem compromete o filme.
Quem rouba a cena, entretanto, é o vilão. Não há aventura do gênero que se segure sem um bom vilão. Não ficaram boas lembranças de Eric Bana, do exemplar de 2009, então J.J.Abrams recorreu ao  excelente ator  britânico Benedict Cumberbatch para compor o terrorista John Harrison. Ele está perfeito, com seu olhar gélido e a voz profunda, além do rosto quase ebúrneo que lhe dá um aspecto meio fantasmagórico, mais do que maquiavélico.
Em “Além da Escuridão- Star Trek” não estamos apenas em uma ficção científica futurista, apesar dos cenários e do ano em que se passa a ação. Na história temos um atentado terrorista, a procura obstinada pelo autor e um misto de violência e desejo de vingança. O ataque a uma biblioteca no centro de Londres não é mera coincidência que tenha semelhança com o 11 de setembro em Nova York, e depois com a caça a Bin Laden ou o sentimento que dominou a nação americana após o trágico acontecimento.
“Star Trek” valoriza o nome de J.J. Abrams, que será o responsável pela direção da continuação de uma das franquias mais bem-sucedidas da história do cinema, “Star  Wars”. Com certeza sua ousadia e seu domínio sobre o ritmo frenético de aventuras espaciais garantiram sua escolha.
Depois de várias pré-estreias por todo o Brasil na semana passada e nesta, o novo “Star Trek” está chegando ao circuito normal para ocupar centenas de salas. O filme tem um início frenético, marcado por imagens e cores impressionantes, além da música poderosa e envolvente. O espectador é “agarrado” nas primeiras sequências e o ritmo permanece durante as mais de duas horas que se sucedem, sendo amenizado pelo humor quase sempre presente em afiados e inteligentes diálogos. Estamos falando, obviamente, de um ótimo divertimento, embora nada mais que o prometido.

O novo filme, assim como o anterior, abandonam o nome “Jornada nas Estrelas” para que se fixe o título “Star Trek”, sem tradução. Nada tira, contudo, a ligação umbilical com a história original, concebida para a TV em uma produção modestíssima, se comparada com a atual versão para a tela grande, que consumiu mais de 180 milhões de dólares. Essa soma, sem dúvida, voltará em dobro brevemente para os cofres dos estúdios. Sucesso quase tão veloz quanto  a Enterprise “entrando em dobra” em busca do espaço, a fronteira final!

sexta-feira, 24 de maio de 2013

OS INFERNOS DE DAN BROWN E KHALED HOSSEINI


Por José Farid Zaine
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Dan Brown e Khaled Hosseini transformaram-se naqueles tipos raros de escritores cujas obras, antes mesmo de serem escritas, causam furor no mercado editorial e deixam “acesos” produtores cinematográficos. Nesta semana chegaram às livrarias do Brasil os dois mais recentes candidatos dos dois autores a permanecerem na lista dos mais vendidos por incontáveis semanas. Já se prevê que as tiragens iniciais para “Inferno”, de Dan Brown, e “O Silêncio das Montanhas”, de Khaled Hosseini, gigantescas para os padrões brasileiros (500.000 exemplares e 300.000, respectivamente) sejam rapidamente consumidas.
O primeiro capítulo de “Inferno” está disponível na internet. Impossível ler e não querer continuar. Brown tem a capacidade de “amarrar” o leitor já nos primeiros parágrafos, para não dizer nas primeiras páginas. Essa capacidade de contar uma história a partir de um ponto de extremo interesse e só fazer com que esse interesse se mantenha e aumente por centenas de páginas, não é para muitos...E foi assim que “O Código Da Vinci” se transformou num monumental best-seller internacional, ao mesmo tempo em que milhões de leitores ficaram aguardando o lançamento do filme baseado no romance. Desde a escalação do elenco, escolha de diretor e técnicos, tudo gerou notícia e expectativa. Talvez por isso mesmo o filme de Ron Howard, com Tom Hanks encarnando Robert Langdom com um horrendo penteado, e Audrey Tautou interpretando Sophie Neveu, não tenha agradado nem feito o furor que se esperava, muito longe do que o que fora causado pelo livro. O mesmo aconteceu com “Anjos e Demônios”, sucesso de vendas nas livrarias e uma certa decepção com a adaptação para o cinema, também dirigida por Ron Howard.



Que destino terá nas telas o “Inferno” concebido por Dan Brown, e que nos traz o professor de Simbologia Robert Langdom numa história inusitada que faz referência a outro inferno, muito mais famoso, o de Dante ? Quantos novos leitores serão atraídos? E o cinema, fará jus desta vez às intrincadas aventuras do pesquisador? Enquanto não temos como conferir este “Inferno” nas telas, fiquemos com uma revisão das principais adaptações dos sucessos do autor, disponíveis em DVD.
E Khaled Hosseini? O inferno dele seria o próprio país natal, o Afeganistão, com todo o sofrimento causado pela guerra e pelo terrorismo. O extraordinário sucesso de “O Caçador de Pipas” conduziu milhões de leitores para uma viagem emocionante a um país belo e exótico, dilacerado por bombas e invasões. Uma história belíssima e muito bem contada só poderia resultar num grande filme, mas não foi o que aconteceu. Não que “O Caçador de Pipas”, dirigido por Mark Forster seja ruim, longe disso. É um bom filme, que se vê com muito interesse, embora a inevitável comparação com o romance seja desfavorável ao que se vê no cinema. Hora de rever a obra em DVD, enquanto lemos “O Silêncio das Montanhas”, belo título do novo livro e que deverá render outro filme para muito breve.
Qual será a imagem que um filme baseado no novo livro de Dan Brown fixará em nossas mentes? Será semelhante àquela que nossa imaginação criar pela leitura inevitável do sucesso que se anuncia? Um exercício interessante será buscarmos, na nossa memória cinematográfica, a visão do cinema sobre o inferno, não necessariamente aquele concebido por Dante em “A Divina Comédia”, ou por John Milton, no seu “Paraíso Perdido”. Além de labaredas e fornalhas queimando os pecadores pela eternidade, o inferno bem poderia ser considerado algo como a terra minada do Afeganistão de Hosseini, mutilando corpos, como vimos em “A Caminho de Kandahar” ou como os campos de concentração de “A Lista de Schindler” e tantos outros tenebrosos registros sobre o Holocausto.

Fiquemos, nesta semana, com a leitura de “Inferno”, de Dan Brown, e “O Silêncio das Montanhas”, de Khaled Hosseini, e anteciparemos, através da imaginação, como serão os blockbusters gerados por eles.

sexta-feira, 17 de maio de 2013

Terror e comédia...é o que temos para hoje!


Por José Farid Zaine
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“O Último Exorcismo – Parte 2” já deixa claro que este não é o último, porque evidencia a vinda da Parte III, Parte IV, etc...Eu gosto de filmes de terror, filmes de suspense, mas os que não se valem de sustos fáceis, sequências sanguinolentas e monstros explícitos, gosmentos...O cinema está cheio de exemplos de magníficos filmes capazes de nos encher de pavor e angústia, muitas vezes sem mesmo usar efeitos especiais exagerados, como nas obras-primas “O Bebê de Rosemary”, de Roman Polanski, e “Os Inocentes”, de Jack Clayton. Quando a coisa é muito “carnavalesca”, muitas vezes o humor resolve as situações, como em “Arraste-me para o Inferno”, ótimo exemplar do gênero dirigido com competência por Sam Raimi.
Quem estava à espera de um filme assustador, desses que nos acompanham depois de terminada a sessão, pode esquecer. “O Último Exorcismo – Parte 2” abandona o que o primeiro tinha de mais original, sua pretensão de parecer documental, um pouco à moda de “A Bruxa de Blair”. Mas aqui a história se volta para a pura e recatada adolescente Nell (Ashley Bell), vinda de uma terrível experiência de possessão demoníaca. Ela surge agora em uma outra cidade, no interior, tentando tocar a sua vida. Não se lembra muito do que lhe aconteceu antes, arruma um emprego num Hotel, e passa a morar com outras meninas. Essas fofocam  abertamente sobre suas experiências sexuais.



Em “O Último Exorcismo – Parte 2” o  sexo, aliás, passa a falar muito alto na vida de Nell, ela até arruma um namorado, Chris, e chega a se excitar ouvindo um casal transando, com o ouvido colado à parede do quarto do hotel que está arrumando...E como para um demônio que se preze distância não é problema, o esperto “Abalam” irá encontrar a moça. Agora ele vem ainda mais sedento, e deixa claro que está interessado em possuir o corpo dela, pelo qual ficou apaixonado... Com um resumo desses, é de se imaginar que o filme seja totalmente ridículo. É quase. Não fosse por algumas sequências interessantes (como a que faz uma clara citação a “Os Pássaros”, de Hitchcock) e pela interpretação convincente de Ashley Bell, não daria pra engolir este que não será o último exorcismo, com certeza.

ESTREIAS
Estas são algumas estreias de hoje nos cinemas brasileiros:
 A Expedição Kon-Tiki  (Kon-Tiki, Reino Unido/Noruega/Dinamarca, 2012), de Joachim Rønning e Espen Sandberg . Trata-se de uma aventura baseada na vida do explorador Thor Heyerdal, que percorreu milhas no Oceano Pacífico em uma balsa. O filme foi finalista do Oscar 2013, representando a Noruega, mas perdeu para “Amor”, de Michael Haneke.

Finalmente 18! (21 and Over, EUA, 2012), de Jon Lucas e Scott Moore . Mais uma comédia americana destinada ao público adolescente, que certamente irá muito bem nas bilheterias.

Giovanni Improtta (Brasil, 2011), que José Wilker interpreta e dirige. A personagem criada por Agnaldo Silva para a novela “A Senhora do Destino”, e que fez grande sucesso, ganha agora vida própria nesta nova comédia brasileira que tem tudo para se tornar muito popular.



O massacre da serra elétrica 3D – A lenda continua (EUA, Texas Chainsaw 3D, 2013), de John Luessenhop . Para quem esperava um terror sanguinolento, este é o caso. Mais uma edição da série, agora com o sangue jorrando em 3D, deve agradar pelos exageros assumidos e temperados com muito humor negro!

...e enquanto isso, na TV, hoje temos o final de “Salve Jorge”, a novela de Glória Perez que começou muito mal no Ibope, mas que chegou a marcar significativos recordes de audiência nas últimas semanas. A autora é extremamente experiente, e foi capaz de mexer em sua trama rocambolesca, conquistando o interesse do público. E fez de Giovanna Antonelli a grande personagem da trama, como a bela e implacável delegada Helô. Terror e comédia também habitaram nossas casas via “Salve Jorge”. Istambul foi aqui por mais de seis meses.

sexta-feira, 10 de maio de 2013

STREETS OF BRASILIA

Por José Farid Zaine
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É difícil passar  pelas ruas de Brasília sem se lembrar da ditadura militar, que durou de 1964 a 1985. A cidade, oficialmente nascida em 1960, mal respirara os ares da democracia no planalto central, quando se transformou em sede de sucessivos governos militares, tendo sua imagem colada à ditadura, à falta de liberdade de expressão, aos atos institucionais que amordaçaram o cidadão brasileiro. Uma censura estúpida, contudo, ao invés de calar nossos artistas, estimulou a criação e, como em nenhum outro período, a inquietação, a revolta e a indignação produziram  um enorme volume de produções culturais, artísticas e intelectuais que marcariam para sempre a nossa História.



Quando um garoto nascido no Rio, no mesmo ano da inauguração  de Brasília, mudou-se para a nova capital aos 13 anos,  a ditadura militar recrudescia, assim como o desejo de mudar essa situação incendiava o coração dos jovens. Ele se chamava Renato Manfredini, tinha uma sólida família, podia estudar...Quando teve uma doença óssea e precisou ficar cerca de seis meses numa cama, preencheu sua mente e seu coração com música, muita música. Ao se recuperar, seu destino estava traçado . A cidade era Brasília, era preciso fazer alguma coisa. Era preciso arrancar vida daquela arquitetura que o mundo todo admirava e celebrava. A cidade era seca, tal qual o ar  que a envolvia. Então eles vieram, os garotos com suas guitarras, com seus versos inflamados que traduziam tudo o que uma geração queria dizer. Intérprete dessa geração, Renato criou canções explosivas, românticas, políticas, verdadeiras.

O filme de Antonio Carlos Fontoura, “Somos tão jovens”, que estreou na semana passada em todo o País, nos leva a Brasília dos anos 1980, quando Renato e seus amigos, primeiramente como Aborto Elétrico, depois como Legião Urbana, mudaram a trilha sonora da Capital e a levaram para todos os cantos. Fontoura poderia ficar muito mais livre, levado mais tempo pela música da Legião do que pelo roteiro esquemático de Marcos Bernstein. Contudo, ele consegue nos fazer mergulhar no tempo e na cidade, mais por nos permitir cantar todas as músicas do que por nos fazer matar a curiosidade sobre a vida do cantor antes da fama. O interesse por Renato, a pessoa, vem do seu intérprete, o ator Thiago Mendonça. Ele manda bem  como o irrequieto, dramático e arrogante compositor, é bem parecido com ele, embora mais bonito. A princípio, a atuação poderia parecer esquemática demais, no caso de um espectador não ter visto ou não ter se lembrado das aparições de Renato, facilmente encontradas na internet. Entretanto, se o esquematismo vale para Thiago, não funciona para os outros. De seus jovens companheiros de elenco, salva-se a intérprete de Aninha, Laila Zaid. A amiga de Renato ganha grande espaço na trama, a ponto de mascarar o comportamento do cantor, sendo que seu envolvimento com drogas e sua homossexualidade ocupam um plano discreto e delicado demais. Enfim, uma obra que se diz “filme de ficção baseado na vida de Renato Russo”, pode criar personagens e maquiar algumas sem se comprometer.



“Somos tão jovens” não é um grande filme, mas é interessante, principalmente pelo seu clima nostálgico e pelas canções que permanecem vivas e atuais, e faz com que a plateia deseje cantá-las, como se estivesse num show da Legião. E, apesar do tom nostálgico, é um filme alegre. Quem esperava uma biografia completa do cantor e compositor, cobrindo toda sua vida e sua carreira, até o fim tão triste, ficará decepcionado. Há boatos de um segundo filme, completando a biografia. Essa continuação, se acontecer, não poderá omitir o sucesso imenso no Brasil e no mundo das canções de Renato, nem a sua prolongada e dolorosa enfermidade, num tempo em que a Aids era sentença de morte, essa morte iminente que ele sentia e que fez nascer a lancinante “A Via Láctea”, do último disco, “A Tempestade”.

Sim, impossível andar pelas ruas de Brasília sem se lembrar de Renato Russo, sem cantar algum sucesso da Legião Urbana. “Somos tão Jovens” é bem isso: um bilhete para percorrermos a cidade e compreendê-la como berço de um já histórico movimento musical. Pena que nos lembremos também do fim trágico de uma vida tão produtiva. Bruce Springsteen, se passasse pela nossa capital ouvindo a voz do trovador cantando “Por Enquanto”, talvez trocasse sua comovente “Streets of Philadelphia” por “Streets of Brasilia”...

sexta-feira, 3 de maio de 2013

Homem de Ferro...mas não muito!


Por José farid Zaine
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A primeira sensação que temos, com as primeiras sequências de “Homem de Ferro 3”, que estreou na semana passada em 1223 ( recorde absoluto, superando “Amanhecer –Parte 2”) salas brasileiras, é a de que já vimos este filme. O trailer, bombardeado sobre os espectadores de nossos cinemas há pelo menos um ano, é um dos responsáveis por essa sensação... Contudo, e ainda bem, logo nos deparamos com um divertimento de primeira, muito bem feito, envolvente, ágil, e parecendo justificar o seu orçamento milionário.
“Homem de Ferro 3” é o melhor da série, creditando-se essa qualidade toda principalmente à direção de Shane Black. Robert Downey Jr. carrega o filme, como sempre, mas neste terceiro exemplar ele parece muito mais à vontade, explorando a ironia, o humor e a fragilidade humana. Não por acaso, ele passa muito tempo sem seu famosíssimo traje, e seu lado humano tem destaque. São divertidos seus ataques de pânico e seus diálogos afiados, produtos de um roteiro bem costurado. É interessante ver o super-heroi despojado, sofrendo e apanhando como um mortal comum, já que o que lhe dá poderes é a alta tecnologia do seu traje. Os trajes, por sua vez, ganham vida e garantem algumas das mais movimentadas cenas.



Há sequências espetaculares em “Homem de Ferro 3”, como a destruição da casa de Tony Stark, e o salvamento de 11 pessoas ejetadas do avião presidencial durante um ataque dos vilões.
O que se espera de um blockbuster exaustivamente anunciado e que consumiu milhões de dólares em sua produção? Diversão, naturalmente. E nisso o filme não decepciona, cumprindo  muito bem a sua função.
E vejam, quem, obviamente, é a companhia digamos, oficial, de Robert Downey Jr: é a loura mais comentada da semana no quesito “celebridade”, Gwyneth Paltrow, a intérprete de Pepper Potts. Ela conseguiu a proeza de ser eleita a mais bela do mundo pela revista People, e a mais odiada personalidade pela revista Star. Esse antagonismo estranho veio de duas coisas bem conhecidas sobre a atriz premiada com o Oscar em “Shakespeare Apaixonado”: sua decantada beleza e seu comentado “gênio forte”...
Outra companhia para Downey Jr. é a de Guy Pierce, como o vilão do momento, o cientista Aldrich Killian.
Importa muito a história, quando se trata de mais uma aventura de um super-heroi? Nem tanto. Importa mais a forma com que essa aventura será saboreada, quantos efeitos visuais inovadores surgirão, e quanto o mocinho e a mocinha deverão sofrer até que os vilões sejam devidamente reduzidos a pó. Isso vale desde que o cinema foi criado.
Em “Homem de Ferro 3” há que se fazer justiça à escalação do elenco, excelente. Além dos três principais, temos a presença de Don Cheadle, ótimo ator consagrado pelo belo e contundente “Hotel Ruanda”, pelo qual foi indicado ao Oscar de melhor ator. E como o estranho e interessantíssimo Mandarim, nada mais, nada menos que Ben Kingsley, irreconhecível, mas sempre um grande ator. Sim, Kingsley é o intérprete de Gandhi, papel que lhe deu o Oscar de melhor ator no filme homônimo dirigido por Richard Attenborough , e que ganhou também como Melhor Filme (1983).
Bem, já que temos um programa divertido pela frente, vamos curtir essa aventura  legal, prova de que existe vida inteligente no tratamento aos super-herois. E para aproveitá-la inteiramente, procuremos uma boa sala, com projeção em 3D e som muito, muito bom. Aí dá até pra encarar o cheiro de manteiga das pipocas e os adolescentes barulhentos...

sexta-feira, 26 de abril de 2013

LÁGRIMA E ESQUECIMENTO



Por José Farid Zaine
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A LÁGRIMA

No final dos anos 1960, um escritor que tentava há tempos o sucesso, alcançou-o de uma forma que talvez nem ele esperasse...”Rosinha, Minha Canoa”, lançado em 1962,  foi uma febre e abriu-lhe as portas para a vitória no difícil mercado editorial brasileiro. Falo de José Mauro de Vasconcelos, que já havia publicado  antes”Banana Brava”, “Barro Blanco”, “Arara Vermelha”, “Doidão” e “Confissões de Frei Abóbora”, entre outros . Se “Rosinha” foi bem nas vendas, o estouro veio com “O Meu Pé de Laranja Lima”, em 1968, sucesso instantâneo e que se transformou num dos livros brasileiros mais lidos e traduzidos de todos os tempos.
A história da infância de um menino, Zezé, que tinha “o diabo no corpo”, por conta de suas incansáveis travessuras, que apanhava do pai bêbado a quem tentava ajudar, que fez amizade com um homem bem adulto, a quem chamava “Portuga”, que conversava com um pé de laranja-lima no quintal de sua casa pobre, comoveu milhares de leitores e, como não poderia deixar de ser,no caso de ter se transformado num best-seller, foi logo adaptado para o cinema e para a TV. Em 1970 surgiu a primeira versão para o cinema, dirigida por Aurélio Teixeira. Virou novela na extinta TV Tupi, também em 1970, e recebeu novas adaptações para folhetins da Bandeirantes em 1980 e 1998. A novela da Tupi , escrita por Ivani Ribeiro, tinha Eva Wilma e Nicette Bruno no elenco. Dionísio Azevedo estava na versão de 1980 da Bandeirantes, e Gianfrancesco Guarnieri na de 1998, adaptada por Ana Maria Moretzsohn.
A nova versão para a tela grande  concluída  em 2012 e que chegou aos cinemas neste abril de 2013 gerou muitas expectativas positivas. Não era para menos: o roteiro foi escrito por Marcos Bernstein, que dirige o filme e  que fez o roteiro do maravilhoso “Central do Brasil”; o elenco contou com José de Abreu, experiente ator vindo do recente megasucesso da TV “Avenida Brasil”, e que aqui aparece com um estranho sotaque que vai e volta;  a figura principal do romance, o menino Zezé, foi interpretado pelo filho do cantor Leonardo, o talentoso e simpático garoto João Guilherme Ávila;  o popular ator da novela “Salve Jorge” e outros sucessos da Globo, Caco Ciocler, fez Zezé adulto...some-se a isso tudo uma ótima fotografia, uma linda trilha sonora, e teremos um excelente filme, certo? Errado. O atual “Meu Pé de Laranja Lima” é como aqueles bolos com ótimos ingredientes, mas que “desanda” ao se preparar a receita, na linguagem das donas de casa. Dá pra comer esse bolo, mas falta um recheio mais saboroso. Adoraria dizer que a obra de Marcos Bernstein faz jus ao seu talento,  é um filme maravilhoso, que fará bonito no mercado interno e internacional, mas não dá para tanto. Mas quem sabe caia no gosto do público e arraste multidões ao cinema, o que parece atualmente acontecer apenas com comédias do tipo “Vai que Dá Certo”...



O ESQUECIMENTO
Não foi só o cinema brasileiro que nos deu um daqueles filmes cheios de boas intenções, como este “Meu Pé de Laranja Lima”, nas últimas semanas. Veio dos EUA mais um blockbuster estrelado por Tom Cruise e Olga Kurylenko , dirigido por Joseph Kosinski, o longa de ficção científica “OBLIVION”, outro exemplar de um gênero difícil e que jamais parece esgotar o tema da Terra destruída e dominada por alienígenas. “OBLIVION”, que significa “esquecimento”, no sentido de apagamento total da memória original de um indivíduo, tem as qualidades do gênero: direção de arte inovadora e competente, música apropriada, fotografia perfeita, efeitos visuais e sonoros de ótima qualidade, o onipresente Morgan Freeman no elenco... entretanto um roteiro com surpresas e reviravoltas nem sempre interessantes conduz o espectador até o final, mas só até aí. Depois é o esquecimento.
Fiquemos assim: num período de fracos lançamentos no cinema dá para gastar uma lágrima com “Meu Pé de Laranja Lima” e tentar acreditar que Tom Cruise é o salvador do Planeta.

sexta-feira, 12 de abril de 2013

CINEMA PARA AMOLECER CORAÇÕES

Por José Farid Zaine
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Em tempos de discussões acirradas sobre a conveniência da permanência do Deputado Marco Feliciano como Presidente da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, em virtude de suas desastrosas declarações que tem provocado espanto e indignação em todo o País, voltemo-nos um pouco para os filmes que tratam de preconceitos raciais e sexuais, para vermos que o cinema nunca abandonou esses temas, e que eles são bem antigos...Desde que existe a civilização é impossível relatar o quanto seres humanos, sempre iguais desde a Criação, sofreram e morreram por serem diferentes da maioria, ou por não se submeterem a regras absurdas de sociedades ou religiões que desejam manipular os cidadãos, tirando-lhes a liberdade de escolha e de expressão.
Vejamos o caso do preconceito racial. Olhando hoje para os Estados Unidos, onde um negro é Presidente da República, e por consequência desse cargo ele pode ser considerado o homem mais poderoso do Planeta, e voltemo-nos  para um passado nem tão remoto, nesse mesmo país,  onde negros simplesmente eram considerados seres menores, obrigados a viver sob regras desumanamente segregadoras, que os transformavam em párias da sociedade. Foram necessárias décadas de sofrimento para que o “sonho” de Martin Luther King se materializasse e hoje um extraordinário avanço se transformasse em realidade. A luz amarela, contudo, precisa ficar sempre acesa, para que qualquer ameaça de retrocesso seja imediatamente rechaçada. Comparemos o cenário de “Imitação da Vida” (Imitation of Life), lindo melodrama de Douglas Sirk, com a atualidade. Nesse filme, a história de uma mulher branca (Lana Turner) que faz sucesso ajudada por sua criada negra (Juanita Moore), o lado mais cruel do racismo é mostrado: a filha, branca, renega a própria mãe, negra. A cena em que Mahalia Jackson canta um spiritual no velório da mãe negra é emblemática e comovente, e é capaz de derreter o mais gelado dos corações... Criadas negras quase escravizadas foram retratadas no recente “Histórias Cruzadas” (The Help), com um elenco fabuloso de grandes atrizes negras como Viola Davis, indicada ao Oscar de melhor atriz  e Octavia Spencer, vencedora como atriz coadjuvante.
Uma revisão necessária vale também para  o belíssimo “O Sol é Para Todos” (To Kill a Mockinbird), de Robert Mulligan, de 1962, em que uma mulher branca acusa um homem negro de estupro, sendo ele claramente inocente, mas antecipadamente condenado por uma sociedade medíocre e racista, numa pequena cidade sulista dos EUA nos anos da depressão. Gregory Peck, magnífico como o advogado que enfrenta tudo para defender o negro, ganhou o Oscar de melhor ator, merecidíssimo.
Mas não apenas o sofrimento dos negros, por conta da cor da pele, deu tema a grandes filmes. Spielberg, que fez  “A Cor Púrpura” e lançou Whoopi Goldberg ao estrelado, debruçou-se sobre o holocausto e daí tirou um drama cheio do horror da guerra e da perseguição aos judeus, mas também cheio de humanidade e solidariedade: “A Lista de Schindler”, vencedor de 7 Oscars. Incontáveis obras da sétima arte cumpriram o papel do cinema de registrar um dos mais dolorosos períodos da História da Humanidade, em que a mente diabólica de Adolf Hitler, com seu monstruoso propósito de limpeza étnica, escreveu a mais repugnante página dessa História.

AMORES CLANDESTINOS
E os homossexuais? Vítimas de leis cruéis e políticas hipócritas, estão vendo agora em todo o mundo acontecerem mudanças positivas em função de suas antigas reivindicações, que vem retirando as relações homoafetivas dos guetos e da clandestinidade. O chamado “casamento gay”, que dá às pessoas do mesmo sexo o direito à união civil, já é uma realidade em muitos países do mundo. Os que não se abriram a essa discussão terão de fazê-lo, é inevitável. Porque as sociedades, através dos tempos, precisaram sempre se incomodar com a escolha sexual das pessoas? Filmes magníficos também acrescentaram, se não foram todas as respostas, elementos fundamentais para a reflexão do público. Basta ver (ou rever) “Milk”, sobre a militância de um político gay, com a premiada atuação de Sean Penn (Oscar de melhor ator), o belo e sofrido caso de amor entre dois cowboys em “O Segredo de Brokeback Mountain”, dirigido por Ang Lee, ou o clássico de William Wyler ( o mesmo diretor de Ben-Hur, em que uma atração homossexual é fortemente sugerida entre as personagens viris de Ben-Hur e Messala) , o contundente drama “Infâmia” (The Children´s Hour), com as soberbas interpretações de Audrey Hepburn e Shirley MacLaine.



Busquemos por esses filmes nas locadoras, nas lojas, nos sites de vendas de filmes. Veremos que, diante de obras maravilhosas como essas, até os cérebros mais emparedados e os corações mais duros tenderão a amolecer...