sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

GATOS E GAROTOS


Por José Farid Zaine

farid.cultura@uol.com.br

Twitter: @faridzaine

Facebook: Farid Zaine



Quem pensa que vai ao cinema ver “O Gato de Botas” (Puss in Boots) e assistir a uma adaptação do célebre conto de Charles Perrault, pode esquecer. Do original, a personagem mantém apenas as botas e a extrema esperteza. Esse Gato que protagoniza a animação que entrou em cartaz nos cinemas brasileiros na semana passada, é oriundo de Shrek, onde era coadjuvante. Aqui ele vive uma aventura própria, tecnicamente irrepreensível nestes tempos de 3D. Vozes célebres também dão credibilidade e charme ao filme, sendo o gato dublado por Antonio Banderas e a gata Kitty Pata-Mansa por Salma Hayek. A personagem principal faz várias referências ao filme “A Marca do Zorro”, estrelado por Banderas. O diretor é Chris Miller, o mesmo de Shrek Terceiro. A versão brasileira não tem o charme das vozes de Antonio Banderas e Salma Hayek.


“O Gato de Botas”, além de Banderas e Hayek, foi dotado de uma latinidade acentuada pela trilha sonora. Já a história é meio sem graça e arrastada, fora alguns momentos de aventura ligeira, com as tradicionais perseguições, lutas de espadas, fugas alucinadas. O visual é sempre magnífico, mas uma animação, mesmo a que tenha tratamento tecnológico sofisticado e efeitos especiais de última geração, não se sustenta apenas por essas qualidades. Além do mais, as crianças atentas às histórias que lhes são contadas, podem ficar confusas, primeiro com a história do próprio “Gato de Botas”, depois pela mistura meio atrapalhada de “João e o Pé de Feijão” e “A Galinha (ou Gansa) dos Ovos de Ouro”. Os fãs de Shrek, contudo, ficarão felizes em ver o Gato tendo sua própria aventura, e não reclamarão de nada...


Fim de ano e férias são sinônimos de desenhos animados nos cinemas e nas locadoras. É preciso achar atrações para o público infantil que deixa as salas de aula. O atrativo adicional das cópias em 3D também ajuda a consolidar gordas bilheterias. Nessa linha estreou também o competente e gracioso Happy Feet 2, de origem australiana, dirigido por George Miller. Esses são os mais recentes sucessos garantidos, antes da chegada de “A Era do Gelo 4” em 2012, confirmação da espetacular ascensão do nosso diretor Carlos Saldanha em Hollywood, depois dos primeiros três filmes da série e da consagração de “Rio”.


E para quem deseja ir ao cinema para ver um filme sobre crianças, está em cartaz em São Paulo “O Garoto da Bicicleta” (Le Gamin Au Vèlo). Nada a ver com os temas das animações de férias e final de ano. Aqui a história é dramática, sobre um menino abandonado pelo pai, vivido por Jérémie Renier, e que não se conforma com essa situação. Ele encontra na cabeleireira Samantha, interpretada por Cécile de France, um apoio fundamental na busca do pai e nos rumos de sua vida. O garoto, rebelde, se envolverá com um jovem traficante, passando por amargas experiências que o ajudarão a ficar de olhos abertos diante da vida e suas armações.


“O Garoto da Bicicleta” tem sido celebrado como um dos melhores filmes do ano pelos críticos brasileiros. É sentimental e comovente, mas marcado pela dureza da vida real, mostrada sem retoques, nem artifícios para conduzir a emoções fáceis. Isso é característica dos diretores, os belgas Jean-Pierre e Luc Dardenne, que surpreenderam o mundo cinematográfico principalmente com “A Criança”, de 2005, vencedor da Palma de Ouro em Cannes.


No elenco de “O Garoto da Bicicleta” o destaque maior é para o menino Thomas Doret, que interpreta Cyrill, o garoto do título. Ele é sensacional e já aparece como uma grande promessa do cinema europeu, dado ao seu talento precoce que, espera-se, venha a se confirmar na continuidade da carreira. O outro destaque é para a excelente Cécile de France, sempre bela e ótima atriz. Para quem não se lembra dela, vale recordar que é a atriz do belíssimo filme de Clint Eastwood, “Além da Vida” (Hereafter), que pode ser visto no DVD ou Blu-Ray.



Bem, é isso: gatos espertos e garotos abandonados são ingredientes comuns nos cardápios cinematográficos de todo ano. Nos casos citados, até que temos bons pratos.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2011

UM DIA COM ANNE HATHAWAY


Por José Farid Zaine

farid.cultura@uol.com.br

Twitter: @faridzaine


Facebook: Farid Zaine



Ela faz a proeza de estar mais linda a cada filme, mesmo que queiram que a personagem pareça meio desleixada, desarrumada. Anne Hathaway é a estrela do momento, e sua presença é garantia de altas bilheterias. Ela está com tudo. E merece. É ótima atriz. Entrou em cartaz na semana passada, em todo o Brasil, o novo filme dela, “UM DIA” (One Day), um drama romântico conduzido com leveza por Lone Sherfig, a mesma diretora dinamarquesa do elegante “Educação”, que lançou ao sucesso a jovem atriz Carey Mulligan.


“Um Dia” não é propriamente original. A fórmula é a mesma de “Tudo Bem no Ano Que Vem” : um casal se encontra, por muitos anos, sempre na mesma data. Aqui o caso é uma noite de 15 de julho, após a formatura, em que os amigos, Emma e Dexter, ficam juntos. O ano é de 1988. Após esse primeiro encontro vamos ver o que está acontecendo na vida dos dois, todos os dias 15 de julho de vinte anos depois.


Dexter se transforma num apresentador de um programa de TV ruim, mas se estabelece financeiramente. Emma vira garçonete de um restaurante mexicano, enquanto acalenta o sonho de ser escritora. Os caminhos dos dois seguirão por trilhas diferentes, marcadas por derrotas, sofrimentos, vitórias, encontros e desencontros. Todos os anos eles se encontrarão, fisicamente ou não, a despeito de tudo o que acontece em suas vidas, como se uma força maior jamais deixasse que seus caminhos se cruzassem sempre.


“Um dia” tem momentos emocionantes, comoventes, sem ser piegas nem apelativo. Ás vezes é moroso, e o ritmo conferido pela diretora o deixa um pouco arrastado .Nada que prejudique o prazer de ver essa história de amor moderna, embalada por boa música e tecnicamente muito bem cuidada em todos os detalhes, principalmente na caracterização de cada ano, cujas diferenças são apropriadamente marcadas pelos figurinos, maquiagem e penteados. O filme tem o roteiro baseado no livro homônimo de David Nicholls.


Anne Hathaway, vivendo Emma, combinou bem com seu par, Jim Sturgess, o intérprete de Dexter. Sturgess, de carreira ascendente, que fez sucesso em “Across the Universe”, pode ser visto no último filme de Peter Weir, “Caminho da Liberdade”.



Dentre os coadjuvantes de “Um Dia”, todos bons, destaque para a excepcional Patricia Clarkson, como a mãe de Dexter. Ela dá um show e rouba a cena. Para quem não a conhece muito, seria bom ver o original, engraçado e inteligente “Tudo Pode Dar Certo”, de Woody Allen, onde ela está espetacular.


E para quem não se contenta com apenas “Um Dia”, e não pensa em ir ao cinema para esse encontro com Anne Hathaway, então o negócio é vasculhar as locadoras onde há muitos e bons filmes com ela. Ela é a mulher de Jake Gyllenhaal no magnífico “O Segredo de Brokeback Mountain”, mas não foi tão celebrada quanto Michelle Williams, que fazia a esposa de Ennis Del Mar, interpretação sublime de Heath Ledger. Com Jake, Anne voltou a fazer par, embora totalmente diferente, em “Amor e Outras Drogas”, onde os dois protagonizaram belas e tórridas cenas de sexo. E quem liga “O Diabo Veste Prada” apenas à diabólica e loura personagem de Meryl Streep, é bom revisitar esse filme e notar a moreninha, a própria Anne. Em “O Casamento de Rachel” ela brilhou totalmente e recebeu uma indicação ao Oscar de atriz coadjuvante.


Enfim, há muito mais de Anne Hathaway e vai muito além de “Um Dia”. Certamente um fim de semana inteiro com ela nos DVDs encherá a casa de graça, beleza, ousadia e sensualidade.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

SELTON MELLO CONTRA OS VAMPIROS

Por José Farid Zaine

farid.cultura@uol.com.br

Twitter: @faridzaine

Facebook: Farid Zaine


“Amanhecer – Parte 1”, o início do fim da saga “Crepúsculo”,dirigido por Bill Condon, está abarrotando os cinemas do Brasil com legiões de jovens fãs do casal Bella Swan e Edward Cullen, interpretados por Kristen Stewart e Robert Pattinson. O encanto provocado pelos livros de Stephenie Meyers em multidões de leitores por todo o mundo atingiu ainda maiores proporções nas telas. Fascinados por terror, os jovens encontraram em “Amanhecer”, mais do que nos outros filmes anteriores, elementos para se apaixonarem ainda mais: o terror persiste, as lutas entre lobos e vampiros estão lá...e , bem à mostra, os músculos de Taylor Lautner. Mas estão também agora tórridas cenas de sexo entre os dois protagonistas, um casal que na maior parte das cenas de todos os filmes da saga, não consegue química, liga. Nesta primeira parte do final da saga, entretanto, eles ficam um pouco mais interessantes, por conta do casamento – que tem cenas plasticamente lindas – e da gravidez de Bella, que faz lembrar “O Bebê de Rosemary” sem jamais, claro, ter um mínimo de seu suspense e de sua sufocante tensão.


O diretor deu ao casal uma lua de mel invejável num lugar paradisíaco, que logo se reconhece como Rio de Janeiro pelo Cristo Redentor e os arcos da Lapa. A tentativa de exibir o jeito carioca de ser, com o carnaval e a sensualidade solta pelas ruas ficou rigorosamente ridícula. Como conferir a um ignorante total a trilha sonora de um filme que tem passagem pelo Brasil, sem que o autor tivesse a mínima noção de música popular brasileira? Como chamar aquilo que ele coloca nas cenas do carnaval, um samba americano com toques latinos? Ah, claro, os caseiros do magnífico lugar para o romance de Bella e Edward são brasileiros, falam português, são feios e com cara de feiticeiros, ele quase um bruxo velho e ela uma índia com poderes sobrenaturais. Clichês horrorosos para dar uma imagem feia e distorcida da cultura brasileira. Já Robert Pattinson, o vampirinho branquelo de olhos vermelhos, fala um portunhol risível, absolutamente desastroso. Enfim, é preciso ver “Amanhecer” para entender o que buscam nossos jovens no cinema, esses mesmos que também lotam as sessões de “Pânico”, “Premonição”, “Jogos Mortais” e derivados.


Onde não falta cultura brasileira é no filme de Selton Mello, estrelado por ele, “O Palhaço”. Selton é um grande ator e o filme é muito bonito. Tem ótima fotografia, direção de arte apropriada, trilha sonora linda e um elenco correto. Paulo José faz o pai de Selton, e os dois são palhaços em um circo mambembe. Em suas andanças pelo interior de Minas Gerais, numa viagem interminável, o circo vai, aos trancos e barrancos sobrevivendo, levando arte e alegria ao povo. Mas o que faria de Pangaré, o palhaço vivido por Selton Mello, um palhaço triste? A resposta não será muito convincente. Falta uma certa consistência ao roteiro, uma verdade. Em muitos momentos o filme soa falso, forçado. Há sequências muito bonitas e bem elaboradas, claro, mas sempre parece faltar alguma coisa. No elenco o destaque é mesmo para Selton, um ator maravilhoso. Talvez tivesse faltado a ele também um olhar de fora, já que ele mesmo é o diretor, e um ator precisa de direção.


Em “O Palhaço” há um destaque para Moacyr Franco, numa sequência impagável como o delegado. É pequena mas é ótima a participação também de Fabiana Carla.


“O Palhaço” tem graça e leveza, mas é um filme triste, todo ele pintado pela melancolia de Pangaré e seus sonhados ventiladores.


“O gato bebe leite, o rato come queijo...e eu sou um palhaço”, ensina o palhaço-pai, mandando essa didática mensagem à plateia: ninguém escapa da própria natureza. Pangaré sofrerá para chegar a essa conclusão, mas chegará.


De qualquer forma, é sempre bom ver um filme nacional de qualidade roubando uma significativa fatia do público de “Amanhecer”, num corajoso lançamento simultâneo. Com muito menos cópias, “O Palhaço” tem feito bonito nas bilheterias. É a luta desigual de nosso querido Selton contra os vampirinhos crepusculares que agora chegam ao amanhecer.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

EUROPA AOS PEDAÇOS



Por José Farid Zaine

farid.cultura@uol.com.br

Twitter: @faridzaine

Facebook: Farid Zaine


Tenho tido ótimos momentos com uma coleção de cinema que vem para as bancas de jornais e revistas todas as semanas. Eu não me contento em comprar a coleção toda de uma vez, porque para quem faz isso os filmes chegam depois...então eu vou à banca, mesmo, semanalmente, para adquirir meu exemplar. Muitos dos meus filmes favoritos estão ali, e revisitá-los tem sido uma tarefa agradável e emocionante. Lembro-me do impacto que causou em mim “Roma, Cidade Aberta”, de Roberto Rosselini, quando o vi pela primeira vez, quando muito jovem. Pensei que nunca veria nada melhor. Era apenas o princípio de uma paixão duradoura por um cinema verdadeiramente comprometido com a arte. Não que eu não curta os blockbusters, as grandes produções campeãs de bilheteria, as aventuras movimentadas e as fantasias delirantes produzidas pela alta tecnologia. Mas tenho uma enorme vontade de fazer com que jovens que vejam só esse tipo de filme, experimentem algumas dessas obras-primas imortalizadas pelas infinitas possibilidades de preservação através de novas mídias que surgem. Viva a tecnologia, quando ela se presta a salvar a arte, a dar longevidade à emoção , à beleza, à inteligência...


Seria maravilhoso se os fãs da saga “Crepúsculo” abandonassem um pouquinho o romance entre Bella e Edward, para verem o que é o amor, se é vivido por gente do tipo de Sophia Loren e Marcello Mastroianni. Com eles, sim, somos capazes de viver uma intensa história de amor, com um nó na garganta que nos carrega para dentro da tela...E “Asas do Desejo”, de Wim Wenders? Como resistir ? E porque o cinema americano continua com essa mania de refilmar obras-primas tirando-lhes toda a genialidade, para colocá-las numa linguagem rasa, fácil, que vise apenas os números nas bilheterias? Como alguém poderia refazer “Rocco e Seus Irmãos” , uma vez que foi dirigido por Luchino Visconti? Como substituir Alain Delon, Annie Girardot, Renato Salvatori, Claudia Cardinale? Como recriar aquela trágica, bela e poética fotografia em preto e branco? Pois que ninguém se atreva a destruir essas maravilhas, todas sobreviventes ao tempo, sem perder sua qualidade. É assim, originais, que elas precisam ser vistas e curtidas, agora ou daqui a décadas.


Os grandes problemas da Europa, principalmente a Segunda Guerra, inquietaram e angustiaram os mestres da sétima arte. Dessa amargurada visão nasceram maravilhas como “Roma, Cidade Aberta”, um dos marcos do neorrealismo italiano. Esse clássico pode mostrar a dimensão do talento de Anna Magnani, e apenas isso já garante ao filme um lugar na lista dos melhores de todos os tempos.


Como alguém poderia deixar de se apaixonar por “Cinema Paradiso”, uma das mais belas e comoventes homenagens ao cinema já feitas? A amizade entre o menino Totó (Salvatore Cáscio) e o projecionista vivido por Philippe Noiret entrou para a história da sétima arte. Um filme irresistível em qualquer tempo, com uma das mais lindas, criativas e poéticas sequências finais já editadas.


E como alguém poderia dizer que conhece cinema sem ter visto “A Doce Vida”, de Fellini, com a icônica cena de Anita Ekberg dentro das Fontana de Trevi? E o que dizer de Bernardo Bertolucci e seu revolucionário “Último Tango em Paris”, veículo para o maior ator que o mundo já teve, Marlon Brando? Com sua extrema inquietação europeia, Bertolucci sacudiu o mundo.


Da Suécia Ingmar Bergman nos traz seus “Morangos Silvestres”, essa viagem onírica que constitui uma experiência única e apaixonante, para aqueles que desejam mergulhar no trabalho de artistas tão completos, cuja capacidade de criar é inesgotável.


A Europa vive agora dias angustiantes, de incertezas e preocupações. O mundo vê, assustado, o velho continente vendo seus pedaços mergulhados em crises que se anunciam cada vez mais duradouras. Isso já deve estar mexendo com os sentimentos dos cineastas europeus, e não duvidem que magníficos filmes já estão sendo gerados, produtos dessa turbulência.


Palmas para a Folha de São Paulo, transformada na minha sala exibidora favorita em todos os fins de semana. Ela me oferece pedaços da Europa que eu devoro, não como tenros pescocinhos de pálidos vampiros adolescentes, mas como alimento vital para meu coração de celuloide.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Casa de Pesadelos

Por José Farid Zaine

farid.cultura@uol.com.br

Twitter: @faridzaine

Facebook: Farid Zaine


Um espectador desavisado, levado pelo título “A Casa dos Sonhos”, poderá pensar que se trata de uma história leve, romântica...ainda mais se souber que existe um trio que poderia sugerir um triângulo amoroso, pois no elenco estão o 007 saradão Daniel Craig e duas lindas mulheres, Rachel Weisz e Naomi Watts...uma olhada no cartaz, que ostenta duas lindas meninas, cujos corpos parecem se fundir com uma parede, pode mudar um pouco essa concepção.


No início do filme, a possibilidade de uma comédia romântica está plenamente presente: um escritor de sucesso abandona uma grande editora para se dedicar à família numa cidade do interior...o encontro com a mulher e as filhas é feito de romance, sexo, brincadeiras familiares, tudo para conferir a esses momentos um clima de harmonia naquela que seria “a casa dos sonhos” de todos. Logo as coisas vão mudar, e ninguém mais terá dúvidas de que se trata de um filme de mistério, suspense, terror. Os amantes do gênero vão ao cinema com muita expectativa, e esses poderão sair decepcionados. Até a metade o filme de Jim Sheridan vai bem, quando é revelado um grande mistério, que não vou contar aqui, obviamente. Contudo, as soluções dos enigmas são frustrantes.


A história é muito interessante: os novos moradores de uma casa descobrem que ali houve, há alguns anos, o assassinato de uma mãe e duas filhas pelo próprio marido; ele passa alguns anos numa instituição psiquiátrica, mas é liberado por falta de provas de sua culpa. Os novos moradores terão que se adaptar ao fato de a casa ser marcada por essa tragédia. As reações dos vizinhos, dos policiais, dos adolescentes da cidade, não são, contudo, normais. Aí somos envolvidos no clima do mistério e das perguntas sem respostas.


Jim Sheridan não é um cineasta qualquer, desses que faz filmes de terror para adolescentes, daqueles que só falta jorrar sangue da tela. Ele tem história, uma filmografia respeitosa. Seu talento não deixa de aparecer em “A Casa dos Sonhos” (Dream House), mas algo não agradou ao próprio diretor, pois consta que ele tivesse pedido que tirassem seu nome dos créditos do filme...O trio central, formado por Daniel Craig, Rachel Weisz e Naomi Watts vai bem, e as meninas são fofinhas, como convém a esse tipo de filme. Ver crianças baleadas, sangrando, contudo, não é uma coisa muito agradável, aliás é bem chocante. Por conter cenas dessa natureza é que a casa, dita dos sonhos, é na verdade moradia dos pesadelos mais sombrios.


Investidas de diretores em filmes que tratam de fantasmas, espíritos, já renderam obras interessantíssimas, como o magnífico “Os Outros”, de Alejandro Amenábar, com um show de Nicole Kidman. Ali o clima era construído com precisão, e o desfecho realmente assustador. Nada existia no roteiro que comprometesse a revelação final, daí o grande mérito do filme. O mesmo pode ser dito do melhor trabalho do irregular M.Night Shiamalan, o já clássico “O Sexto Sentido”. Sugiro uma revisão desses dois últimos para os fãs do gênero.


Jim Sheridan assina filmes bons, reconhecidos pela crítica e bastante premiados. Vale também uma revisão de alguns de seus melhores momentos, como “Meu Pé Esquerdo”, que valeu um merecidíssimo Oscar a Daniel Day Lewis, “Em Nome do Pai” e “Terra de Sonhos”.


Rachel Weisz, uma das atrizes favoritas de nosso diretor Fernando Meirelles, com quem fez “O Jardineiro Fiel” ( The Constant Gardener), é sempre uma ótima atriz. Por sua magnífica performance em “O Jardineiro Fiel” ela ganhou o Oscar de Melhor atriz coadjuvante, além do Globo de Ouro e do Screen Actors Guild. Para Rachel e Craig, a convivência durante o período de filmagens de “A Casa dos Sonhos” teve um final feliz, pois os dois acabaram se casando. Para os espectadores do filme, o final pode não ser o que se espera...mas é preciso ir ao cinema para conferir.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

UM BOM FILME RUIM



Por José Farid Zaine

farid.cultura@uol.com.br

Twitter: @faridzaine

Facebook: Farid Zaine


Um título paradoxal...como pode um filme ser bom e ruim? Se me perguntarem se “Poucas Cinzas – Salvador Dali” é bom, eu direi que não. Se perguntarem se eu indico o filme aos leitores e leitoras, eu digo que sim...como é isso? Eu explico. O filme de Paul Morrison foi detonado pela crítica na época do seu lançamento. Agora ele sai em DVD e podemos afirmar, sem medo, que ele dá uma boa sessão doméstica... Não se trata de nenhuma obra-prima, mas também não é o horror que pintaram. Porque eu estaria indicando um filme assim, se eu mesmo acho que não é tão bom? É que o assunto tratado é da maior relevância e, se bem colocado, daria um filme espetacular. Quem pode achar desinteressante uma história que fale de um suposto caso amoroso entre dois gênios das artes, um da literatura e outro da pintura? Pois “Poucas Cinzas” se fixa no romance entre Federico Garcia Lorca e Salvador Dali. O próprio Dali teria revelado, pouco antes de morrer, detalhes do tumultuado caso com o escritor, caso que começou nos tempos em que ambos frequentaram a mesma universidade. Por considerar que o público teria interesse mesmo nesse romance, o filme não vai fundo na obra magnífica de Lorca, principalmente nas suas consagradas peças teatrais, e passa com voo rasante sobre sua incandescente poesia, mas capta apenas fagulhas. Da mesma forma, passa também sem qualquer aprofundamento sobre a obra polêmica e a personalidade extravagante de Dali. Há ainda um terceiro gênio na história, outro contemporâneo dos dois, um terceiro e enorme talento espanhol, o do cineasta Luis Buñuel, interpretado por Matthew MacNulty. Ao mesmo tempo em que nos mostra as relações de amizade entre os três, Morrison revela um Buñuel exageradamente homofóbico, coisa difícil de engolir quando se trata de um cineasta revolucionário como foi o diretor de “O Discreto Charme da Burguesia” e outras obras-primas, entre elas “Belle de Jour”, com Catherine Deneuve.


O principal problema de “Poucas Cinzas” é o intérprete de Salvador Dali. O pintor, que misturava a extravagância com certa timidez, é com toda a certeza uma personagem muito forte, muito marcada pela quantidade de informações existentes sobre sua vida e sua obra. Para interpretar Dali, com uma performance à altura do significado do artista, seria necessário um ator de muitos recursos, muito talentoso, para dar conta de dar verossimilhança à interpretação. Quem foi o escolhido? Robert Pattinson, que não sabe fazer outra coisa a não ser o pálido e juvenil vampiro da saga “Crepúsculo”. O garoto é muito ruim, e é o principal fator do comprometimento da qualidade do filme. Há alguns momentos de certa química entre os dois protagonistas, em algumas cenas de tensão erótica, mas há outras de um romantismo cheio de clichês, como as cenas no mar escuro, sob o clarão da lua. Pattinson não tem postura para ostentar os bigodes de Salvador Dali.


Já o intérprete de Lorca, Javier Beltrán, pela semelhança com o escritor andaluz, não compromete tanto, embora esteja longe de fazer jus ao monumental autor de “Bodas de Sangue”, “A Casa de Bernarda Alba” e “Yerma”, só para citar três de suas obras-primas para o teatro.


O fato de eu recomendar o filme é justamente pela possibilidade dos amantes de Lorca conhecerem um pouco mais de sua história, do seu envolvimento com a política contrária à ditadura de Franco e do seu absurdo e covarde assassinato, calando uma das vozes mais iluminadas do século XX.


Portanto, caros leitores e leitoras, se desejarem entrar na vida de três grandes talentos espanhóis, Lorca, Dali e Buñuel, e se tiverem essa vontade quase voyeurista de saber se foi verdadeiro o romance entre Salvador e Federico, devem ver “Poucas Cinzas – Salvador Dali”. Mas se quiserem ver algo que tenha a força dos versos de Lorca, a ousadia das pinturas de Dali e a genialidade dos filmes de Buñuel, esqueçam-no... e me perdoem!

Avena volta às origens e lança 'Línguas'


Novo CD traz 12 canções. Sem perder a regionalidade, o grupo canta o amor, o sertão e o prazer de ser brasileiro, com direito até a bolero


Depois de 20 anos sem gravar um disco próprio, os “meninos” do Avena estão de volta. É verdade que, agora, eles estão mais experientes. Porém, mesmo cada um seguindo a sua vida, profissional e pessoal, o prazer de produzir a boa música os une de forma mágica e fascinante. Sorte a do público, que pode continuar sintonizando esse grupo que representa tão bem a cultura de Limeira. O cantor da noite Dalvo Vinco, o médico Marcelo Bella, o produtor Joaquim Prado e o professor Farid Zaine - formação original do Avena - lançam “Línguas”, o terceiro CD da banda que tem influência dos “meninos” de Liverpool.


Mas não é só Beatles que inspiram o Avena, não! Renato Teixeira é também uma das maiores influências na produção musical do grupo limeirense e, o homem que tão bem retrata o sertão, faz participação especial na canção “Cavalos”, antigo sucesso do Avena, única regravação de “Línguas”. Do resto, tudo é novo. E muito bom, diga-se de passagem.


“O Avena se mantém fiel aos seus propósitos, fazendo a música que marcou sua carreira: um som com características próprias, surgido das influências da música regional paulista, somadas às da música latino-americana e principalmente dos Beatles, o que resultou em faces rurais e urbanas do seu som, sem que ele perca as características do grupo”, explica Zaine, que assina a composição de todas as letras do novo CD, ao lado de Prado, compositor das músicas.
Avena - Créditos - Wagner Morente.

Logo no início do CD, a música que ganha o título do álbum retrata o amor nas suas mais diferentes línguas. Tem português, claro, mas também tem inglês, francês, espanhol, italiano, japonês e árabe. Isso só em uma canção, simples, é verdade, mas cheia de sentimentos disparados pela paixão. Nesta faixa, todo o grupo interpreta um trecho da canção e o sotaque caipira ganha força nos “erres” exagerados: uma brincadeira que dá ainda mais vida à composição. Essa boa mistura traz, na música, também o som do ukulele, um instrumento que ganha cada vez mais adeptos.


A terceira faixa, “A Dama de Azul”, é um bolero que traz, inclusive, citação de Marino Pinto e Mário Rossi em seus versos: “que será da luz difusa do abajur lilás”. A ousada composição retrata a vida de uma cantora, com uma história surpreendente. Quer saber quem é a dama de azul do Avena? Tem que ouvir a canção. “Foi especialmente emocionante escrever a letra ‘A Dama de Azul’, depois ver a música que eu achei perfeita, bem como o arranjo belíssimo”, gaba-se Zaine. É, ele tem razão!
Avena - Créditos - Wagner Morente.

Maria Bethânia ganha uma música exclusiva, chamada “A Mulher que Canta”, que homenageia um dos maiores nomes da MPB do país. O grupo levou a música para Bethânia no Teatro Abril, em 2010, ao final do show dela “Amor, Festa e Devoção”.


Catira e a vida no sertão estão presentes. E é na faixa de número seis. “Boi Laçado” mistura poesia, desejo e a vida simples, e promete não deixar ninguém parado quando o “play” for acionado.


Em “Alô Geral”, Avena revela seu enorme amor ao Brasil e traz a discussão de o quanto que o país tem melhorado de uns tempos pra cá, tornando-se referência aos países da América do Sul e um símbolo de investimento para o mundo todo. Em trechos como “alô Paris, Londres, Berlim / algum recado pra mim / acho que dessa vez eu vou ficar por aqui” ou “alô Teerã, Beirute, Bagdá / agora eu não quero voar / acho que entendi, melhor ficar por aqui” o grupo esbanja a simpatia que sente ao país em que vive.


“Línguas” traz na capa uma arte assinada pelo artista Stival Forti. O álbum mostra, no encarte, diversas imagens clicadas por Wagner Morente. O apoio é da Humaniza (Lei Rouanet), Máquinas Furlan e Centro do Professorado Paulista (CPP).


A coletiva de imprensa de lançamento do CD ocorreu na tarde desta quinta-feira, 10, no CPP. O grupo, porém, espera os amigos e os fãs na noite desta sexta-feira, 11, às 20h, no mesmo espaço da coletiva, localizado no Largo da Boa Morte, 154 – Centro – para apresentações de algumas das músicas que estão no novo CD. Na oportunidade, “Línguas” estará à venda, ao preço de R$ 20. O show de lançamento do álbum está previsto para ocorrer no próximo semestre.



História
O Avena começou no Trajano Camargo, no final dos anos de 1970. Mas seu início verdadeiro pode ser dado com a vitória em 1979, no Festival Livre da Canção de Taubaté, onde Renato Teixeira era presidente do júri. Lá, “Cavalos” conquistou os jurados e levou o principal prêmio.Avena em momento de descontração. Créditos - Divulgação.

“Línguas” é o terceiro álbum do grupo. O primeiro, lançado em 1985, tem o título “Avena”. “Festa do Peão” é o segundo, lançado em 1991. O show de lançamento do segundo disco aconteceu no Palácio Nacional da Cultura, em Sófia, capital da Bulgária. O grupo, quando esteve na Bulgária, cantou também na casa do Embaixador do Brasil, em jantar oferecido ao Avena, com a presença do Ministro da Cultura da Bulgária da época, país dos ancestrais da Presidente Dilma Rousseff.

“Estar na Bulgária foi um dos momentos mais inesquecíveis que passamos juntos. Foi a coroação de um trabalho contínuo que estávamos fazendo para a defesa da boa música brasileira”, afirma Prado.

O grupo passou por várias formações, sempre tendo Farid, Marcelo, Joaquim e Dalvo nelas. Na formação original estavam ainda Clodoaldo e Agnaldo Minetto, Marco Barbieri, Claudemir Toledo e Reynaldo Bella. No total, Avena ganhou mais de 200 prêmios em festivais por todo o Brasil, incluindo dois do SBT, o Festival Rímula. O grupo apresentou-se mais de 11 vezes no “Som Brasil”, da Rede Globo, participou do “Empório Brasileiro” (Band), “Empório Brasil” (SBT), “Viola, Minha Viola” (TV Cultura). A música “Cavalos” foi tema da novela “Bicho do Mato”, da Rede Record.

Para Prado, o novo CD reflete as escolhas atuais do grupo, com algumas composições que estavam engavetadas e ganharam vida novamente, com a preocupação da sociedade contemporânea, que desperdiça tempo com situações irrelevantes e esquecem do que realmente vale a pena. “A amizade e o prazer em viver são elementos que queremos resgatar, seja no universo urbano ou no caipira”.

Dalvo é o “arquivo vivo” do grupo. “Das minhas gavetas saiu a maior parte do repertório atual: às vezes eu cantava pro Joaquim e Farid músicas que nem eles lembravam que eram deles”, brinca.

Segundo Bella, o diferencial desse disco é “a união da mais moderna tecnologia à poesia das composições”.

“’Línguas’ é um disco que o Avena sempre quis fazer, que nasceu da vontade de compartilharmos com os amigos as músicas que curtíamos mas não tínhamos gravado, além de outras novas que surgiram. Ele carrega o desejo de que as pessoas entendam que estamos dizendo, através da música, o quanto elas são queridas, de todas as formas e em todas as línguas”, conclui Zaine.

Ficha Técnica
Avena: Joaquim Prado, Farid Zaine, Dalvo Vinco e Marcelo Bella
Violão: Joaquim Pradro, Dalvo Vinco e Marcelo Bella
Contrabaixo, baixo fretless e baixo acústico: Ricardo Finazzi
Bateria e percussão: Emílio Martins
Acordeon e bandoneon: Tadeu Romano de Almeida
Bandolim: Marcelo Bella
Ukulele e berimbau: Joaquim Prado
Zabumba e Triângulo: Jorjão Borrão
Guitarra acústica e guitarra: Edson Ferreira
Piano e Arranjos de Cordas e de Metais: Luciano Barbosa Filho
Violinos: Henrique Buenro, Mariana Dutra Berbert, Mariana Mantovani, Elizandra dos Santos e Renan Nery Gomes
Violas: Mitchel Assis, José Clovis Forte e Winnie Leite
Violoncelos: Gabriela Pacheco Barbosa e Leandro Pereira
Flauta Transversal: Marco Antonio Barbieri
Trompetes: Islan dos Santos e Elton Ricardo de Lima
Trompa: Felipe Furlanetti
Trombone: Paulo Pires de Moura
Maestro: Fernando Barreto

As 12 músicas
1 - Línguas
2 - Anjo Violeiro
3 - A Dama de Azul
4 - A Mulher que Canta
5 - Na Orelha
6 - Boi Laçado
7 - Cavalos, participação de Renato Teixeira
8 - Tiroteio
9 - Baú de História
10 - Ponte Morena
11 - Valente
12 - Alô Geral


Release enviado por Ronald Gonçales (Estudante de Comunicação Social - Jornalismo).

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A NOVA PELE DE ALMODÓVAR


Por José Farid Zaine
farid.cultura@uol.com.br
Twitter: @faridzaine
Facebook: Farid Zaine

As viagens de Almodóvar pelos porões das mentes e dos corações das pessoas carregam sempre os mesmos passageiros: mães e filhos com relacionamentos estranhos e conturbados, mulheres fortes e determinadas, homens trágicos, sombras do passado... e o sexo, onipresente, e da maneira menos ortodoxa possível. Ao mexer com sonhos, fantasias e desejos ocultos das pessoas, Almodóvar sempre revela um universo familiar em desalinho, daí a composição de suas personagens tão peculiares. Ele se daria muito bem filmando uma das peças de Nelson Rodrigues.

“A Pele que Habito”, novo filme do diretor espanhol, estreia nesta semana em todo o Brasil, e teve várias pré-estreias na semana passada. Um novo filme de Pedro Almodóvar sempre vira um acontecimento no meio cinematográfico. Ele tem uma legião de fãs por aqui, país com o qual ele tem fortes laços afetivos, muito pela amizade com Caetano Veloso.

As histórias estranhas, dramáticas e cheias de enredos mirabolantes são marcas de Almodóvar, assim como as cores fortes que ele usa, que sempre dão um caráter pictórico a seus filmes, as famosas “cores de Almodóvar”. Em “A Pele Que Habito”, elas estão presentes, mas um pouco mais discretas para combinar com o jeitão “noir” do novo trabalho. Ele busca aqui o ser humano refeito, recomposto, talvez para reforçar o quão imperfeito ele é. A história é a de um cirurgião plástico vivido por Antonio Banderas, o Dr. Robert Ledgard , cuja esposa sofre um acidente e tem o corpo todo queimado. Robert buscará, por meio de todos os recursos que conhece, lícitos e ilícitos, pesquisar a produção de uma nova pela humana, resistente às mais terríveis queimaduras. O cinéfilo atento verá aí inevitáveis comparações com os clássicos de terror que Almodóvar deve conhecer a fundo: Frankenstein, principalmente, e seus derivados, como A Noiva de Frankenstein. Modificar um ser humano, praticamente criando outro, sem prever as consequências que isso pode ocasionar tem sido um dilema tratado com imensa cautela pela Ciência. Leis rígidas deixam claros os propósitos de impedir o uso do ser humano como cobaia de novas experiências na era do código genético desvendado. A Bioética está aí para direcionar tudo. Mas como em Almodóvar o que menos importa são regras, o Dr. Robert tratará de quebrar todas elas. Antonio Banderas e Marisa Paredes estão entre os preferidos do diretor. E eles sempre se dão muito bem sob a batuta de seu mestre. Banderas protagonizou um dos mais cultuados filmes de Almodóvar, “A Lei do Desejo”, além de outros sucessos como “Ata-me”, ”O Matador”, “Labirinto de Paixões” e “Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos”. Marisa Paredes, grande nome do cinema espanhol, está presente na obra-prima “Tudo Sobre Minha Mãe”, que deve ser visto e revisto sempre que se deseja analisar a obra de Almodóvar. Ela, diva do diretor, está também em “De Salto Alto”, “Maus Hábitos” e “A Flor do Meu Segredo”. Ela veio ao Brasil divulgar o lançamento de “A Pele que Habito” e contou, no Programa do Jô, a história de seu longo relacionamento profissional e de amizade com Almodóvar.

Todos os filmes estrelados por Antonio Banderas e todos os por Marisa Paredes, dirigidos por Pedro Almodóvar, devem ser vistos. Claro, os outros do diretor também, especialmente “Fale com Ela”, “Carne Trêmula”, “Má Educação” e “Volver”. Tarefa divertida e apaixonante é esta, a de revisitar os sucessos do diretor.

E para quem tem chance de viajar um pouco, o negócio é procurar um cinema de São Paulo ou de Campinas onde esteja sendo exibido “A Pele Que Habito”. Vale a pena conferir a nova investida do irrequieto Pedro Almodóvar ao universo dos estranhos desejos que habitam o íntimo dos seres humanos. É ele, Pedro Almodóvar, que vamos encontrar habitando uma nova pele, a de um diretor que se renova permanentemente sem perder as características de sua verdadeira face.

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

MIL MOSQUETEIROS

Por José Farid Zaine

farid.cultura@uol.com.br

Twitter: @faridzaine

Facebook: Farid Zaine

Athos, Porthos e Aramis, além de D´Artagnan, é claro, foram convocados para uma nova missão. Eles não tem descanso. O livro , desde seu lançamento, há mais de 150 anos, passa de mão em mão, geração após geração. E Hollywood não dá folga: volta e meia surge uma nova versão dessa aventura apaixonante, que se não encantasse e envolvesse as pessoas não seria esse sucesso tão duradouro. O cinema precisa desses romances cheios de ação e reviravoltas, heróis simpáticos e humanos, mulheres delicadas e vilãs impiedosas, traições e vinganças. Todos esses condimentos temperam a já secular aventura para a qual Alexandre Dumas deu o título de “Os Três Mosqueteiros”, mesmo que o público já soubesse que eles eram, na verdade, quatro, porque antes de se tornar livro Dumas publicou a história em forma de folhetim no jornal “Le Siècle”.


A nova investida do cinema em cima da obra de Dumas teria de ser, naturalmente, diferente das anteriores. Sim, aqui estão os mesmos heróis, o mesmo e ardiloso Cardeal de Richelieu, a bela e perversa Milady, os três beberrões, mercenários e muito, muito patriotas, acrescidos do jovem impetuoso que vem da zona rural para Paris( papel de Logan Lerman, D´Artagnan). Aqui está a necessidade de driblar as traições de Milady, e estão também as investidas do Duque de Buckingham, as tramas diabólicas do Cardeal de Richelieu, a delicadeza de uma rainha e a fraqueza de um rei. Tudo pela França é preciso ser feito...então, “um por todos e todos por um”. Tudo igual. O que mudou, então? A aventura agora nos chega com sofisticados efeitos especiais, a tecnologia muito em moda do 3D, bem utilizada aqui, diga-se, direção de arte espetacular, figurinos maravilhosos, fotografia apropriada, tudo para criar um visual perfeito, arrebatador, que tenha a tarefa de encobrir todas as outras falhas...além, claro, de conquistar o público adolescente.


“Os Três Mosqueteiros”, na versão de Paul Anderson, cumpre seu papel de ser um divertimento sem maiores pretensões. O cinema vive disso, também, e muito. As avassaladoras bilheterias das grandes aventuras embaladas por luxuosas produções estão aí para confirmar.


Grandes obras da literatura universal sempre terão muitas versões no cinema. Basta adaptá-las ao gosto das novas gerações, utilizando as conquistas tecnológicas. Por esse aspecto, não dá para reclamar das duas horas de duração de “Os Três Mosqueteiros”, personagens que não encontram aqui atores à altura de sua fama( Luke Evans, Ray Stevenson e Mattew Macfadyen, respectivamente Athos, Porthos e Aramis). Os vilões, então, deitam e rolam. Milla Jovovich, que já foi a Joana D´Arc de Luc Besson, se encaixa bem no papel de Milady, com direito a cenas que remetem a Matrix e outras aventuras modernas e futuristas. Caminho perigoso, esse escolhido por Paul Anderson, mas que não chega a comprometer, porque desde muito logo o espectador já percebe que o filme não tem qualquer compromisso com a verossimilhança. Isso se comprova mais fortemente nas cenas das batalhas aéreas, quem diria, entre dois navios que também são dirigíveis. A questão, então, é ver o que funciona como divertimento, e vale passar por cima da história e da cronologia das descobertas.


Christoph Waltz, que ganhou o Oscar de melhor ator coadjuvante no magnífico “Bastardos Inglórios”, de Quentin Tarantino, é quem dá vida ao Cardeal de Richelieu. Ele vai muito bem no papel, dosando de forma competente as marcantes nuances dessa personagem cobiçada por muitos atores.


Surpreendente é a presença de Orlando Bloom, interpretando o Duque de Buckingham, numa performance engraçada que o ator não deixou, por pouco, cair no ridículo.


E, para quem quiser comparar, sem saudosismos, esta versão com outras disponíveis em DVD, há o clássico espetacular de 1948, com Gene Kelly e Lana Turner, dirigido por George Sidney e a versão de 1993, dirigida por Stephen Herek, com Chris O´Donnel , Kiefer Sutherland e Rebecca de Mornay.


Estejam todos preparados, porque haverá muitas, muitas versões ainda dessa aventura inesgotável. No final desta versão de 2011, o aviso (ou a ameaça) de uma continuação nunca foi tão escancarado.

sexta-feira, 21 de outubro de 2011

ELVIS, MADONA E LEON CAKOFF

Por José Farid Zaine

farid.cultura@uol.com.br

Twitter: @faridzaine

Facebook: Farid Zaine

Hoje tem “Elvis e Madona” estreando por aqui, com duas sessões, às 19h10 e 21h10, no Arcoplex Pátio Limeira. O filme já é bem conhecido do público da cidade por causa da pre-estreia ocorrida no Teatro Vitória, no dia 19 de maio de 2011. Nessa noite inauguramos nosso Projeto “Cine Cultura”, com essa avant-première concorrida, com ótimo público. Na ocasião, esteve presente o astro do filme, o ator Igor Cotrim, intérprete do travesti Madona. Seu par é a atriz Simone Spoladore, intérprete de Elvis. O casal inusitado do filme de Marcelo Laffitte é, sim, formado por um travesti e uma lésbica... e eles se apaixonam. A história desse romance é recheada de encontros, desencontros, problemas familiares, violência, sexo e muito humor...


A pre-estreia de Elvis e Madona em Limeira foi marcante. Na mesma noite, autografou seu livro ali, na Galeria do Teatro Vitória, o jornalista e apresentador de TV, Luiz Biajoni, meu amigo escritor e cinéfilo. Bia escreveu um livro homônimo a partir do filme, do roteiro dele. O livro agradou e vem fazendo sucesso em muitas noites de autógrafos por todo o Brasil. Então existe uma ligação entre o filme e a cidade de Limeira, razão pela qual a Arcoiris Cinemas, empresa que é responsável pela programação das salas do Arcoplex Pátio Limeira, resolveu lançar o filme por aqui, apoiada pela Secretaria da Cultura e por uma campanha promocional na TV Jornal. Aproveito este espaço, em que já fiz meu comentário a respeito do filme, para convidá-los, leitores e leitoras, a prestigiarem as exibições dele por aqui. Vamos nos encontrar lá no nosso Shopping hoje, às 19h10, para um bate-papo e em seguida para curtirmos juntos esse exemplar do novo cinema brasileiro, um cinema cada vez mais em sintonia com seu público. “Elvis e Madona”, além de Igor Cotrim e Simone Spoladore, tem um maravilhoso elenco onde se destacam Maitê Proença, Buza Ferraz e José Wilker. O filme foi premiado em diversos festivais no Brasil e no exterior. Não percam.


E que relação existe entre “Elvis e Madona” e Leon Cakoff, proposta no título deste artigo? Acontece que Leon Cakoff, o criador da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo, uma das maiores e mais importantes do mundo, morreu neste fim de semana, vitimado por um câncer. No ano passado “Elvis e Madona” foi exibido na Mostra, após uma noite de autógrafos do livro do Bia. Lembrei-me de Leon, com quem conversei longamente uma vez, lá na Mostra, a grande obra de sua vida. Leon era extremamente atencioso. Sua vida era integralmente dedicada a esse magnífico projeto, de importância única na cultura brasileira, e vital para a formação de cinéfilos...todos nós, que amamos o cinema, devemos muito, muito a Leon Cakoff. A Mostra de Cinema de São Paulo foi a única maneira de vermos centenas de filmes que jamais chegariam ao nosso circuito comercial...muitos filmes que vi ali nunca chegaram às salas exibidoras, nem sequer foram lançados em vídeo. Onde mais, tão perto, eu poderia ver um filme holandês e, em seguida, conversar com o diretor? Devo ao Leon poder ter feito isso e muitas outras coisas que me aproximaram ainda mais do cinema, alimentando minha mais antiga paixão.


Leon Cakoff nos deixa uma semana antes de ser iniciada a 35ª edição da Mostra Internacional de Cinema de São Paulo. Ficou para sua esposa, a cineasta Renata de Almeida, que já vinha dirigindo com ele o evento, a tarefa de mantê-lo. Ela fará isso, com toda a certeza, pela competência própria e pelo aprendizado com Leon Cakoff, e ainda por ser a melhor forma de reverenciar sua memória.


Leon Cakoff morreu dia 14 de outubro, aos 63 anos. Iniciou a Mostra em 1977, com 16 longas e 7 curtas. Com o sucesso do Projeto, a Mostra chegou a exibir mais de 400 filmes em uma única edição, como aconteceu em 2010. Cakoff lutou bravamente contra a censura, no pior período da ditadura militar e foi vitorioso, contribuindo enormemente para manter viva a expressão artística e o crescimento cultural no País. Perdeu a luta contra o câncer, que derrotou seu corpo. Seu espírito guerreiro, contudo, estará presente nos milhares de filmes de todo o mundo que continuarão chegando até nós por causa dele...

terça-feira, 18 de outubro de 2011

NAMORADOS

Por José Farid Zaine

farid.cultura@uol.com.br

Twitter: @faridzaine

Facebook: Farid Zaine

Chega às locadoras o último filme de Ferzan Ozpetek, cineasta nascido na Turquia e radicado na Itália, “O Primeiro Que Disse” (Mine Vaganti). Trata-se de uma comédia dramática ambientada na cidade de Lecce, ao sul da Itália. Não será preciso dizer que a paisagem é belíssima, retratada por uma fotografia competente. Mas o filme está longe de ser uma daquelas comédias tipo “cartão postal” ou road movie turístico. A história é sobre uma família tradicional italiana, os Cantone, dona de uma fábrica de massas. O filho mais novo, Tommaso, interpretado por Riccardo Scamarcio, que deseja ser escritor e estuda em Roma, onde mantém um namoro com Marco, estudante de medicina, vem para Lecce decidido a revelar sua condição ao pai, num jantar em que o irmão mais velho, Antonio (Alessandro Preziosi), será anunciado como presidente da empresa. Acontece que Antonio, antecipando-se a Tommaso, resolve confessar que é gay. O pai, enfurecido, expulsa Antonio de casa, sofre um infarto, o que obriga Tommaso a deixar sua revelação para depois, uma vez que recai sobre ele a responsabilidade de tocar a fábrica. A partir daí, surgem fatos inesperados que vão revelando ao espectador a natureza das pessoas, suas paixões secretas, seus vícios...O jovem ator Riccardo Scamarcio, em ascensão na cena italiana principalmente por causa de sua beleza, abraçou sem medo o papel do protagonista, e é um dos trunfos do filme. “O Primeiro que Disse” nos devolve a comédia italiana agradável ao penetrar no universo familiar com as peculiaridades do povo desse país. Ozpetek não é nenhum Moniccelli, nem tampouco um Nanni Moretti, um Ettore Scola, mas se dá muito bem ao conduzir uma história cheia de nuances cômicas e dramáticas, sem cair no pastelão nem no melodrama. A intervenção mais descontraída, mais cômica, fica por conta dos amigos de Tommaso e de seu namorado que chegam à mansão dos Cantone de surpresa. Eles farão de tudo para não “entregarem” sua homossexualidade, tema explorado no já clássico “A Gaiola das Loucas”. Tudo, enfim, gira em torno de amores, namoros...a história da avó e seu romance com o cunhado (“só os amores impossíveis são eternos”, diz ela), o namoro do pai com sua amante, Tommaso e Marco, Antonio e Michele...a roda da vida movida pelo amor.

É assim em “Namorados para Sempre” (Blue Valentine), de 2010, dirigido por Derek Cianfrance, um belo e forte drama sentimental sobre um namoro que poderia ser eterno...aqui vamos ao encontro de um homem que, ao ver uma garota pela primeira vez, decide que ela será a mulher de sua vida. Ela vem de um relacionamento complicado, está sozinha e grávida...eles se acertarão e passarão a viver um romance cheio de emoções, reviravoltas, tensões...até que ponto o namoro continua poético e suave como nas primeiras promessas, nos primeiros encontros? Onde termina o amor e começa o sentimento de posse? Até onde o passado pode caminhar junto, sem destroçar uma relação?

“Namorados para Sempre” tem sua grande força na interpretação do casal de protagonistas. Ela é Michelle Williams, um talento já consolidado no poderoso drama “O Segredo de Brokeback Mountain”, em que fazia a esposa de Ennis Del Mar, personagem de Heath Ledger, enorme talento perdido numa morte precoce. Michelle, na vida real, foi esposa de Ledger, eles tiveram uma filha, mas estavam separados na ocasião da morte do ator. O parceiro de Michelle em “Namorados para Sempre” é Ryan Gosling, em uma interpretação perfeita, tocante. Em 2011 os dois foram indicados ao Globo de Ouro, e ela foi indicada ao Oscar de melhor atriz.

Dois bons motivos para ficar em casa curtindo um DVD: a comédia dramática italiana “O Primeiro que Disse” e o drama americano “Namorados para Sempre”. Em ambos conheceremos grandes emoções que só namorados experimentam, e veremos como elas chegam até nós pela ótica de bons diretores.

sexta-feira, 7 de outubro de 2011

UNIVERSOS FASCINANTES

Por José Farid Zaine

farid.cultura@uol.com.br

Twitter: @faridzaine

Facebook: Farid Zaine


Uma experiência extraordinária é ver o filme “Hubble”, um documentário de 43 minutos, em 3D, no sistema IMAX, no shopping Bourbon Pompeia, em São Paulo. O filme nos coloca, literalmente, dentro da nave espacial que, em 2009, levou astronautas americanos para uma missão de consertar o telescópio Hubble. Jamais a sensação de profundidade, de mergulho dentro de uma tela, pode ser tão emocionante.


Lá, no mesmo cinema, eu vi “Avatar” e me encantei com suas qualidades técnicas, incansavelmente buscadas por James Cameron; vi também as peripécias de “Alice no País das Maravilhas”, com Johny Depp. Mas aí a sensação era de mero divertimento, pois os filmes eram obras de ficção. Navegar em 3D pelas montanhas flutuantes de “Avatar” foi algo magnífico, inédito, principalmente por acontecer como uma novidade, um avanço, na verdade uma reciclagem altamente tecnológica e bem sucedida de algo que principiou nos anos 1950.



No caso de “Hubble”, o espanto com o que se vê é que é tudo real! Não há nenhuma pirotecnia de efeitos especiais. A sensação que temos é, sim, provocada pelo sistema de lentes usado na filmagem, pelos óculos incômodos dos quais dependemos para ver e sentir as três dimensões...só que não estamos acompanhando uma história fictícia, de heróis conquistando o espaço, de naves em guerra, de explosões estelares criadas pela computação gráfica ...a viagem em que somos mergulhados é feita da paisagem real do universo, com seus bilhões de galáxias...Onde o olho humano jamais poderia chegar naturalmente, o poderoso olho do Hubble chega, vasculha, fotografa, filma, revela...Lançados à vastidão cósmica, começamos a refletir sobre nós mesmos, nossa condição humana. É inevitável. Diante da grandiosidade do que vemos, colocamo-nos frente a frente com nossas dúvidas e certezas, nossas angústias, nossas crenças.


Em “Hubble”, as impressões dos astronautas diante da beleza da Terra são tocantes, porque são as mesmas que sentimos. Dizem que a corrida espacial dos anos 1960, que culminou com a conquista da Lua, serviu sobretudo para nos revelar a Terra. “A Terra é azul”, exclamação de Yuri Gagarin ao ver nosso planeta de uma altura até então nunca atingida por um ser humano, apesar de parecer simples e ingênua, foi uma das frases com maior conteúdo revelador já ditas, porque significava uma mudança radical na História, na imagem que tínhamos do nosso lar no universo porque, apesar de já estudada, conhecida, ela agora surgia real e imponente diante dos olhos de um homem, e por extensão, da humanidade.


O documentário “Hubble” é capaz de mexer com nossos sentimentos, além de nos alimentar com imagens espetaculares. A morte de uma estrela, o nascimento de outras, a passagem por bilhões delas ao encontro com galáxias que estão a milhões de anos-luz de nós constitui-se numa viagem sem paralelo no cinema. Todos os espetáculos já mostrados pela ficção e pela tecnologia da fábrica de sonhos, ficam apenas no plano da ilusão. Ilusão eficiente, claro, cumprindo um dos papeis do cinema, que é possibilitar que vivamos com intensidade e emoção as mais delirantes fantasias.


Falei do “Hubble”, do poder dele para revelar o universo desnudado diante dos nossos olhos, o que equivale a falar do poder do próprio cinema, quando se trata de exibir o que é real. Agora, para acentuar o poder da tela grande de nos arrastar para o mundo dos sonhos, recomendo hoje uma ida ao Teatro Vitória. Lá a Secretaria da Cultura, prosseguindo com seu projeto “Cine Cultura”, fará a exibição do musical “Moulin Rouge”, a visão do diretor australiano Baz Luhrmann de uma história de amor intensa e apaixonante, vivida dentro de um cabaré parisiense em 1899 . Com suas cores fortes, sua esfuziante coreografia, sua trilha sonora atemporal e eficiente, aí temos um filme que nos faz viver outra espécie de viagem. Na pele de Nicole Kidman e Ewan McGregor viveremos uma tórrida paixão sublimada por belas canções.


“Moulin Rouge – Amor em Vermelho”, como foi chamado no Brasil, é empolgante e belo, sendo capaz de conquistar até quem não curte muito o gênero. Contribuem para essa aceitação a música conhecida, o apelo da beleza do casal de protagonistas e a edição veloz, que deixa o filme sempre ágil, como um videoclipe. Foi indicado ao Oscar de melhor filme, e ganhou nas categorias direção de arte e figurino.


Valerá a pena ir a São Paulo, pegar uma sessão às 13 h no Imax do Bourbon Pompeia para um encontro com o realismo de “Hubble”( depois das 13 h você correrá o risco de ser golpeado pela violência de “Premonição 5”), assim como ir ao Teatro Vitória hoje, às 20h, com entrada franca, para um mergulho em outro universo - fictício, mas também fascinante -, o dos belos musicais, vendo “Moulin Rouge” e descobrindo os sons e as cores do amor, esse inesgotável e eterno tema.

terça-feira, 4 de outubro de 2011



A TROPA DE ELITE...EM UM MUNDO MELHOR!

Por José Farid Zaine

farid.cultura@uol.com.br

Twitter: @faridzaine

Facebook: Farid Zaine

A Comissão que escolhe o representante do Brasil para disputar uma das vagas para concorrer ao Oscar de Melhor Filme estrangeiro acertou. A escolha recaiu sobre o maior recordista brasileiro de bilheteria de todos os tempos, “Tropa de Elite 2”, de José Padilha, visto por mais de 11 milhões de espectadores nos cinemas, e outros milhões no DVD, além da TV paga. O primeiro filme, também muito bem sucedido e campeoníssimo em pirataria, não só arrebatou as plateias brasileiras, como a crítica internacional, vencendo um dos principais festivais de cinema do mundo, o de Berlim, de onde nos trouxe um reluzente Urso de Ouro. No ano passado, nosso representante “Lula, o Filho do Brasil” não chegou lá, apesar do apelo da história de um político poderoso, nosso ex-presidente, principalmente por ser o relato de uma vida cheia de superações, bem ao gosto da Academia. Haverá alguma relação entre o brasileiro “Tropa de Elite 2” e o vencedor do prêmio entregue no início de 2011, o dinamarquês “Em Um Mundo Melhor”? Por alguns aspectos, sim. Em “Tropa de Elite 2” temos um policial que deseja o fim da corrupção na polícia e na política. Ele quer um mundo melhor para o filho. O filme é violento, cheio de ação, com uma dinâmica rara no cinema nacional, uma montagem ágil que envolve o espectador do começo ao fim. Pode ser uma ótima pedida no Oscar. Wagner Moura consolidou sua carreira de grande ator nos dois filmes, e em todos os trabalhos que tem realizado na TV e no teatro. Ao construir o Capitão Nascimento, ele criou uma personagem que chegou facilmente aos corações dos brasileiros. O povo precisava dele, tanto que seus bordões ficaram populares, coisa difícil de acontecer através de um filme nacional atualmente, embora fosse comum nos tempos das chanchadas. Mas nem só da atuação de Wagner Moura vive Tropa 2. “O inimigo agora é outro”, diz o subtítulo , referindo-se ao fato de que, ao combater o tráfico de drogas, o Capitão Nascimento entenderá que precisará combater muitas outras coisas, talvez mais perigosas. Um ótimo elenco traz Irandhir Santos, André Ramiro, Milhem Cortaz, Sandro Rocha, André Mattos, Maria Ribeiro e Tainá Muller. Não será tarefa fácil o filme chegar aos 5 finalistas da categoria melhor filme estrangeiro no Oscar, sempre onde estão as maiores surpresas. Será preciso que o filme seja visto por todos os votantes, e isso também demanda um grande trabalho. Tomara que seja bem recebido pelo público e pela crítica dos EUA, para que chame a atenção dos membros.

Agora vamos ao filme que venceu nessa categoria neste ano, “Em Um Mundo Melhor”. Veio da Dinamarca e é um poderoso drama sobre estar dividido entre o desejo de vingança e o perdão, sobre cultivar a paz ou promover uma guerra por sentir que ela é necessária para continuar a viver com dignidade...um tema bem complexo, mas em que vejo a ligação com nossa Tropa 2. Tanto em um como em outro, os pais querem um mundo melhor para seus filhos. O filme dinamarquês conta a história do médico Anton, dividido no trabalho em um campo de refugiados na África, e sua vida na Dinamarca, a tentativa de reconciliação com a mulher e a relação com o filho que sofre bullying na escola; o envolvimento do filho com outro adolescente problemático trará à cena angustiantes discussões.

“Em Um Mundo Melhor” é dirigido por Susanne Bier, e está disponível em DVD e Blu-Ray. Em 2011 concorreu com o grego “Dentes Caninos”, o canadense “Incêndios”, o argelino “Fora da Lei” e o Mexicano filmado em Barcelona, “Biutiful”, ótimo momento do cineasta Alejandro Gonzalez Inárritu.

Vejamos outra vez “Tropa de Elite 2” para, distante do lançamento e do frisson que causou, analisarmos suas reais possibilidades de entrar na reta final do Oscar. Sim, isso vai ser muito importante para os brasileiros. Não ter ganho o Oscar sempre foi uma frustração do meio cinematográfico brasileiro, principalmente por termos engolido duas vezes a Argentina levando o prêmio...e, naturalmente, com dois ótimos filmes, “A História Oficial”, em 1986, e “O Segredo de Seus Olhos” no ano passado.

É também uma tarefa bem agradável fazer uma revisão ou conhecer os vencedores dos últimos anos, principalmente para aqueles “torcedores” fanáticos que procuram descobrir, pelos vencedores, o gosto dos acadêmicos. Em 2009 venceu “A Partida”, belíssimo e original drama japonês, tratando com delicadeza e poesia do áspero tema da morte, ou de como lidar com os mortos na hora da despedida. Veio da Áustria o vencedor de 2008, “Os Falsários”, inusitada incursão por um campo de concentração em que talentosos falsificadores judeus lutam por se manterem vivos diante da opressão e da violência dos alemães. Foi o representante da Alemanha o vitorioso em 2007, o magnífico “A Vida dos Outros”, drama desenrolado nos tempos de uma Berlim dividida. “Mar Adentro”, da Espanha, de 2005, e “As Invasões Bárbaras”, de 2004,do Canadá, estão entre meus favoritos vencedores da última década. Não há quem não possa ver, em todos eles, a busca de um mundo melhor. Então, mais do que nunca, fiquemos na torcida por nosso “Tropa de Elite 2”. Que o capitão Nascimento celebre a chegada de um mundo melhor... com a estatueta na mão!

sexta-feira, 23 de setembro de 2011

A ÓPERA DO MALANDRO

Por José Farid Zaine

farid.cultura@uol.com.br

Twitter: @faridzaine

Facebook: Farid Zaine


Nesta sexta-feira o Teatro Vitória abre as cortinas para uma grande produção realizada inteiramente em Limeira, a montagem “A Ópera do Malandro”, de Chico Buarque de Hollanda, com a Orquestra Sinfônica de Limeira, a Villa Jazz e a Cia. Pelo de Gato Preto. A estreia será hoje, às 20h e amanhã haverá nova apresentação. A Secretaria da Cultura tem vivenciado o “frisson” que antecede a estreia de um espetáculo tão ousado, tão grandioso: cenógrafos, coreógrafos, figurinistas, preparadores vocais, músicos, atores, atrizes, todos trabalhando muito, às vezes virando noites para que tudo fique pronto para o grande dia...e tudo pensado para que o público tenha acesso a um espetáculo de qualidade, que as pessoas possam se divertir e se emocionar. A noite de hoje é especial para a Cultura de Limeira. Nossa Orquestra Sinfônica, com a regência de Rodrigo Müller, já deu mostras mais do que suficientes de sua maturidade, de sua evolução técnica e da aprovação dada pelo público ao longo de 16 anos de existência. No palco do Vitória mesmo, além de seus concertos oficiais espetaculares, tanto com o mais sofisticado repertório erudito, quanto com o mais festejado repertório popular, a Orquestra já esteve à frente de montagens de óperas como “Carmen”, de Bizet, “La Traviata”, de Verdi, e “O Elixir do Amor”, de Donizetti. Agora ela se lança neste projeto que traz à cena uma das mais conhecidas e bem sucedidas obras do gênio Chico Buarque, graças ao esforço conjunto de grupos talentosos e abnegados, como o Villa Jazz, do grande músico e arranjador Emanuel Massaro, completando 10 anos de existência, e a Cia. Pelo de Gato Preto, um dos orgulhos do teatro limeirense, também perto de comemorar a primeira década de vida. Junte-se a tudo isso o talento do diretor Gerson Fontes, da atriz e produtora Tatiana Alves, de um grande elenco e teremos a receita de um espetáculo para cativar e apaixonar todas as plateias.


Eis um grande motivo para sair de casa nesta sexta e amanhã, sábado. Um grande programa de valor artístico e cultural valorizando nossa agenda. Mas a coluna é de cinema e vídeo, dirão meus caros leitores e leitoras. Pois, como em outras oportunidades, faço hoje um link entre o teatro e o cinema, para indicar duas obras que merecem ser vistas: a montagem teatral limeirense do musical “A Ópera do Malandro”, e o filme de Ruy Guerra, de 1986, que levava à tela grande o enorme sucesso de crítica e público do musical que ficou por grandes temporadas em nossos teatros.


“A Ópera do Malandro”, foi escrita por Chico Buarque em 1978, inspirada na “Ópera dos Três Vinténs”, composta em 1928 por Bertold Brecht e Kurt Weill, que por sua vez se basearam na “Ópera dos Mendigos”, criada por John Gay em 1728 .


As músicas de Chico saíram dos palcos para se transformar em sucessos aclamados em todo o país. Incrível verificar que, de um só musical, saíram preciosidades da nossa música popular como “Folhetim”, “Pedaço de Mim”, “Geni e o Zepellin”, “O Meu Amor”, “Teresinha”, “Tango do Covil”...Elba Ramalho, Tânia Alves, Gal Costa, Zizi Possi, Marlene, Alcione e Maria Bethânia foram algumas das cantoras que deram vida a músicas da peça. Impossível desvincular “Folhetim” de Gal Costa, “Pedaço de Mim” de Zizi Possi ou “Teresinha” de Maria Bethânia. As músicas compostas para a peça ganharam vida própria e passaram a ocupar espaço na história do nosso cancioneiro...

Então, para quem deseja curtir ao vivo as interpretações de tão marcantes canções, há a montagem que estreia hoje no palco do Vitória. Para quem não viu o musical lançado nos cinemas em 1986, há o DVD disponível desse belo filme de Ruy Guerra, um cineasta da maior importância para o cinema brasileiro. O filme tem no elenco Edson Celulari, como o protagonista, Max Overseas, e Cláudia Ohana como Ludmila; J.C.Violla faz Geni e Ney Latorraca é Tigrão. Há ainda as marcantes presenças de Fábio Sabag, Elba Ramalho, Cláudia Jimenez, Wilson Grey e outros.


Ruy Guerra tem o nome inscrito para sempre na história do cinema brasileiro pela ousada direção de “Os Cafajestes”, com Norma Bengell e Jece Valadão. O filme foi um escândalo na época de seu lançamento, 1962, e hoje é um clássico cultuado de nossa filmografia. Também é possível vê-lo em DVD, assim como “Os Fuzis”, de 1964, considerado pela maioria dos críticos como seu melhor filme.


Outra marca de Ruy Guerra, também com Cláudia Ohana, é “Erêndira”, adaptação do conto de Gabriel Garcia Marquez, “A Incrível e Triste História da Cândida Erêndira e sua Avó Desalmada”, também disponível em DVD.


“A saudade é o revés de um parto... a saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”...esses são versos, que eu coloco entre os mais belos da história de nossa MPB, da belíssima “Pedaço de Mim”. Com essa amostra, quem é capaz de resistir?...então, todos ao teatro, e depois às locadoras...